venezuela Força Nacional é acionada para frear tensão na fronteira de Roraima Em nota, governo federal diz que enviará 120 homens para reforçar segurança em Roraima

Por: AE

Publicado em: 20/08/2018 08:12 Atualizado em: 20/08/2018 08:20

Foto: Antonio Cruz/Agência Brasil
Foto: Antonio Cruz/Agência Brasil
Mais 120 homens da Força Nacional de Segurança e 36 voluntários na área de saúde deverão seguir para Pacaraima (RR), após os tumultos entre imigrantes venezuelanos e moradores brasileiros ocorridos neste sábado. As medidas foram decididas em reunião do presidente Michel Temer com um grupo de ministros, concluída na tarde de ontem. A informação consta de nota divulgada pelo Palácio do Planalto. Cerca de 1.200 imigrantes venezuelanos deixaram o Brasil após o tumulto.

“O governo federal continua em condições de empregar as Forças Armadas para a Garantia da Lei e da Ordem em Roraima”, informa o texto. “Por força de Lei, tal iniciativa depende da solicitação expressa da Senhora Governadora do Estado.”

Os 120 homens da Força Nacional seguirão em duas etapas: 60 já estão em prontidão em Brasília, conforme informado mais cedo pelo Estadão. E mais 60 poderão seguir nos próximos dias. Os 36 voluntários na área de saúde atuarão no atendimento aos migrantes, em parceria com hospitais universitários. 

Na reunião, ficou decidido também que os esforços de interiorização de venezuelanos para outros Estados serão intensificados. Isso deverá reduzir a pressão sobre Roraima, que tem sido a principal porta de entrada para os migrantes do país vizinho. A interiorização consiste no envio dos venezuelanos para outros Estados. Grupos já foram enviados para São Paulo, Mato Grosso e Brasília, entre outros.

Será criado um”abrigo de transição” em Roraima, entre Boa Vista e Pacaraima, para dar suporte aos imigrantes enquanto eles aguardam a interiorização, “de forma a reduzir o número de pessoas nas ruas”, diz a nota. 

Ficou decidido também que uma comissão interministerial seguirá para Roraima, “para avaliar medidas complementares, que se somarão às anteriores já tomadas.” Hoje, será realizada uma nova reunião para “concluir as negociações para o início das obras do ‘linhão’ que permitirá a integração do Estado de Roraima ao sistema elétrico nacional.” O estado utiliza energia gerada na Venezuela, mas tem sido frequentes os “apagões”.

“O governo federal, atento à segurança e ao bem-estar dos brasileiros de Roraima, tem envidado esforços abrangentes para apoiá-los, reduzindo o impacto do afluxo migratório sobre a população local”, diz a nota, acrescentando que o presidente Michel Temer esteve no Estado por duas vezes. 

Segundo a nota, as providências já adotadas para lidar com a crise humanitária na fronteira somam mais de R$ 200 milhões. Estão nesse cálculo a construção de dez instalações para abrigar temporariamente os venezuelanos, das quais duas estão prestes a ser concluídas, o processo de interiorização e o ordenamento da fronteira, “com controle e triagem adequados, e com a ampliação da presença da União nas áreas social e de segurança.”

A nota informa ainda que o Itamaraty está em contato com autoridades venezuelanas. “No dia de ontem (sábado), esse diálogo serviu, também, para que cerca de trinta brasileiros, que se encontravam em território venezuelano, pudessem retornar em segurança ao Brasil.”

VENEZUELA
Em nota, a chancelaria da Venezuela informou que instruiu o pessoal de seu consulado em Boa Vista a deslocar-se “de imediato” para Pacaraima, “para constatar in situ o status da situação e velar pela integridade dos cidadãos venezuelanos na zona.” Ela informa haver entrado em contato com o Ministério das Relações Exteriores do Brasil, a fim de solicitar as garantias correspondentes aos venezuelanos.” 

Temores de mais instabilidade na Venezuela

Negócios fechados, bancos com dificuldade para fazer transações e pessoas correndo para encontrar combustível no sábado eram sinais de pânico e ceticismo na Venezuela com as medidas do governo voltadas a estabilizar a economia. Na noite da sexta-feira, o presidente Nicolás Maduro elevou os salários em quase 6.000% e desvalorizou a moeda local, o bolívar, em 96%.

Maduro disse que ele mesmo foi o autor do plano. Nas ruas, porém, havia pouco otimismo e ainda o temor de que as novidades acabassem de destruir o país, que enfrenta um quadro de recessão e inflação em patamares altíssimos. O tamanho da economia nacional já encolheu mais da metade desde a posse do atual líder, em 2103. 

A Venezuela enfrenta falta de alimentos, medicamentos e água potável, o que levou 2,3 milhões de pessoas a fugir para países vizinhos desde 2014, de acordo com a Organização das Nações Unidas. 

A desvalorização é a maior da história do país, segundo o grupo de pesquisas Síntesis Financiera. As medidas devem elevar a inflação para além da previsão do Fundo Monetário Internacional (FMI) neste ano, de 1.000.000%, disse Anabella Abadi, economista da consultoria ODH, sediada em Caracas. 

Esta foi a quinta elevação do salário mínimo local neste ano, para o equivalente a cerca de US$ 30 ao mês, de US$ 1 por mês anteriormente. Os trabalhadores serão pagos com uma nova moeda, chamada bolívar soberano, que foi apresentada na semana passada e corta cinco zeros da moeda existente, o bolívar forte.

“Eu quero que o país se recupere e eu tenho a fórmula”, afirmou Maduro em rede de televisão. Para ajudar as pequenas empresas na transição, o governo pagará a diferença nos salários dos trabalhadores durante 9 dias. O presidente não deu, porém, detalhes sobre como esses desembolsos serão feitos, levando empresas a mostrar ceticismo. 

Economistas temem que as medidas gerem mais inflação. O governo da Venezuela está em default de uma dívida de US$ 6 bilhões, enquanto as exportações recuam por causa da queda na produção de petróleo. Maduro ainda disse que atrelará o valor do novo bolívar soberano ao petro, a moeda virtual lançada pelo governo mais cedo neste ano, que é atrelada ao petróleo. É difícil achar dinheiro, já que o governo não consegue imprimir notas suficientes para lidar com a alta inflação. 


Os comentários abaixo não representam a opinião do jornal Diario de Pernambuco; a responsabilidade é do autor da mensagem.