Resistência Sobreviventes contam como conseguiram escapar do mar de lama Equipes de resgate confirmaram, até o momento, a morte de 115 pessoas. Outras 248 estão na lista de desaparecidos

Por: Correio Braziliense

Publicado em: 02/02/2019 15:59 Atualizado em:

 

foto: Gladyston Rodrigues/Estado de Minas
foto: Gladyston Rodrigues/Estado de Minas

 

Ao mesmo tempo em que correm o mundo imagens que revelam a violência e o horror envolvidos no rompimento da barragem da Mina do Córrego do Feijão, em Brumadinho — que até o momento, tem confirmadas 115 mortes e 248 desaparecidos —, emergem da lama histórias de verdadeiros milagres da sobrevivência e da solidariedade. Ontem, quando começaram a circular vídeos de câmeras de segurança que registraram a liberação da onda com 13 milhões de metros cúbicos de barro no complexo da Vale na Grande BH, repórteres do Estado de Minas localizaram três sobreviventes flagrados pelo monitoramento dos momentos iniciais da catástrofe.

 

Os funcionários da Vale que primeiro avistaram a avalanche de lama que partiu a 114km/h da barragem, 500 metros distante, e engoliu toda a área administrativa da empresa assistiram, incrédulos, às imagens da tragédia que se tornaram públicas ontem. A reportagem acompanhou o encontro dos sobreviventes pela primeira vez depois do acidente. Leandro Borges Cândido, 37 anos, Sebastião Gomes, 54, e Elias de Jesus Nunes, 43, resistiram à força dos rejeitos da mineração que arrastou edifícios, contorceu vagões e descarrilou o trem de minério, deixando rastro de morte e dor por onde passou.

 

 

 

“Ficamos parados (na caminhonete), muito equipamentos debaixo da gente. Muitos tratores. Muitas locomotivas. Tudo soterrado. O que mais me entristeceu foi quando o helicóptero subiu (depois do resgate) e lá do alto avistei os refeitórios, de onde eu tinha acabado de sair. Vi a área administrativa, as oficinas mecânicas, unidades de saúde. Tudo tinha ido embora. Meus amigos... É muito devastador”, contou Sebastião.

 

Ao ver a imagem pela TV, em casa, ao lado dos filhos e da esposa, Sebastião não conseguiu conter o choro e a gratidão a Deus. Sebastião também é grato a Elias, que gritou para que ele entrasse na caminhonete em que escaparam. Nas imagens das câmeras de segurança, a picape aparece fazendo zigue-zague, indo em diferentes direções para tentar fugir da lama, que surgia de todos os lados, fechando o cerco em torno do veículo. “Não tem como descrever aquele momento de horror. Só lembro de correr. Só lembro de Elias gritando: ‘Sebastião, entra na caminhonete’. Elias ia para um lado, ia para outro e não achava lugar de sair. De repente, começamos no desespero gritar pelo nome de Deus. Orar o Pai-nosso na maior altura. Pedimos a Deus: ‘Perdoa nossa vida. Entregamos nossa vida’”, descreveu.

 

Não tinha como os sobreviventes escaparem do tsunami de lama, que veio por dois lados, tanto na direção da barragem quanto do outro lado, onde estavam os vagões de trem. Por segundos, eles viram a morte. “A natureza se calou naquele momento. A gente via naqueles locais muitos pássaros cantando, principalmente canários. De repente, a natureza se calou. Não se ouvia barulho de nada. Só aquele silêncio.”

 

Foi quando viram Leandro preso na escavadeira e, mesmo sem saber se afundariam na lama, não hesitaram em tentar salvar o colega. “Nem sabia o nome dele. É tanta gente na empresa... Chegamos no trator, estava ele lá só com parte do rosto do lado de fora, parte do braço. Desesperadamente começamos a cavar. Havia feito treinamento de soterramento, que a empresa dava para a gente. Pensei: ‘Vamos tirar o peito dele para ele respirar’. Conseguimos cavar a terra com a mão e ele deu uma respirada”, recorda-se Sebastião. 



Os comentários abaixo não representam a opinião do jornal Diario de Pernambuco; a responsabilidade é do autor da mensagem.