Estudos Biólogo que faz 'bicos' é retrato da falta de estímulo à ciência no Brasil Currículo exemplar, pós-doutorado na Inglaterra, além de experiência com consultoria e pesquisas não foram suficientes para Rodrigo Fernando Rios conseguir um emprego no Brasil. Hoje, ele trabalha como garçom, barman e modelo nu para sobreviver

Por: Correio Braziliense

Publicado em: 25/07/2018 19:54 Atualizado em:

Com pós-doutorado no currículo, Rodrigo Rios fez bicos como garçom e modelo nu por falta de emprego
(foto: Arquivo pessoal)
Com pós-doutorado no currículo, Rodrigo Rios fez bicos como garçom e modelo nu por falta de emprego (foto: Arquivo pessoal)
Ser cientista ainda é o sonho de muitas crianças. Crescer profissionalmente por meio da ciência, no entanto, acaba se tornando um verdadeiro pesadelo no Brasil, onde o profissional é um mero reflexo de uma cultura acadêmica competitiva, extremamente burocrática e com poucas oportunidades e às vezes nenhuma valorização profissional. Histórias como a do biólogo Rodrigo Fernando Moro Rios, de 32 anos, que ficou conhecida nacionalmente na semana passada, demonstram isso. Graduado em ciências biológicas, ele fez doutorado em zoologia na Universidade Federal do Paraná (UFPR) e pós-doutorado na Universidade Durham, na Inglaterra. Ao voltar ao Brasil, no entanto, as poucas perspectivas de emprego o fizeram recorrer a "bicos" como garçom, barman, professor de inglês e modelo nu para sobreviver.

O cientista conta que emendou uma formação acadêmica atrás da outra, de 2003 a 2015. Com ajuda de bolsas do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), o biólogo fez pesquisas de iniciação científica, mestrado, doutorado e pós-doutorado. 

Mas nem o bom currículo de Rodrigo, nem as experiências com consultoria e pesquisa com primatas modernos garantiram a ele um emprego no Brasil. “Gasto uma porção dos meus dias mandando e-mails e procurando emprego. Não tinha dinheiro nem para o ônibus. Trabalhei como garçom e ganhava R$ 30 por sete horas trabalhadas”, conta ele ao Correio. Sem medo do trabalho, com dificuldades financeiras, o já doutor estava se preparando para iniciar o pós-doutorado na Inglaterra, quando precisou trabalhar em um bar de um amigo. 
 
“Liguei para um colega e perguntei se eu podia trabalhar com ele. Lá eu puxava carriola para turista e dava aula de surfe. Os turistas achavam divertido saber que eu era um doutor que estava trabalhando em um bar”, comenta. Recentemente, Rios se ofereceu para atuar como modelo nu artístico para completar o orçamento. “Eu sou um cara tímido, mas por ser um público que está ali por aquele motivo [da arte], me sinto mais à vontade”. Ele conta que recebe R$ 100 a cada duas horas de exposição, o que, na avaliação dele, é mais que em muitos empregos como cientista. “No lugar em que lecionei e que ganhei melhor, era mais ou menos essa a remuneração”, conta.
 
Diferente de um grupo de doutores que defendem mudança nas regras que obrigam os bolsitas do governo a voltar ao Brasil, Rios não pensou em permanecer em outras terras após o doutorado. “Eu sempre tive planos de voltar para o Brasil, nunca pensei em ficar lá. A carreira parecia promissora aqui, aparentava que ia ser possível a curto ou médio prazo”, relembra. Havia a possibilidade de o cientista fazer um pós-doutorado no Brasil em um programa ligado ao Ciências Sem Fronteiras. Após voltar da Inglaterra, no entanto, o programa foi cancelado pelo Governo Federal.

Rodrigo Rios nunca achou que este seria um caminho fácil e, mesmo enfrentando dificuldades para se manter na área, o jovem cientista conseguiu este ano contratos temporários como professor visitante em universidades particulares paranaenses, em Foz do Iguaçu e Cascavel, ministrando cursos de extensão. “É importante você ter um trabalho que você se sinta bem, por isso tentei me manter cientista”. E desde que sua história ficou nacionalmente conhecida, o cientista recebeu uma enxurrada de mensagens de pessoas interessadas no currículo dele. “Recebi propostas de bolsa de pesquisa na Amazônia, de criadores de jacarés silvestres e até de produtores de conteúdo para a Internet, mas ainda sem detalhes”, comemora. 
 
Ciência tem futuro incerto no Brasil 

A dificuldade para se inserir no mercado de trabalho não é uma exclusividade do biólogo paranaense. Para ser cientista no Brasil é preciso teimosia. Os investimentos em pesquisa e desenvolvimento no país não passam de 1% do Produto Interno Bruto (PIB). Os Estados Unidos, por exemplo, desembolsam 2,79% e o Japão, 3,44%. O contingenciamento de gastos proposto pelo governo brasileiro desde 2016 e o sucateamento da educação são apontados como fatores fundamentais para o esvaziamento da ciência no Brasil. Para a pesquisadora Tamara Naiz, ex-presidente da Associação Nacional de Pós-Graduandos (ANPG), a empregabilidade para jovens brasileiros está menor a cada ano. 

“Nós [cientistas] continuamos porque, de fato, acreditamos que a ciência é importante, mas vivemos a realidade da desvalorização do cientista no Brasil. A concorrência continua crescendo na carreira acadêmica, mas as possibilidades estão diminuindo”, analisa.

Em 2015, o Centro de Gestão Estratégicas (CGGE), do Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações (MCTIC), cruzou os bancos de dados da Relação Anual de Informações Sociais (RAIS), Coleta Capes e Plataforma Sucupira/Capes para traçar o perfil do pesquisador brasileiro. O estudo aponta que houve expressivo aumento no contingente de mestres e doutores, no entanto, o percentual de especialistas empregados diminuiu. Em 2009, o total de mestres era de 277.351 indivíduos, sendo que esse número saltou para 445.562 mestres em 2014. Nessa faixa de titulação, em 2009, a taxa de emprego formal de mestres era de 66,7%, enquanto no final do período, em 2014, ela chegou a 65,8%. 

“A questão se agravou nos últimos três anos por causa dos cortes no orçamento. Além disso, com a privatização das empresas públicas a expectativa é que caia ainda mais a nossa empregabilidade”, comenta Naiz. A brasiliense atualmente estuda doutorado em História Econômica do Brasil Contemporâneo na Universidade Federal de Goiás (UFG) e sobrevive com a bolsa da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes).

Apesar desses pontos ainda negativos, a ciência nacional tem dado mostras de amadurecimento, mesmo que em uma velocidade mais lenta que a esperada por quem faz pesquisa. A publicação 'O novo mapa da ciência', da revista Nature, colocou o Brasil ao lado de Cingapura, China, Índia e Coreia do Sul na lista de países que fazem pesquisa de alto nível, dominada por Alemanha, França, Reino Unido e Estados Unidos. As redes de colaboração seriam o trunfo dos países emergentes para mudar o equilíbrio global da ciência. “A gente tem milhares de heróis anônimos que se dedicam muito todos os dias e são desvalorizados. O Brasil tem muito talento, o pesquisador brasileiro é apreciado em outros países. Quando vamos estudar fora, as universidades não querem que a gente volte”, comenta Tamara. 
  

 


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