Religião Albadiânia tem impacto de repercussão de escândalo com João de Deus

Por: Correio Braziliense

Publicado em: 16/12/2018 14:38 Atualizado em: 16/12/2018 14:45

Dividido pela rodovia BR-060, ligação entre Brasília e Goiânia, o município goiano de Abadiânia tem também estilo de vida com duas facetas. Ambas foram sacudidas por um escândalo sem precedentes. Mais que uma crença religiosa, o trabalho realizado pelo médium João de Deus, acusado de abuso sexual por mais de 300 mulheres, é meio de sustento para uma população de quase 20 mil pessoas. Direta ou indiretamente, todas estão ligadas ao funcionamento da Casa Dom Inácio de Loyola. Entre 3 mil e 5 mil fiéis passavam pelo local semanalmente — 25% deles vêm do exterior.

Há regras que, para um visitante desatento, passam despercebidas. Um dos exemplos é a “não recomendação” de venda de bebidas alcoólicas nos arredores do centro espírita. A comercialização foi interrompida, segundo lojistas, a pedido de João de Deus, após problemas com turistas estrangeiros que se embriagavam durante a noite e atrapalhavam os rituais espirituais. “Eles tomavam pinga e saíam dançando pelas ruas. Já teve gente amanhecendo na calçada”, conta o gerente de um estabelecimento que parou de vender o produto há cinco anos.

Entre muitas pedras, roupas brancas e espaços para massagem, se o olhar não estiver apurado, os triângulos não são percebidos. Em geral, eles estão em toda a parte. Significam o conceito básico pregado por João de Deus: fé, amor e caridade. “Esse é um símbolo muito forte para quem participa da corrente mediúnica e para nós, que acreditamos na energia que tem ali”, destaca o dono de um restaurante a poucos metros do templo religioso.

Esse é um meio de o turista identificar a aproximação da loja com o trabalho espiritual do lugar. Mas há funcionários que não sabem o que representa exatamente. Uma vendedora de roupas que se mudou de Anápolis para Abadiânia (distantes por 36km), há quatro meses, se enrola. “Nem sei direito. Muita gente reverencia, mas não sei. Não frequento lá”, diz. Um atendente da sorveteria da rua também se esquiva. “Isso é coisa dos donos daqui. Não acredito”, resume.

A rotina não foi alterada apenas nos arredores do templo espírita. Moradores próximos da Unidade Prisional de Abadiânia, no outro extremo da cidade, temem que uma possível detenção de João de Deus no local ponha fim aos dias de tranquilidade. “A prisão dele por si só gera comoção. Se for em Abadiânia, sai de controle. Tenho medo de os devotos fazerem manifestações aqui”, salienta a artesã Divina Almeida, 60 anos, vizinha da cadeia e habitante da cidade há duas décadas.

Pavor - O morador de uma casa limítrofe ao presídio está apavorado. “O João sempre foi o grande mandatário da cidade. Se for preso em Goiânia, já é um pandemônio. Se acontecer aqui, será um caos, vai ter quebradeira. Tenho filhos, mulher e pais idosos. Como fica minha segurança e a deles se resolvem deixá-lo aqui, mesmo que por duas noites? Espero que a prisão seja bem planejada”, alerta o morador, sem se identificar.

A preocupação com o futuro da cidade, em todos os seus aspectos, cresce a cada dia, assim como o receio de comentar o assunto. A receptividade do início da semana passada deu lugar a olhares desconfiados e hostilidade. “Muita gente depende do funcionamento da casa. Direta ou indiretamente, a cidade respira aquilo”, frisa o prefeito de Abadiânia, José Aparecido Diniz. Ele e João de Deus são adversários políticos.

No comércio, lojas já amargam prejuízo de 70%. Uma delas é a que o gerente Marco Rocha, 50 anos, administra. “Vamos antecipar o recesso de Natal e, quando voltarmos, veremos como estará o clima. Isso nunca aconteceu, é uma situação nova. Vamos aguardar o resto do ano para tomarmos uma posição”, lamenta. Uma das peculiaridades nesse setor é o tabelamento de produtos. Uma blusa branca simples custa R$ 35 na maioria das lojas. Uma calça masculina, R$ 65. Apesar da coincidência, os vendedores negam a prática.

A comerciante Magda Gonzaga, 47 anos, está preocupada com a possibilidade de uma derrocada em seus negócios. Há seis meses, ela investiu R$ 12 mil para abrir uma loja de roupas. Agora, vive a insegurança da situação. “Tem de separar o médium do homem. Lá, o trabalho espiritual é sério. Nossos negócios não podem ser prejudicados por algo que ainda não foi comprovado”, reclama.

"Tem de separar o médium do homem. Lá, o trabalho espiritual é sério. Nossos negócios não podem ser prejudicados por algo que ainda não foi comprovado”, disse Magda.






Os comentários abaixo não representam a opinião do jornal Diario de Pernambuco; a responsabilidade é do autor da mensagem.