opinião Surto nacional de dissonância cognitiva Alexandre Rands é Economista, PhD pela Universidade de Illinois e presidente do Diario de Pernambuco

Por: Diario de Pernambuco

Publicado em: 22/09/2018 08:02 Atualizado em:


Dissonância cognitiva é um fenômeno psicológico pelo qual indivíduos conseguem manter ideias totalmente contraditórias entre elas sem que isso gere qualquer conflito psicológico interno. Obviamente, quando se geram esses conflitos, as pessoas buscam formas de eliminá-los. Mas isso nem sempre acontece, dada a complexidade de confrontos rigorosos de concepções, mesmo que antagônicas. Quanto menos educada uma pessoa, no sentido econômico do termo (qualificada para gerar raciocínios complexos e consistentes e com boa base de informações), menor será a percepção dos conflitos e menores serão as tentativas de suas superações. O Brasil passa no momento por um surto importante de dissonância cognitiva, que pode ter consequências nefastas para o futuro do país. Precisamos de alerta para superá-la e evitar efeitos altamente perversos que ela pode gerar.

Como nação essencialmente de cultura cristã, faz parte de nossas raízes ideológicas defender o respeito aos outros. Por isso construímos uma das maiores democracias do mundo moderno. A nossa cultura trata as pessoas como iguais e com respeito e, se perguntadas, a maioria vai concordar com essa ideia. Entretanto, recentemente, um candidato a Presidente resolveu romper com essa ideia e defender a discriminação abertamente, além da violência contra grupos sociais específicos. Ou seja, resolveu apregoar ideias que entram em confronto direto com fundamentos essenciais da cultura cristã brasileira, que é partilhado pela amplíssima maioria da população. Ainda assim, esse candidato tem conseguido liderar o pleito para presidente nas pesquisas eleitorais. Ou seja, estamos diante de uma situação clara de dissonância cognitiva de segmentos expressivos da nossa população.

A Alemanha Nazista passou por situação semelhante nos anos trinta do século passado e elegeu Hitler para chefe de estado; também como consequência de um grande processo de dissonância cognitiva coletiva. Sobrou a destruição e a vergonha das pessoas, que passaram anos para poder falar sobre o assunto. As propostas e postura política de Hitler eram bastante semelhantes às de Bolsonaro. Solução de problemas mais iminentes pela força e pouco conteúdo adicional. Eu diria até que suas ideias eram mais progressistas do que as de Bolsonaro e no início menos obviamente conflitantes com a cultura cristã ocidental. Ou seja, no Brasil atual a dissonância cognitiva é ainda mais grave. O fenômeno Hugo Chávez na Venezuela foi semelhante. Em defesa da democracia, resolveu-se suprimi-la. Os resultados estão agora sendo vistos naquele país, como ocorreu na Alemanha Nazista. 

O Brasil flerta com o mesmo caminho fascista encontrado na Alemanha de Hitler, mesmo que a contradição com nossos valores humanistas maiores seja óbvia. Ou seja, as pessoas, várias delas altamente cristãs e que costumam apregoar o respeito ao próximo, não estão querendo ver o óbvio: estamos diante de uma ruptura de cunho fascista, como foi bem percebido pela revista inglesa The Economist, que coloca Bolsonaro como grande ameaça ao nosso país na sua última edição. O candidato do PSL apregoa ideias claramente antagônicas aos valores básicos de nossa sociedade cristã. Mas ainda assim, consegue apoio de vastos segmentos de uma sociedade cansada dos desmandos dos políticos. Sacrificar os nossos valores básicos e nos jogar numa aventura autoritária, contudo, não é solução. É interessante notar que os segmentos sociais com maior formação política estão tentando transformar a luta contra o fascismo como se fosse apenas uma questão contra extremos. Mas cabe destacar que o candidato do PT, apesar de ter elaborado um programa de governo inicial que flerta também com o fascismo chavista, possui visão completamente diferente de mundo. Ele põe a democracia e o respeito ao outro como ideário maior. Só não aprendeu ainda que o respeito aos outros passa por respeito profundo às instituições pactuadas coletivamente, mesmo que porventura uma força política venha a discordar das suas regras de funcionamento.


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