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Saúde Pesquisadores desenvolvem técnicas que ajudam evitar desperdício de comida Num mundo em que 815 milhões de pessoas não têm o que comer, o reaproveitamento combate a fome, cria empregos e diminui o impacto ambiental

Por: Correio Braziliense

Publicado em: 26/12/2017 08:15 Atualizado em:

Almentos. Foto: Barbara Cabral/Esp. CB/ D.A Press
Almentos. Foto: Barbara Cabral/Esp. CB/ D.A Press
Enquanto, em todo o mundo, 815 milhões de pessoas passam fome, um terço da produção de alimentos vai parar no lixo. Um paradoxo que cientistas tentam solucionar, investindo em novas ideias que façam aumentar a aceitação de itens que, normalmente, seriam descartados. De acordo com uma pesquisa da Universidade de Drexel, na Filadélfia, a forma em que se apresenta produtos feitos com esses ingredientes influencia a preferência do consumidor. Os que tiveram maior resposta positiva foram aqueles rotulados como “upcycled”, um termo sem tradução para o português e que se refere a artigos que ganham um reúso, sem passar pelo processo clássico de reciclagem e, portanto, sem a adição de substâncias químicas.

“Existe um argumento econômico, ambiental e cultural para se tratar o alimento, quando possível, como alimento, e não como lixo”, argumenta Jonathan Deutsch, professor do Centro de Gerenciamento Alimentar da instituição. “Converter alimentos excedentes em produtos vai alimentar pessoas, criar oportunidades de emprego e empreendedorismo, além de diminuir o impacto ambiental dos resíduos”, diz. Deutsch comanda um projeto piloto de reaproveitamento de alimentos para a população carente no oeste da Filadélfia, onde, de acordo com ele, há um grande contingente de indivíduos de baixa renda, com cenário de insegurança alimentar.

Nos Estados Unidos, estima-se que os domicílios despejem no lixo 36 bilhões de toneladas de comida por ano. No Brasil, segundo a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO, sigla em inglês), desde a colheita até o consumidor, o desperdício chega a 40%. Muitos ingredientes são descartados durante o processo produtivo embora estejam imperfeitos para o consumo apenas devido à aparência. “A grande questão é: os compradores aceitarão produtos feitos de ingredientes que seriam destinados ao lixo? Uma pessoa comeria e pagaria por uma barra de granola feita de grãos residuais da produção de cerveja ou por um molho de vegetais não apresentáveis para venda nos supermercados?”, questiona Deutsch.

Ele argumenta que, apesar de os benefícios macroeconômicos e sustentáveis dos produtos excedentes parecerem claros, muitos consumidores são relutantes em adquiri-los, por associá-los ao lixo. Por isso, a equipe da Universidade de Drexel tentou decifrar como ocorre o processo de tomada de decisão quando a comunicação sobre esses alimentos é apropriada.

Testes

Os pesquisadores conduziram uma série de testes como uma primeira tentativa de compreender o que se passa na cabeça das pessoas em relação a essa nova categoria alimentar, que eles chamam de alimentos excedentes de valor agregado. Então, examinaram a influência de três fatores que poderiam influenciar a tomada de decisão: a descrição do produto, o rótulo e os benefícios do alimento para o consumidor e para a sociedade como um todo.

No primeiro estudo, os participantes foram apresentados a três categorias alimentares: convencional, orgânico e alimentos excedentes de valor agregado. Então, os pesquisadores mostravam para eles quatro diferentes produtos que usavam essas descrições e pediam para avaliá-los. Os voluntários consideraram que os alimentos excedentes de valor agregado eram mais valorosos para o meio ambiente, comparado à comida convencional, mas menos, em relação aos orgânicos. Esse resultado indicou que eles identificaram claramente a nova categoria, entendendo que era diferente de orgânico e de convencional.

O teste seguinte foi feito com nove rótulos para os alimentos excedentes de valor agregado: upcyled, atualizado, reciclado, adaptado, reprocessado, recuperado, não-processado, reutilizado e resgatado. Upcyled ganhou a preferência dos participantes, seguido por reprocessado. No último teste, os pesquisadores investigaram se os participantes consideravam que os benefícios do produto de valor agregado eram maiores para eles ou para a sociedade como um todo. Os voluntários afirmaram que consumir esse tipo de alimento geraria mais ganhos para o coletivo do que de forma individual.

Segundo Rajneesh Suri, professor da Faculdade de Engenharia Biomédica da Universidade de Drexel e coautor do artigo, publicado no The Journal of Consumer Behavior, as descobertas positivas do estudo são valorosas para os defensores da sustentabilidade, o mercado de alimentos e os acadêmicos. “Ao explorar a aceitação dos consumidores e a preferência em potencial por produtos de valor agregado, essa pesquisa se torna uma das primeiras a tentar examinar, empiricamente, o processo de avaliação do consumidor para essa nova categoria de alimentos”, diz. O mais importante, segundo os pesquisadores, é que, ao identificar a apresentação ideal dos produtos que iriam parar no lixo, eles podem contribuir para aliviar de alguma forma a crise alimentar global.

“Alimentos excedentes de valor agregado podem ser percebidos como mais próximos dos orgânicos como categoria, encorajando a possibilidade de promovê-los a uma nova categoria que oferece benefícios à sociedade”, acredita Suri. Para ele, isso pode tornar os produtos lucrativos. “Dependendo da comunicação que você faz a respeito deles, isso pode torná-los produtos premium, como ocorreu com os orgânicos”, diz.


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