Repercussão Especialistas sobre fala de Damares: 'Houve humor, mas há muita gravidade' Ministra da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, Damares Alves, disse que o país vive uma "nova era", em que "menino veste azul e menina veste rosa"

Por: Correio Braziliense

Publicado em: 03/01/2019 20:47 Atualizado em:

Frase sobre as cores das roupas foi proferida por Damares logo após a cerimônia de transmissão de cargo, nessa quarta-feira (2). Foto: Valter Campanato / Agencia Brasil
Frase sobre as cores das roupas foi proferida por Damares logo após a cerimônia de transmissão de cargo, nessa quarta-feira (2). Foto: Valter Campanato / Agencia Brasil
A declaração da ministra da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, Damares Alves, de que o país vive uma "nova era", em que "menino veste azul e menina veste rosa" foi alvo de críticas e de uma série de postagens bem-humoradas ou irônicas por parte de internautas nesta quinta-feira (3/1). Especialistas ouvidos pelo Correio, porém, alertam para a gravidade da fala da ministra.


"Houve humor sobre o cometário do azul/rosa da ministra Damares. Há muita gravidade no que foi dito, no entanto. Primeiro, a falta de seriedade com que a ministra tratou o tema: como se fosse convocação de assembleia. Segundo, a ausência de compreensão sobre gênero — sua ideologia religiosa a impede de representar a pasta de Direitos Humanos. Ela pensa como uma missionária", avaliou Debora Diniz, que é professora da Faculdade de Direito da Universidade de Brasília (UnB) e pesquisadora da Anis — Instituto de Bioética, organização não governamental que se define como feminista e afirma lutar "para promover a cidadania, a igualdade e os direitos humanos para mulheres e outras minorias".

A frase sobre as cores das roupas foi proferida por Damares logo após a cerimônia de transmissão de cargo, nessa quarta-feira (2/1). Em um vídeo, ela aparece sendo ovacionada por apoiadores — um deles, inclusive, segura uma bandeira de Israel — depois de proferir a declaração.

Ainda na avaliação de Debora, há um "desrespeito" na mensagem, por haver "uma vulgarização do que seja ser criança e suas preferências infantis". Tal posição também é defendida por Aurélio Araújo, historiador com formação na área de direitos humanos e ex-secretário de Políticas para Crianças, Adolescentes e Juventude do DF. No entendimento dele, "não é a ministra que determina o que as crianças usam". "É simplificar demais a infância. As crianças não podem ser tratadas dessa forma", afirma. "Ela não pode ser vista simplesmente pela cor da roupa. A infância é muito mais bonita e muito mais ampla do que isso", acrescenta.

Por fim, Daniela Rezende, que é doutora em ciência política, professora e integrante do Núcleo Interdisciplinar de Estudos de Gênero da Universidade Federal de Viçosa (MG), pontua que a fala da ministra "reforça estereótipos relacionados ao masculino e ao feminino". "Nessa visão, as meninas gostam de rosa — são mais passivas, submissas —, enquanto os homens gostam de azul — que está ligado à virilidade e à racionalidade. Isso tem um efeito não apenas na educação das crianças. A violência contra a mulher, por exemplo, está associada à existência desses estereótipos. A declaração tem um efeito muito danoso no combate à desigualdade de gênero", diz.

"Metáfora"
Após a repercussão negativa, a ministra disse que a fala foi uma "metáfora": "Fiz uma metáfora contra a ideologia de gênero, mas meninos e meninas podem vestir azul, rosa, colorido, enfim, da forma que se sentirem melhores".

Ao assumir o ministério, na quarta-feira, Damares ressaltou que, em sua gestão, a "doutrinação ideológica" terá fim e que, embora o estado seja laico, ela é "terrivelmente cristã". "Estou me sentindo em casa, com os defensores da família, da vida e dos direitos humanos. O estado é laico, mas essa ministra é terrivelmente cristã. Acredito nos propósitos de Deus que uniu um time, um exército”, disse. 

A nova ministra criticou ainda as ideologias de gênero, os pedófilos e o preconceito contra os indígenas. "No nosso governo, ninguém vai nos impedir de chamar nossas meninas de princesas e nosso menino de príncipes. Acabou a doutrinação ideológica no Brasil. Nossas crianças terão acesso à verdade e serão livres para pensar”, declarou.


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