Mina do Feijão 'Na hora que olhei para trás, vi vagão voando", recorda sobrevivente

Por: Gladyston Rodrigues -

Por: Márcia Maria Cruz

Por: Estado de Minas

Publicado em: 04/02/2019 13:45 Atualizado em:

Sebastião (esquerda) e Elias (direita) se emocionaram ao encontrar Leandro (centro). Foto: Gladyston Rodrigues
Sebastião (esquerda) e Elias (direita) se emocionaram ao encontrar Leandro (centro). Foto: Gladyston Rodrigues
Os sobreviventes da tsunami da lama da barragem da Mina do Córrego de Feijão estão sob efeito de medicamentos controlados para conseguirem dormir. As imagens da mineradora, tornadas públicas na última sexta-feira (1º), que mostram o momento exato do rompimento, não saem da cabeça do operador de carregadeira Leandro Borges Cândido, de 37 anos, que, milagrosamente, escapou dos rejeitos de metais pesados, misturados à lama e outros destroços, que desceram a 114 quilômetros por hora alcançando em menos de um minuto o local onde estavam os funcionários da Vale, a cerca de 500 metros da barragem.

No momento do colapso da estrutura da Vale, Leandro estava em uma retroescavadeira, que fazia carregamento dos vagões de minério de ferro. Na sexta-feira, o Estado de Minas acompanhou, com exclusividade, o encontro entre Leandro e seus salvadores, os operadores mantenedores de saneamento Sebastião Gomes, de 54 anos, e Elias de Jesus Nunes, de 43.  Os amigos foram visitar Leandro na casa dele no Bairro de Funil em Mário Campo, na Região Metropolitana de Belo Horizonte.
 
Os dois estavam na caminhonete, que vai de um lado para outro, tentando escapar da lama. A caminhonete foi alçada pela lama, ficando parada na parte superficial da barragem que era mais sólida. Felizmente, a parte líquida dos rejeitos não atingiu o veículo.

“Se vocês não estão ali e tivessem o mesmo livramento que eu... Tive dois livramentos. A lama não ter me tampado e vocês estarem ali. Tive dificuldade para respirar. Aqui tampou. Não conseguia respirar pelo nariz”, recordou-se Leandro.  Ele quebrou a perna direita, torceu o tornozelo e teve cortes profundos no braço esquerdo, mas disse que fisicamente está bem. O mesmo não se pode dizer do aspecto psicológico. “Minha cabeça está ruim demais. Quando estava internado, a psicóloga ia lá no hospital todo dia", afirmou.

Leandro, que é funcionário da Vale há dois anos, ficou praticamente encoberto pela lama. Mal conseguia respirar pela pressão que o rejeito fazia no peito contraindo os pulmões e por a terra ter chegado até o nariz. "É muito rápido. Não dá para ver.  Esses caras foram meus anjos da guarda. Ajudaram demais da conta". Ele diz que pareciam cenas de um filme. “Eu vinha acelerando para trás, quando (a onda de lama) me pegou. Na hora que olhei e vi vagão voando, eu peguei o rádio e gritei: ‘gente, corre, corre’”.

Ao ouvir o estrondo, Leandro, da mesma forma que Elias, pensou que o trem havia descarrilado. “Eu estava trabalhando normal. Eu tinha um monte de vagão para carregar. Quando eu olho vejo a máquina movimentando. Ninguém pediu para máquina movimentar. Quando eu olho para trás, vejo vagões voando”.

Quem assiste às imagens custa a acreditar que eles sobreviveram à tsunami de lama. "Acelerei a máquina toda para trás e vi que ela levantou. Ai pensei: 'vou sair de dentro dessa máquina. Aí tirei o cinto. O parabrisa já quebrou. Se não tivesse tirado o cinto, vocês não iriam me ver.  Fico sem reação de esboçar felicidade de estar vivo sabendo da tragédia dos amigos", diz Leandro. Outro lance de sorte foi o fato de ter ficado preso com o rosto na direção da caminhonete.  Ele gritou por ajuda ao ver os tripulantes da caminhonete.
 
A mãe de Leandro também se emocionou ao encontrar os heróis que salvaram o filho."Operador de carregadeira Leandro - É muito rápido. Não dá para ver.  Esses caras foram meu anjo da guarda. Me ajudaram demais da conta. É funcionário da Vale há dois anos", afirmou Edir Borges Cândido, de 63 anos.

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