brumadinho Troca de mensagens mostra que Vale foi alertada sobre falha em sensores

Por: Estado de Minas

Publicado em: 07/02/2019 08:26 Atualizado em:

As informações fazem parte de depoimentos prestados pelos engenheiros Makoto Namba e André Jum Yassuda, da Tüv Süd Brasil, empresa contratada pela mineradora. Foto: Paulo Filgueiras/Estado de Minas
As informações fazem parte de depoimentos prestados pelos engenheiros Makoto Namba e André Jum Yassuda, da Tüv Süd Brasil, empresa contratada pela mineradora. Foto: Paulo Filgueiras/Estado de Minas
A Polícia Federal analisa e-mails trocados entre a mineradora Vale e duas empresas ligadas à segurança da Barragem 1 da Mina Córrego do Feijão, que se rompeu em Brumadinho em 25 de janeiro, deixando um rastro de destruição que já soma 150 mortes confirmadas e 182 desaparecidos. As mensagens evidenciam que, dois dias antes do rompimento, a Vale tinha sido informada sobre problemas em dados de sensores que faziam o monitoramento da estrutura que viria a estourar. As apurações dão a entender ainda que a empresa responsável por atestar a estabilidade da represa vinha sendo pressionada pela mineradora a se manifestar pela segurança do depósito de rejeitos.

As informações fazem parte de depoimentos prestados pelos engenheiros Makoto Namba e André Jum Yassuda, da Tüv Süd Brasil, empresa contratada pela mineradora, divulgados pela TV Globo. Os dois profissionais foram presos dias após o rompimento da barragem. Na terça-feira, o Superior Tribunal de Justiça (STJ) concedeu habeas corpus a ambos e a outros três funcionários da Vale detidos na mesma oportunidade.

Os engenheiros que deram informações em depoimentos estão entres os responsáveis pelos laudos de estabilidade da barragem, feitos em setembro de 2018. Eles foram ouvidos pela PF em 1º de fevereiro. Nas oitivas, foram reveladas mensagens de e-mails trocadas entre funcionários da Tüv Süd Brasil, responsáveis pela barragem, e a Vale. Um engenheiro da consultoria, Dênis Valentin, citado no depoimento, enviou as primeiras mensagens, em 23 de janeiro, a vários interlocutores. Elas foram respondidas por Hélio Cerqueira, funcionário da Vale, no dia seguinte.

Em 24 de janeiro, véspera da catástrofe, foram trocadas novas mensagens, segundo as investigações, respondidas por Anderson Fernandes, outro funcionário da mineradora. Segundo a apuração, o assunto do e-mail era a discrepância entre dados dos piezômetros, aparelhos que fazem o monitoramento da barragem e que são automatizados. Eles teriam apresentado falhas em 10 de janeiro, 15 dias antes do desastre. Outro ponto questionado nas mensagens eletrônicas foi o não funcionamento de cinco aparelhos.

O engenheiro Makoto Namba afirmou, no depoimento, que em reunião com Alexandre Campanha, funcionário da Vale, ouviu a pergunta: “A Tüv Süd vai assinar ou não a declaração de estabilidade?” Namba informou que, diante do questionamento, respondeu que assinaria se a Vale adotasse recomendações indicadas na revisão periódica de junho de 2018. Disse, ainda, na oitiva, que, apesar da resposta, sentiu que a pergunta foi uma maneira de pressionar a empresa a assinar a declaração de condição de estabilidade.

Defesa
Em nota, a Vale informou que está colaborando com as investigações. “Como maior interessada no esclarecimento das causas desse rompimento, além de materiais apreendidos, a Vale entregou voluntariamente documentos e e-mails, no segundo dia útil após o evento, a procuradores da República e delegado da Polícia Federal. A companhia se absterá de fazer comentários sobre particularidades das investigações, de forma a preservar a apuração dos fatos pelas autoridades”, disse.

Já a Tüv Süd destacou, também em nota, que os dois funcionários que foram temporariamente detidos acabaram libertados. “Por conta das investigações em andamento pelas autoridades do Brasil, com as quais estamos contribuindo, a Tüv Süd não está atualmente em posição de fornecer quaisquer informações adicionais”, limitou-se a afirmar.
 
Inhotim
Após duas semanas de portões fechados, em razão do rompimento da barragem da Mina do Córrego do Feijão, o Instituto Inhotim reabre no sábado, com entrada gratuita. Em homenagem às vítimas da tragédia, a instituição convidará todos os presentes para fazer um minuto de silêncio.

O complexo de arte contemporânea e jardim botânico fica a 16 quilômetros da barragem que se rompeu. Na quarta-feira (6/2) os funcionários do museu voltaram a trabalhar e participaram de uma programação voltada para acolhimento e bem-estar, com meditação, ioga, exibição de filme e rodas de conversa. O local não foi atingido pela lama, mas a tragédia provocou impactos diretos no Instituto. Dos cerca de 600 funcionários que trabalham no museu, 80% moram na região. Desses, 41 têm familiares próximos desaparecidos ou com óbito declarado, e os demais procuram por amigos e pessoas conhecidas.

Pedido negado 
O Tribunal Regional Federal da 1ª Região (TRF-1) negou um pedido da mineradora Vale para retomar as operações na mina e na usina de Onça Puma, no Pará. A decisão, tomada na última sexta-feira, foi divulgada na quarta-feira (6/2) pelo Ministério Público Federal (MPF).

A mineradora também pedia para suspender os depósitos mensais feitos às etnias Xikirin e Kayapó. De acordo com o MPF, o pedido foi arquivado porque a vice-presidência do TRF-1 considerou que ainda restam embargos de declaração a serem analisados pela Corte.

As atividades na mina foram suspensas pelo tribunal em novembro do ano passado, após o MPF mover uma ação civil pública contra a Vale por descumprimento da licença prévia, que determinava a apresentação de planos e programas de prevenção e compensação às comunidades indígenas atingidas pela exploração mineral.

Segundo o MPF, a Vale entregou uma complementação em 2005. A Funai, porém, só se manifestou sobre o caso quase cinco anos depois. Assim, a Licença de Operação da mina foi entregue, mesmo sem que os impactos às comunidades indígenas fossem compensados.

Uma equipe do MPF foi ao local em 2016 para avaliar a situação e constatou “severos impactos” na comunidade, em razão da contaminação do Rio Cateté, o que acarretou em uma redução da disponibilidade de alimentos e a consequente necessidade de adquirir cada vez mais produtos fora da aldeia.

Após essa avaliação, a 5ª Turma do MPF — que vai analisar os embargos de declaração — determinou a paralisação da exploração na mina até que a Vale cumprisse as obrigações socioambientais. A empresa também deveria pagar uma indenização mensal de um salário mínimo por indígena até que o problema fosse resolvido. O valor total da indenização ultrapassa R$ 100 milhões. 


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