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Reconhecimento internacional Pesquisadora do Aggeu Magalhães é eleita uma das 10 personalidades do ano na ciência pela revista britânica Nature Em entrevista, Celina Turchi aborda os desafios para realizar estudos sobre zika em ano de crise no país

Por: Diario de Pernambuco

Publicado em: 25/12/2016 16:48 Atualizado em:

Credito: Nações Unidas/Divulgação
Credito: Nações Unidas/Divulgação

Há um ano e dois meses, o mundo foi surpreendido por um fenômeno cujo epicentro era Pernambuco. Bebês nascendo com malformação craniana em uma sequência crescente e assustadora, em diversas partes do estado e também do Nordeste, acenderamm o alerta da saúde mundial. Pesquisadores e profissionais, serviços básicos e entidades de fomento internacionais, iniciaram uma corrida para reestruturar a rede para receber as crianças e, ao mesmo tempo, responder ao anseio geral, descobrir a causa da explosão de casos de microcefalia no Brasil.

Se hoje o mundo inteiro sabe da existência da síndrome congênita do zika, a microcefalia e uma série de outras consequências causadas pela infecção pelo vírus, uma das responsáveis é a pesquisadora Celina Maria Turchi Martelli, do Centro de Pesquisas Aggeu Magalhães (CpqAM/PE), da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz). Eleita uma das 10 personalidades do ano na ciência pela revista britânica Nature, uma das mais importantes publicações científicas do mundo, Celina é responsável por coordenar o Grupo de Estudo da Microcefalia Epidêmica (MERG) e foi citada em função do trabalho "formidável" realizado para estabelecer a relação entre o vírus zika e a microcefalia em bebês.

A produção das evidências ocorreu a partir de estudo com 32 crianças nascidas com microcefalia e 62 nascidas sem a malformação, em oito hospitais públicos da RMR. Celina Turchi é graduada pela Universidade Federal de Goiás, tem mestrado em epidemiologia pela London School of Hygiene & Tropical Medicine/UK e doutorado pela Universidade de São Paulo. Com experiência na área de epidemiologia das doenças infecciosas, incluindo estudos sobre hepatite e dengue, Celina aborda em entrevista ao Diario os desafios para realizar os estudos sobre zika em ano de crise no país. 

O que significa para o seu trabalho ser considerada uma das 10 pesquisadoras mais importantes de 2016 pela Nature?
Primeiro, gostaria de dizer que pesquisa é sempre trabalho de grupo. Significa o reconhecimento dos pesquisadores, profissionais de saúde e também das instituições públicas do Brasil na condução da epidemia de microcefalia por zika. Esse foi um novo capítulo da História da Medicina, palavras do Dr. Carlos Brito no início da epidemia. Esse reconhecimento é para o protagonismo brasileiro. O mérito é dos dedicados e competentes profissionais de saúde que deram o alerta (Drª Vanessa Van Der Linden e Drª Ana Van Der Linden), da Secretaria Estadual de Saúde, responsáveis pela Vigilância Epidemiológica, que desenvolveram junto com o Ministério da Saúde a implantação de um sistema de notificação de casos e de protocolos de atendimento às gestantes e aos neonatos.

Esse é também um reconhecimento ao impacto da descoberta da relação do zika com a microcefalia?
Acredito que tenha sido o reconhecimento por uma investigação metodologicamente bem delineada, recrutando prospectivamente casos de microcefalia e controles sem microcefalia. Ressalto que o trabalho do Grupo de Estudo da Microcefalia Epidêmica (MERG) teve o papel de apresentar evidências sólidas sobre a associação. Outros importantes trabalhos brasileiros apontavam para essa relação.

Como e de que forma a microcefalia (uma das consequências da hoje conhecida síndrome congênita do zika) foi incluída dentro das suas pesquisas?
Obrigada pela oportunidade de ressaltar que essa pesquisa foi uma demanda do Ministério da Saúde ao grupo de pesquisadores. Diferentes instituições de pesquisa, ensino e atendimento à saúde de Pernambuco se uniram para formar um grupo de trabalho ou uma força-tarefa para a investigação. Centro de Pesquisa Aggeu Magalhães- Fiocruz-PE, Universidade Federal de Pernambuco, Universidade Estadual de Pernambuco, Secretaria Estadual de Saúde de Pernambuco, LACEN-PE, Instituto Materno Infantil de Pernambuco são algumas das instituições que foram fundamentais para estabelecer a investigação. Aproveitamos para agradecer ao Ministério da Saúde do Brasil e à Organização Panamericana de Saúde pelo financiamento ao projeto e pelo apoio irrestrito durante a condução do mesmo.

Quais os principais desafios enfrentados ao longo do desenvolvimento do estudo?
O principal desafio foi estabelecer um projeto metodologicamente correto, criterioso do ponto de vista científico e ético, durante um período tão conturbado que é um período de epidemia. Outro desafio foi estabelecer parceria com instituições prestadoras de atenção à saúde para recrutamento dos casos de microcefalia. Impossível agradecer a todos os profissionais de saúde que colaboraram de forma anônima e generosa para que o estudo pudesse ser conduzido. Compartilho esse reconhecimento com os colegas e com as mulheres de Pernambuco que participaram voluntária e generosamente da pesquisa. Compartilho de forma especial esse mérito com a doutora Thalia Barreto, professora da UFPE que dedicou o ano de 2016 à formulação e realização do estudo. Pesquisa em epidemiologia e, principalmente durante momentos de crise em saúde pública, é construção de grupo.

O quadro político e econômico do país afetou, de alguma maneira, a realização dos estudos relacionados ao zika?
Houve desde o início da epidemia de microcefalia um entendimento da prioridade. O Ministério da Saúde do Brasil decretou Estado de Emergência em Saúde Pública (ESPIN). Naturalmente, o quadro político representou, sem dúvida, momentos de angústia como para qualquer cidadão. Havia, no entanto, um senso de urgência para estabelecer o estudo caso-controle e estávamos focados em produzir evidências sobre a associação o mais rápido possível. A gravidade e as consequências dessa epidemia motivaram uma dedicação de todos.

Apesar de completados mais de um ano desde o surgimento dos primeiros casos de microcefalia associados ao zika em Pernambuco, ainda há muitas lacunas científicas a serem preenchidas. Em que fase o seu estudo está atualmente e quais as respostas ele ainda pretende alcançar?
A parte de campo do estudo caso-controle está em fase de conclusão e estaremos analisando os dados nos próximos meses. Dessa forma, apresentaremos as conclusões que incluem, além das medidas de associação entre a infecção congênita e microcefalia, o espectro dos casos de neonatos comparativamente aos controles, bem como a frequência da infecção pelo vírus da zika nas  mulheres. Atualmente diferentes coortes de gestantes e neonatos vêm sendo conduzidas para estabelecer a época da gestação de maior risco de malformações congênitas, o desenvolvimento das crianças expostas ao vírus, além do impacto econômico para a comunidade em geral.

A sua pesquisa foi elencada junto a estudos sobre o nascimento do primeiro bebê do mundo por meio de uma técnica de reprodução assistida que usa o DNA de três pais; descoberta das ondas gravitacionais; e a descoloração dos corais na Austrália, dentre outras. Você acredita que a visibilidade proporcionada pela Nature pode repercurtir em forma de maior investimento para estudar a ação dos arbovírus aqui no Brasil?
Espero que esse reconhecimento sirva para estimular os jovens pesquisadores e as nossas instituições a acreditar no potencial brasileiro. Recursos direcionados para pesquisas vêm de bons projetos e de equipes sólidas e com experiência. Importante ressaltar que contamos durante todo o percurso com a doutora Laura Rodrigues, da London School of Hygiene and Tropical Medicina-UK, que permaneceu no Recife durante longos períodos compartilhando sua experiência acadêmica com a equipe.

Isso de certa forma já aconteceu a partir dos primeiros achados realizados por você e sua equipe?
A captação de recursos para projetos em zika deveu-se, a meu ver, do reconhecimento nacional e internacional do potencial de expansão e da transcendência dessa epidemia. Não se trata de um único achado, mas de inúmeras evidências e de contribuições de diferentes áreas de conhecimento. Inúmeros profissionais de saúde de Pernambuco, da região Nordeste e do Brasil como um todo contribuíram e vêm contribuindo de forma significativa para o conhecimento.

Recentemente, a Organização Mundial de Saúde (OMS) retirou o estado de emergência global relacionado ao zika vírus.  De que forma essa decisão se reflete na continuidade de pesquisas sobre a temática?
As pesquisas em andamento não sofreram descontinuidade, pelo menos é o que se espera. O estado de emergência global diz respeito a ações de saúde pública. Acreditamos que a comunidade científica em geral está comprometida em respostas a essa ameaça.

De que modo a descoberta da relação da microcefalia com o zika vírus impactou, para você, na formulação de políticas públicas para o controle dos vetores? Desde 2015, em que avançamos e em que ainda precisamos somar esforços?
Reforçou, a meu ver, a necessidade de se pensar não só as estratégias de intervenção, mas em que contexto urbano essas epidemias causadas por vetores se estabelecem com mais facilidade. Por exemplo, a grande desigualdade urbana e a questão da habitação, além da discussão de um melhor acompanhamento das mulheres em relação ao período reprodutivo. Esse é um momento importante para reforçar a necessidade de um sistema público de atenção à saúde de qualidade. Passamos um momento de crise/emergência em saúde pública, mas que pode se refletir em oportunidades para melhorar a assistência à saúde da população em geral.

Estamos suficientemente preparados para um possível novo surto de microcefalia associada ao zika vírus ou ainda surpresas do ponto de vista epidemiológico como foi a descoberta da relação desse vírus com a malformação?
Difícil responder se estamos suficientemente preparados para essa ou novas epidemias. Em relação à exposição ao vírus zika, o conhecimento traz sem dúvidas maiores chances de proteção individual, medidas de controle mais vigorosas ao vetor. Abre também um leque para a descoberta de vacinas e imunobiológicos.


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