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ESTUDO Cientistas buscam identificar áreas do cérebro humano ligadas à monogamia O experimento foi feito em ratazanas da pradaria, um dos poucos animais monogâmicos que "namoram". Segundo os autores, o mecanismo é similar ao que ocorre em humanos

Por: Correio Braziliense

Publicado em: 02/06/2017 20:58 Atualizado em:

As ratazanas das pradarias são um dos poucos mamíferos que têm um único parceiro. Monogamia é prática pouco comum no reino animal. Daí a curiosidade de cientistas norte-americanos em entender por que esses roedores se comportam desse jeito. A resposta pode estar no cérebro. A partir da análise da atividade neural desses bichos enquanto eles formavam vínculos, investigadores detectaram atividades mais acentuadas no córtex pré-frontal e no núcleo accumbens, ambos ligados ao prazer. Os achados, publicados na última edição da revista Nature, confirmam suspeitas quanto à criação de laços sociais e poderão ser usados na área médica.

Por mais de 20 anos, os autores do estudo se debruçam sobre a neuroquímica e a neuroanatomia para entender a dinâmica entre casais. Nessa busca, resolveram analisar a atividade cerebral de roedores enquanto eles se relacionavam. %u201CSaber onde essas substâncias químicas atuam no cérebro não nos diz como elas afetam a atividade cerebral durante as interações, momento a momento. Queríamos aproveitar os recentes avanços na neuroengenharia e utilizá-los para observar os grupos de neurônios quando eles estão se comunicando%u201D, conta ao Correio Robert Liu, professor associado da Universidade de Emory, nos Estados Unidos, e um dos participantes da pesquisa.

Apenas 5% dos mamíferos, incluindo os humanos e as ratazanas das pradarias, são monogâmicos. %u201CAo contrário dos ratos, quando as ratazanas da pradaria se familiarizam com outro membro de sua espécie, formam um vínculo de casal, gostam de passar mais tempo com o parceiro, em um comportamento chamado de %u2018encolhimento%u2019, que é semelhante às carícias dos seres humanos%u201D, explica o investigador. As observações ocorreram enquanto as ratazanas interagiam socialmente até formarem um vínculo com um parceiro. %u201CUsando uma analogia com os seres humanos, observamos o comportamento cerebral enquanto %u2018namoravam%u2019%u201D, compara Liu.

Os cientistas descobriram que os animais que se ligavam mais cedo a seus parceiros apresentavam maior atividade no córtex pré-frontal e nos neurônios presentes no núcleo accumbens, áreas envolvidas em respostas comportamentais de recompensa, relacionadas a atividades prazerosas, como os vícios. Para reforçar o achado, os pesquisadores utilizaram uma técnica de estimulação por meio da luz para ativar os neurônios presentes nas regiões estudadas e observaram que, após a interferência, os animais se uniram mais rápido. %u201CEssa estimulação fez com que o vínculo ocorresse de forma mais ágil. Ao ativar essas áreas de recompensa, vimos que, por exemplo, quando a fêmea estava perto do macho, ela agia mais afetuosamente em relação a ele%u201D, detalha o autor.

Para os autores, a estimulação do córtex pré-frontal e do núcleo accumbens podem ter otimizado, nos roedores, a percepção de características de seu parceiro, desencadeando o comportamento mais afetuoso. %u201CNós acreditamos que esse controle do sistema de recompensa faz com que a codificação neural das características do parceiro (odores e sons) se torne mais acentuada.%u201D

A equipe ressalta ainda que, em humanos, a ligação das áreas neurais estudadas e o vínculo emocional também é estudada. %u201CEm estudos anteriores, essas áreas foram ativadas quando homens olhavam para fotos de pessoas que sentiam afeto ou quando as mães observavam imagens de seus bebês%u201D, ressalta o autor. %u201CAcreditamos que os aspectos de nossos resultados se generalizam para os seres humanos e outras espécies. Há evidências de que as características de nossos entes queridos %u2014 o rosto, o cheiro e a voz, por exemplo %u2014 se ligam ao sistema de recompensa do nosso cérebro por meio da comunicação entre as áreas que processam informações sociais. Nossos estudos são os primeiros passos na identificação dos princípios gerais pelos quais isso emerge.%u201D

Aplicações

Gilberto Xavier, neurocientista do Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo (USP), destaca que o trabalho aprofunda os estudos que ligam o córtex pré-frontal e o núcleo accumbens à atração. %u201CPodemos dizer que a ciência não dá pulos, podem surgir coisas novas e abordagens mais originais, mas todas usam como base estudos anteriores. Já sabíamos da atuação dessas áreas como atuantes no sistema de recompensa, mas o que eles fizeram foi mostrar como essa ligação ocorre dinamicamente%u201D, diz o especialista, que não participou do estudo.

Xavier ressalta que explicar como ocorre a ligação amorosa rende discussões ricas, já que ela está ligada a necessidades biológicas do homem. %u201CA criação de vínculo é necessária para que ocorra a sobrevivência da espécie. Costumo até brincar com a minha filha que o beijo nada mais é que um teste de compatibilidade, é uma espécie de avaliação, que mostra como a pessoa pode ser um parceiro em potencial%u201D, argumenta. %u201CAcredito que estamos começando a entender melhor como funciona o sistema nervoso humano e, consequentemente, aprendemos sobre temas considerados como mitos anteriormente, como o amor.%u201D

O neurocientista indica novos caminhos que esse conhecimento pode abrir. %u201CNão me surpreenderia se, futuramente, entendermos por que as relações também acabam. Do ponto de vista biológico, sabemos que quanto maior a diversidade de combinações genéticas, maior a nossa chance de sobreviver. Isso pode explicar por que relações amorosas em que as pessoas tiveram filhos terminam depois de alguns anos. Talvez, a pessoa não perca a atração. Para ela, seria apenas interessante biologicamente ter outro parceiro%u201D, opina.

Os autores do estudo também indicam futuras aplicações da descoberta, mas na área médica. %u201CAcreditamos que poderemos usar essas informações para ajudar pessoas com deficiências na capacidade de formar relacionamentos sociais, como no autismo e na esquizofrenia%u201D, exemplifica Liu. %u201CEstamos também estudando como a ocitocina, que é conhecida por criar vínculos entre pais e filhos e também casais, facilita a comunicação entre essas áreas cerebrais estudadas%u201D, adianta o autor.

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