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Aulas Ratinhos de pelúcia substituem cobaias em laboratório Professora da USP inova ao usar bichinhos de pelúcia nas aulas e, assim, evitar o sofrimento e a morte de animais

Por: Correio Braziliense

Publicado em: 20/12/2017 15:34 Atualizado em:

A iniciativa vem poupando sofrimento e morte de cerca de 45 ratos por ano. Foto: Facebook/Reprodução
A iniciativa vem poupando sofrimento e morte de cerca de 45 ratos por ano. Foto: Facebook/Reprodução

Há cinco anos, uma professora da USP em Ribeirão Preto usa animais de pelúcia em aulas práticas sobre diabetes mellitus. A iniciativa vem poupando sofrimento e morte de cerca de 45 ratos por ano, com benefícios ao aprendizado dos estudantes que perdiam o foco com a dor dos animais.

Responsável pela aula alternativa, cursada por alunos das faculdades de Odontologia (Forp) e de Ciências Farmacêuticas (FCFRP) da USP, a professora Maria José Alves da Rocha conta que as aulas de laboratório da disciplina de Fisiologia sobre diabetes mellitus nunca foram confortáveis. Os alunos sofriam com a coleta de sangue dos animais para dosar a glicemia, pois era necessário um corte no rabo do animal, relata. A professora explica ainda que esses ratos ficavam em estado deplorável e exalavam forte odor causado por diarreia, efeito colateral da droga que induz ao diabete.

Ao buscar uma solução para o problema, Maria José encontrou alguns artigos científicos sobre modelos de aulas de sucesso com animais artificiais e decidiu desenvolver seu próprio material. Aproveitou as gaiolas metabólicas – equipamento onde ratos de verdade ficam e têm suas fezes e urina coletados – já existentes e adquiriu os ratinhos de pelúcia em oferta numa grande loja.

Com a ajuda do técnico de laboratório Mauro Ferreira da Silva, abriu o abdômen de alguns bichinhos que, a cada aula, são preenchidos com bolas de gude para alcançar pesos diferentes. Para o sangue e urina, que também são artificiais, recebeu a colaboração do então aluno de Farmácia Paulo José Basso. Esses preparados simulam os diferentes níveis de glicemia, ou seja, a quantidade de açúcar no sangue.

As análises, comparando as aulas com animais reais e as que usam métodos alternativos, ofereceram à professora a certeza do caminho certo. "Modelos de ensino que não envolvem experimentos nocivos ou com morte de animais são benéficos à aprendizagem", garante a professora. Ela conta que era comum estudantes se distraírem do objetivo principal, a doença, ao se envolverem em discussões sobre a dor e o desconforto que os animais experimentam. "Questões éticas são importantes e devem ser incorporadas em um curso de fisiologia", defende a professora.

Entre as vantagens das aulas com a substituição dos animais, ela aponta a oportunidade do aluno discutir as diferenças entre a diabete tipo 1 e tipo 2, oferecida pela simulação do rato obeso. Ela afirma que a técnica pode ser facilmente adaptada em todos os cursos das áreas biomédicas que ensinam fisiologia endócrina, mesmo em instituições com menos recursos, já que não requer grande suporte técnico nem equipamentos ou espaços físicos específicos.

Por esse trabalho de ensino, a professora e sua equipe receberam o Prêmio do Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações (MCTIC) de Métodos Alternativos à Experimentação Animal, como o terceiro colocado na categoria Produção Acadêmica

CPI 
Enquanto isso, na Unicamp, os alunos de medicina ainda treinam em porcos e coelhos procedimentos de drenagem de tórax, suturas de alças intestinais, abordagem de órgãos retroperitoniais para contenção de sangramentos e janela cardíaca para controle de ferimentos graves. Na Faculdade de Medicina do ABC, os mesmos procedimentos já são realizados há dez anos em cadáveres de animais eticamente adquiridos sem perda da qualidade do ensino, uma vez que a faculdade já atingiu nota máxima no Enade. E nos EUA e Canadá mais nenhuma escola médica utiliza cobaias no ensino, apenas modernos simuladores em forma de bonecos realísticos (alguns específicos para área de emergência) e simuladores em 3D.

Os deputados da CPI de Maus-Tratos Contra Animais da Assembleia Legislativa de SP ouviram no dia 13 de dezembro o professor Wagner Fávaro, do Instituto de Biologia da Unicamp, convocado para falar sobre o uso de animais naquela instituição que, junto com a USP e a Unesp, entregaram ofício ao governador alegando que não existem métodos substitutivos para todos os procedimentos usados no ensino. Os ofícios foram entregues por ocasião do Projeto de Lei 706/2012, do deputado estadual Feliciano Filho (PSC), que restringe o uso de animais no ensino (não na pesquisa).

Feliciano Filho considerou a reunião da CPI bastante produtiva: “O professor respondeu todos os nossos questionamentos e explicou que a Unicamp ainda mantém quatro procedimentos feitos com animais no ensino da Medicina. No entanto, disse que visitará a Faculdade do ABC para conhecer o método com cadáveres para, quem sabe, implantar na Unicamp”.

"A professora Júlia Matera, da USP, inclusive, aprimorou essa técnica e os cadáveres podem sangrar e duram até seis meses. Outra vantagem é que os alunos podem treinar também fora da aula e não sofrem dissensibilização ao assistirem tantos animais sendo arrastados para as aulas práticas. Os animais sabem que vão morrer”, explica a professora Odete Miranda, uma das responsáveis pela aboliçaõ do uso de cobaias na Faculdade de Medicina do ABC.

O professor Fávaro comentou também que nenhum outro curso da Unicamp utiliza cobaias e que o biotério da faculdade cria ratos e camundongos destinados apenas para a pesquisa. Feliciano ressaltou que os deputados da CPI ouvirão técnicos e formularão relatório a ser encaminhado ao Ministério Público:

"Havendo método substitutivo, segundo o artigo 32 da Lei 9.605, o uso de animais no ensino é crime. Por isso, peço humildade as universidades estaduais para que aceitem que podem melhorar seu ensino sem o uso de cobaias e façam a transição para um aprendizado muito mais eficiente e sem sofrimento".

Além da Unicamp, a CPI de Maus-Tratos Contra Animais já ouviu também a USP. A convocação da Unesp, no dia 12, não foi proveitosa porque o professor escolhido para representar a instituição alegou não ter conhecimento técnico para falar de métodos substitutivos no ensino. Os deputados pretendem convocar a Unesp para uma próxima reunião ainda sem data marcada.


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