Brumadinho Bombeiros fizeram treinamento para desastres um mês antes de Brumadinho

Por: Juliana Cipriani -

Publicado em: 06/02/2019 10:37 Atualizado em:

Os bombeiros que passaram pelo curso ficam até 10 dias ininterruptos nas buscas. Foto: Tulio Santos/EM/D.A Press
Os bombeiros que passaram pelo curso ficam até 10 dias ininterruptos nas buscas. Foto: Tulio Santos/EM/D.A Press
Os bombeiros de Minas Gerais chamaram a atenção do país e fora dele nos últimos dias pelo preparo e atuação em Brumadinho, na Região Metropolitana de Belo Horizonte, diante do rompimento de mais uma barragem de rejeitos da Vale que matou até o momento mais de 100 pessoas e deixou centenas de desaparecidos e desabrigados. A situação concreta ocorreu praticamente um mês depois de parte destes profissionais do resgate passarem por um curso de operações em desastre. 

Em imersão nas aulas, eles aprenderam técnicas de escavação, escoramento, manobras com helicópteros em áreas de risco e até os cuidados para atuação conjunta com os cães farejadores, além de terem preparo psicológico. Tudo está sendo usado para as buscas em Brumadinho.
 
O treinamento especial ocorreu de 19 de novembro a 21 de dezembro do ano passado e 90% dos que fizeram as aulas estão atuando nas buscas. “Coincidentemente ou não, porque não acredito em coincidência, acabou acontecendo Brumadinho e esses homens ajudaram muito. Nossos militares que passaram por esse curso ficam 10 dias ininterruptos enquanto outros com três dias chegam à exaustão”, disse o comandante da companhia de busca e salvamento dos Bombeiros, capitão Leonard Farah. 

O militar afirma que a resposta inicial “foi primordial para resgatar 192 pessoas vivas nos dois primeiros dias. Mesmo com o risco da lama tóxica, eles sabiam o como atuar, o que foi essencial para a operação.” Segundo o capitão, que idealizou e coordenou o curso e atua em Brumadinho como comandante de operações de busca e salvamento, o treinamento foi desenvolvido em 2014 e trouxe experiências do trabalho em Mariana, em 2015. 

Nas aulas, os bombeiros aprendem sobre o que vão encontrar em situações de desastre. “É preciso um controle psicológico muito grande porque passa muita fome, frio e sono, tem que ficar longe da família, o treinamento passa por tudo isso”, explica Farah.

Entre as técnicas, foi abordada a de desmanche hidráulico, em que se usa a força da água para ajudar na escavação. Também houve aulas sobre métodos de busca com escoramento, nos moldes das que os bombeiros estão fazendo nos arredores do Córrego do Fundão por causa da lama. 

Maquinário e cães
De acordo com o capitão Farah, o curso ensinou ainda sobre planejamento de operações para auxiliar a encontrar corpos. Os bombeiros tiveram ainda ensinamentos sobre operação com cães e maquinários pesados. No caso dos animais, para saber em que situação podem ser empregados e quais os cuidados com o agente de quatro patas. “Tiveram noções do que o animal precisa, como fazer o embarque e o desembarque com mais segurança, como balizar o helicóptero com mais precisão para resgatar um corpo”, explicou. 

Segundo o capitão, o curso é tão pesado que dos 46 que fizeram, se formaram 36. Mesmo assim, metade destes passou por uma espécie de “recuperação”. “É um curso muito difícil porque o bombeiro passa fome, frio e tem de fazer algumas provas de resistência, ficam 24 horas cavando pra encontrar uma vítima, é preciso ter um controle fora da curva”, disse. 

O curso foi filmado e vai virar um mini documentário, dirigido por Júlio Fernandes. Um teaser de Coração de Bombeiro foi divulgado nas redes sociais. 

Mesmo com o trabalho intenso, o comandante Farah também admitiu a possibilidade de que todos os corpos não sejam encontrados, como ocorreu em Mariana. Sobre o outro rompimento de barragem, aliás, ele afirma que tinha quase certeza de onde estava o último corpo mas a opção da equipe foi por não escavar porque isso iria desestabilizar outra barragem.

“Em Mariana achamos 18 sendo que o 19º tenho certeza do local, mas optamos por não usar máquina pesada porque iria desestabilizar outra barragem. Em Brumadinho a situação é muito difícil e a chance de não encontrar todos é grande, mas também existe a possibilidade de achar e podermos dar esse conforto às famílias, então não quero pensar nesta possibilidade agora”, disse.


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