Contaminação Estudo da ONG Mata Atlântica aponta para a morte do Rio Paraopeba

Por: Correio Braziliense

Publicado em: 28/02/2019 07:38 Atualizado em:

Pelo relatório, o trecho do rio que vai de Brumadinho a São Joaquim de Bicas está tão contaminado que não tem condições de suportar a vida aquática. Foto: Paulo Filgueiras/Estado de Minas
Pelo relatório, o trecho do rio que vai de Brumadinho a São Joaquim de Bicas está tão contaminado que não tem condições de suportar a vida aquática. Foto: Paulo Filgueiras/Estado de Minas
A soltura de oito dos funcionários da Vale, presos em 15 de fevereiro como parte das investigações do rompimento da barragem de Brumadinho (MG), ocorreu no mesmo dia em que a ONG SOS Mata Atlântica apresentou relatório sobre os danos ambientais da tragédia. De acordo com o levantamento, a lama tóxica matou todas as formas de vida no trecho do Rio Paraopeba que vai de Brumadinho a São Joaquim de Bicas.

A liberação dos investigados ocorreu por determinação do ministro Nefi Cordeiro, segundo a própria assessoria do Superior Tribunal de Justiça (STJ). Foram libertados Joaquim Pedro de Toledo, Renzo Carvalho, Cristina Heloíza Malheiros, Artur Ribeiro, Alexandre Campanha, Marilene Christina Araújo, Hélio Márcio Cerqueira e Felipe Rocha.

Na decisão, Cordeiro entendeu que a prisão temporária exige a indicação de riscos à investigação de crimes taxativamente graves, enquanto os funcionários da Vale colaboraram com a apuração. “Não há risco concreto à investigação, não há risco concreto de reiteração, não há riscos ao processo”, concluiu o ministro.

Ainda de acordo com a assessoria do tribunal, a liminar do ministro vale até o julgamento do habeas corpus no Tribunal de Justiça de Minas Gerais. As prisões ocorreram porque o Ministério Público de Minas Gerais (MPMG) concluiu que o grupo sabia previamente dos problemas na barragem. “Houve conluio de forma que fosse escondido do poder público a situação real da barragem. Funcionários participaram ativamente para dissimular a situação”, disse William Coelho, promotor da área criminal da força-tarefa que apura a tragédia.

Contaminação
De acordo com o relatório da SOS Mata Atlântica, além da contaminação no Rio Paraopeba, os rejeitos devastaram um total de 122 hectares de florestas nativas, área equivalente a 122 campos de futebol — desses, 55 hectares eram de áreas bem preservadas.

A bióloga Marta Marcondes, pesquisadora do laboratório de análise ambiental da Universidade de São Caetano do Sul (SP), participou da expedição, que percorreu 2.000km de estradas e 305km do manancial. “Fizemos coleta de água rasa e profunda em 22 pontos. Desses, 12 tinham índice de qualidade de água péssimo e 10, ruim. Ou seja, a água, da forma como ela está, é imprópria para consumo humano. Não pode ter captação. Também é imprópria para animais e para pesca. As pessoas têm de ser alertadas”, afirmou.

Tiago Felix, biólogo e mobilizador do projeto Observando Rios da ONG, concordou. “Percebemos é que a alta turbidez provocada pelos rejeitos, a baixa oxigenação e o alto nível de fosfato e nitrato e metais pesados decretam a morte desse rio”, disse, sobre o trecho que vai até São Joaquim de Bicas.

Em alguns pontos do Paraopeba, a concentração de cobre é superior a 4mg/l, mais de 444 vezes a concentração máxima permitida no manancial. A intoxicação por cobre pode provocar náuseas e vômitos. A concentração de manganês, por sua vez, está 30 vezes acima do permitido pelo Conselho Nacional do Meio Ambiente (Conama). A contaminação pelo metal pode provocar rigidez muscular, tremores das mãos e fraqueza. Em diversos pontos, o ferro também esteve acima de 6mg/L.


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