internet Ex-aluno da UnB denunciava os próprios links racistas para driblar polícia Juiz aplicou uma pena 41 anos de cadeia por racismo, associação criminosa, terrorismo na internet, incitação ao cometimento de crimes e divulgação de pedofilia

Por: Correio Braziliense

Publicado em: 21/12/2018 07:46 Atualizado em:

Foto: Reprodução/TV RPC
Foto: Reprodução/TV RPC
A Justiça Federal em Curitiba condenou Marcelo Valle Silveira Mello, ex-estudante da Universidade de Brasília (UnB), a 41 anos de prisão por racismo, associação criminosa, terrorismo na internet, incitação ao cometimento de crimes, divulgação de imagens de pedofilia e coação. Preso desde maio, o homem de 32 anos não poderá recorrer em liberdade. Ele já havia sido condenado por planejar um atentado a estudantes da UnB.

O juiz federal Marcos Josegrei da Silva, da 14ª Vara da Justiça Federal de Curitiba, mandou ainda que Marcelo pague R$ 1 milhão de indenização. O valor será destinado a programas educativos da área de combate aos crimes cibernéticos. De acordo com a sentença, Marcelo Mello costumava denunciar às autoridades postagens anônimas produzidas por ele mesmo, a fim de tentar se manter longe de suspeitas.

 O magistrado considerou “inequívoca” a periculosidade do condenado. Caso fique solto, Marcelo pode ser uma “verdadeira ameaça à ordem social”, escreveu o juiz na sentença. “Não só na condição de autor de delitos, como divulgação de imagens de pedofilia, racismo e líder de associação criminosa virtual, mas também como grande incentivador de cometimento de crimes ainda mais graves por parte de terceiros, como homicídios, feminicídios e terrorismo”, completou Marcos Josegrei.

O magistrado afirmou, ao fixar a reparação de danos, que, mesmo condenado uma vez, Marcelo Mello voltou a praticar crimes semelhantes e que apenas a pena corporal “não é suficiente”.

Crimes em série
Marcelo Mello foi o primeiro condenado da Justiça brasileira por crime de racismo na internet, em 2009. Estudante do curso de letras japonês da UnB, ele recebeu a pena de um ano e dois meses de prisão por agredir alunos cotistas da instituição na internet. Em 2005, escreveu mensagens no Orkut dizendo que negros eram “burros, subdesenvolvidos, incapazes e ladrões”. Nessa ocasião, ele recorreu da decisão e, alegando insanidade, foi absolvido. E não parou de cometer crimes pela internet.

Policiais federais prenderam Marcelo em março de 2012, sob acusação de planejar uma chacina contra estudantes do curso de ciências sociais da UnB. Durante buscas realizadas em Brasília e em Curitiba, onde ele morava, os policiais encontraram um mapa apontando uma casa de festas frequentada pelos universitários no Lago Sul, local onde, segundo a PF, poderia ocorrer a matança.

Por esses crimes, Marcelo foi condenado a seis anos e sete meses de prisão em regime semiaberto. A Justiça do Paraná entendeu que ele havia praticado os crimes de indução à discriminação ou preconceito de raça; incitação à prática de crime; e publicação de vídeos e fotografias de crianças e adolescentes em cenas de sexo.

Após ficar um ano e seis meses presos no Paraná, Marcelo ganhou o direito de cumprir pena em liberdade e voltou a criar páginas com conteúdo racista e discriminatório na internet. Ele também é o autor de um blog misógino que incitava crimes de violência sexual, física, psicológica e moral contra mulheres na UnB.

No ano passado, uma conta de e-mail com o nome Marcelo Valle Silveira Mello enviou mensagens ameaçando de morte o apresentador e jornalista Fernando Oliveira, mais conhecido como Fefito. Os textos tinham teor homofóbico.

Memória
Em janeiro, Marcelo Valle Silveira Mello, que é analista de sistemas, voltou aos noticiários ao criar a moeda virtual BolsoCoin, inspirada no então candidato à Presidência da República, Jair Bolsonaro (PSL-RJ), e vendida como a primeira criptomoeda “da direita alternativa e neonazista do Brasil”. 

A BolsoCoin era usada em fóruns anônimos para pagamento a usuários que faziam doxxing ou swatting em favor da causa do grupo. O primeiro termo diz respeito à prática de conseguir e transmitir dados privados a terceiros. Geralmente, leva a crimes de chantagem ou a tentativas de destruição da reputação da vítima. O swatting consiste em passar um trote às forças de segurança. O hacker aciona os serviços de emergência e os envia à casa de uma pessoa onde não há ocorrência, com o objetivo de causar constrangimento.


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