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Ser multitarefa parece uma obrigação diante das demandas da vida social e do trabalho Mas será que esse engajamento simultâneo é mesmo necessário?

Por: Renata Rusky

Publicado em: 13/03/2017 08:05 Atualizado em:

Há quem veja a multitarefa como uma exigência da atualidade e garanta que tira de letra. Foto: Paulinho Miranda/Arte EM/D.A Press
Há quem veja a multitarefa como uma exigência da atualidade e garanta que tira de letra. Foto: Paulinho Miranda/Arte EM/D.A Press
O hábito de fazer muitas coisas ao mesmo tempo é chamado, em inglês, de multitasking. Por lá, a palavra pode funcionar também como um verbo. Em português, usa-se mais o adjetivo “multitarefa”. Por exemplo: “Fulano é multitarefa – assobia e chupa cana ao mesmo tempo”. A tecnologia parece convidar o indivíduo a se multiplicar (ou se dividir) em muitos. Ouvimos música no celular enquanto conversamos com alguém por mensagens instantâneas; lemos um e-mail; pesquisamos sobre algum tema; passamos o olho em alguma notícia interessante. Tudo ao mesmo tempo.

Há quem veja a multitarefa como uma exigência da atualidade e garanta que tira de letra. A maioria, porém, se “enrola” e sonha em ter um dia com mais de 24 horas. Um estudo da Universidade de Utah concluiu que apenas 2,5% das pessoas têm a capacidade de fazer (com desenvoltura) diversas atividades ao mesmo tempo: são os supertaskers. Segundo os pesquisadores, boa parte dos 97,5% restantes até tenta se desdobrar em vários, mas estão fadados à frustração.

Segundo o psicólogo David Strayer, um dos responsáveis pela pesquisa realizada em Utah, as pessoas tendem a fazer mais coisas de uma vez porque têm dificuldade de bloquear outras distrações e se concentrar em uma tarefa só. “Ser multitarefa é uma desculpa para começar uma nova atividade sem terminar a anterior”, afirma. Essa dificuldade se traduz em dezenas de abas abertas no navegador do computador, que geram procrastinação, ansiedade...

Do ponto de vista neurológico, Anthony Wagner, professor de psicologia da Universidade de Stanford, explica que fazer muitas coisas ao mesmo tempo reduz a produtividade do cérebro. “Quando uma pessoa multitarefa está em situações em que há múltiplas fontes externas de informação, ela fica incapacitada de filtrar o que é relevante para o seu objetivo.” A ansiedade advinda desse baixo rendimento é inevitável.

Para Nicolas Carr, autor de A geração superficial e outros livros que criticam a forma como usamos a tecnologia, a internet encorajou as pessoas a aceitar interrupções constantes, a fazer várias coisas ao mesmo tempo. “Perdemos a capacidade de afastar as distrações e de ser pensadores atentos, de nos concentrar no nosso raciocínio, ou seja, a forma como a tecnologia evoluiu nos últimos anos tornou-se mais distrativa; encoraja uma forma de pensar que é a de passar os olhos pela informação e desencoraja um pensamento mais atento”, afirma.

É preciso conciliar as tarefas sem entrar em um ritmo desenfreado

O professor e servidor público João Coelho, de 29 anos, trabalha cerca de 50 horas por semana, o que já está bem acima da média. Ainda muito jovem, ele desenvolveu um forte senso de responsabilidade. Irmão mais velho, cuidava do menor. Começou a trabalhar aos 13. Sempre gostou de se envolver em muitas atividades. “Quando entrei na faculdade, era um estudante que trabalhava. Prestes a sair, era um trabalhador que estudava. Isso, sem deixar de lado atividades de pesquisa e extensão da universidade e programas voluntários”, relembra.

Até que percebeu que o ritmo desenfreado estava prejudicando sua saúde. Precisou frear um pouco para, então, superar a obesidade. Fazer muitas coisas não chegava a ser um problema, mas era preciso mais organização para não sair atropelando uma ou outra. “Precisei aprender na marra a me programar, a fazer uma coisa de cada vez. Vi que aquilo não estava me fazendo bem e, se você não está bem, não faz nada direito”, conta.

Atualmente, além do cargo público, ele dá aulas para concurso. Por um tempo, também deu aulas no curso de direito da UnB. Fazer exercícios físicos tornou-se uma prioridade. Encontrar os amigos pelo menos duas noites durante a semana garante a saúde mental. João dorme de seis a oito horas por dia e desperta sempre às 5h, para organizar as tarefas.

Na repartição, João busca estar inteiramente presente e é reconhecido pela eficiência. São muitas as demandas, mas todas dizem respeito ao trabalho. “Com o tempo, descobri que, além de ser importante você focar em uma coisa por vez, é preciso que todas as atividades estejam relacionadas de alguma forma. Meu trabalho no cursinho me ajuda no meu trabalho no serviço público e vice-versa. As coisas convergem de alguma forma”, explica.

OTIMIZAÇÃO DO TEMPO João tem idade suficiente para ter vivido uma época em que o acesso à internet não era tão popular, e os celulares faziam pouca coisa além de ligações. Para ele, a tecnologia foi essencial para otimizar o tempo. Mas isso só ocorre porque ele é extremamente disciplinado no uso. O acesso às redes sociais está limitado ao horário de almoço. Ele recebe muitos e-mails relacionados às videoaulas que ministra – seria interrompido a todo momento se não tivesse uma rotina de checagem.

De acordo com a neuropsicóloga Rosimeire Oliveira, nós estamos confundindo as dimensões síncrona e assíncrona da comunicação. A primeira diz respeito à disponibilidade das pessoas que trocam informação. A segunda ocorre quando uma das partes não está disponível na hora em que a mensagem é emitida – ocorre muito no WhatsApp.

“Perdemos o limite disso. Dá uma sensação de que, se a pessoa recebeu a mensagem, se visualizou, tem que responder imediatamente. Isso gera um estresse tanto em quem está esperando a resposta quanto em quem tem que responder. Se ela não pode na hora, fica preocupada com o que o outro pode pensar”, observa. “As pessoas agora vivem com a sensação de que deveriam estar sempre alertas. Elas tentam se concentrar no trabalho, mas não podem focar por completo porque precisam estar atentas ao celular”, aponta.
 
Uma coisa de cada vez

Pesquisadores da Universidade de Stanford também se debruçaram sobre o tema em 2009. Uma das hipóteses que queriam checar era se as pessoas que nasceram e cresceram em contato com as tecnologias digitais estariam mais preparadas para o multitasking. São os nativos digitais. Eles submeteram cerca de 100 estudantes a diversos testes e descobriram que, na verdade, esses jovens têm mais dificuldade de se concentrar. “Quando tentam focar em uma atividade só, tudo os distrai. Quando percebemos isso, cogitamos a possibilidade de eles terem mais facilidade de esquecer uma tarefa anterior quando passam para a outra, mas não: eles trocavam de tarefa, mas não conseguiam deixar de pensar na tarefa que haviam deixado para trás e no que não estavam fazendo”, explica Clifford Nass, professor de psicologia da universidade.

Pelo critério “idade”, Nara Menezes, de 22 anos, jornalista, pode ser considerada uma nativa digital. Porém, a jovem leva muito a sério a ideia de não fazer várias coisas simultaneamente. Ela está ciente do risco de fazer todas malfeitas. A percepção de que não era multitask veio no começo da faculdade. Coincidentemente, também quando começou a dirigir. “É impossível para mim”, admite. Ter rede social instalada em seu celular já faz com que se distraia muito. Uma das estratégias é não ter muitos grupos de conversa no WhatsApp, aplicativo de mensagens instantâneas.

Quando estava fazendo seu trabalho de conclusão de curso, ela decidiu baixar um aplicativo que trava o celular por completo. É só programar por quanto tempo. “Não adianta colocar senha, desligar e ligar de novo. Fica completamente inútil”, conta. Um dia, estudando para um processo seletivo de mestrado, leu sobre um método de estudo que consiste em pequenos intervalos entre as leituras. Tentou, mas, com o celular bloqueado, ficou entediada.

CONCENTRAÇÃO Quando está dirigindo, o celular fica guardado na bolsa e no modo silencioso. Na verdade, quando está na direção ela nem conversa. Os amigos fazem graça e continuam conversando, mas Nara ignora. “Se eu tentar bater papo no volante, erro o caminho, não vejo pedestre na faixa. É um desastre”, conta. E já aconteceu algumas vezes. Certa vez, ela e uma amiga estavam a caminho da faculdade para apresentar um trabalho. Ela entrou em uma rua errada. “Precisamos ligar para comunicar o atraso. Chegamos meia hora depois do horário combinado”, relata.

Nara também não suporta ter muitas janelas abertas no computador e jamais usa o celular enquanto está conversando com alguém, atitude comum hoje em dia. “Minha atenção fica só em uma coisa. Não me irrito com quem fala comigo e usa o celular ao mesmo tempo, desde que consiga mesmo prestar atenção em mim e no celular”, afirma. Se está falando ao telefone com alguém, não consegue nem passar o recado de alguém que esteja à frente dela. Prefere passar o telefone direto para a pessoa.

Fazer uma coisa de cada vez e aproveitar a companhia do outro sem interrupções tem a ver com qualidade de vida. “Não é que a internet seja ruim, mas, como tudo, oferece ganhos e perdas, a depender de como se usa. Numa festa, por exemplo, é comum ver pessoas que deixam de conversar com os amigos, de dançar, para responder às mensagens e tirar várias fotos. Depois, postam nas redes sociais, ganham curtidas, mas, no fim das contas, não aproveitaram o evento”, analisa a neuropsicóloga Rosimeire Oliveira.

Sugestão  de leitura

O livro A mente organizada, do neurocientista norte-americano Daniel J. Levitin, mostra como a mente lida com o excesso de informação. Segundo ele, nossos cérebros evoluíram para prestar atenção em uma coisa de cada vez, o que fez com que nossos ancestrais pudessem caçar animais e criar ferramentas. No século 21, porém, o excesso de informação força nosso “maquinário” em sentido oposto àquele exercitado por nossos ancestrais. Leia um trecho:

Exigimos cada vez mais que nosso sistema de atenção se concentre em várias coisas ao mesmo tempo, algo que ele não foi programado pela evolução a fazer. Falamos ao telefone enquanto dirigimos, escutamos rádio, procuramos vaga, planejamos o aniversário da mãe, tentamos fugir das placas de aviso de obras na estrada e pensamos no que terá para o almoço. Na verdade, não podemos lidar com tudo isso ao mesmo tempo, de modo que nossos cérebros alternem de uma coisa para outra, a cada vez pagando um preço neurobiológico pela troca. O sistema não funciona bem assim. Depois de se fixar em uma tarefa , nosso cérebro funciona melhor se atendo a ela. Prestar atenção a uma coisa significa não prestar atenção a outra. A atenção é um recurso de capacidade limitada.


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