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Em Foco Chega uma hora em que dá vontade de ficar por lá Brasileiros e lusos vão estreitando laços, encurtando distâncias e se entendendo cada vez melhor

Por: Luce Pereira - Diario de Pernambuco

Publicado em: 14/03/2018 08:07 Atualizado em:

Jarbas/Arte DP
 (Jarbas/Arte DP
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Jarbas/Arte DP

Desembarquei no aeroporto de Lisboa e percorri o longo corredor no meio da multidão de passageiros que seguia para os procedimentos de entrada no país. No caminho, uma parada no já congestionado toalete e lá estava uma portuguesa de cara fechada, que tinha a nada agradável incumbência de manter limpos os sanitários. Reclamava escancaradamente da “falta de educação dos brasileiros”, que a cada passada por ali deixavam o local em péssimas condições. Também foi assim na volta para o Brasil, quando a comissária de bordo, muito irritada, anunciou a interdição de um dos toaletes, porque os usuários haviam caprichado na demonstração de que os maus modos cultivados em casa vão mesmo à praça. Nas duas situações meu rosto pareceu pegar fogo, de constrangimento, e logo imaginei a má impressão dos portugueses obrigados a lidar com hordas de turistas da terrinha, agora que Portugal parece fazer qualquer negócio para ter brasileiros gastando rodos de dinheiro nos destinos cartões postais do país e, sobretudo, dispondo-se a comprar imóveis em Lisboa e em outras cidades famosas como o Porto (Oporto). Felizmente, não vem funcionando assim, o que é um alívio.

A terra de Camões mudou muito, nas últimas três décadas, porque olhou para o outro lado do oceano e enxergou de onde poderia vir o reforço para uma economia cheia de problemas. Havia que modernizar-se e também despertar o interesse da ex-colônia, que no mundo tem fama de ser habitada por gente gastadora, nem aí para o fato de a corda apertar muito, na volta para casa. E tanto interesse assim exige paciência do anfitrião, que não larga da calculadora onde verifica o resultado do megaesforço, especialmente no setor imobiliário: ainda não somos os primeiros na compra de imóveis, mas o segundo lugar já merece uma boa dose de tolerância com escorregadelas dos irmãos de além-mar no quesito civilidade. Franceses (que preferem o Algarve) detêm 29% dos imóveis vendidos, e brasileiros (que lideram a lista de compradores em Lisboa e no Porto), 19%, segundo cálculos de 2017. Então, já não há porque estranhar o velho e conhecido sotaque desfilando por cenários lusos, dando a impressão de, em alguns momentos, ser até mais falado do que o português de lá. As ruas lotadas do Chiado e da Baixa que o digam.

A convivência, no entanto – como dizia no início do texto – já passa ao largo do preconceito, dos estereótipos, sobretudo entre os mais jovens. As meninas adoram os biquinis “usados pelas brasileiras” e morrem de vontade de viver como os cantores Carminho e Antonio Zambujo, da nova geração do fado, que viajam o tempo inteiro para cá. De um modo geral, os moços elogiam a descontração, a simpatia e o fato de os “brazucas” parecerem sempre de bem com a vida; também citam o jeito festeiro, que contrasta com o dos nativos, e ainda o fato de serem excelentes anfitriões na mesma medida em que se mostram “desenrolados”. Os mais velhos já mudaram muito em relação à má impressão que tinham antes da chegada em massa dos brasileiros, mas continuam reclamando dos maus modos e de vícios como a esperteza e a tendência a resolver muitas coisas de um jeito que a maioria desaprova. Digamos, o tal “jeitinho”, que pode não resvalar para a ilegalidade, porém pega bem mal, desagrada os conservadores.

Com a convivência se ajustando mais a cada dia (embora brasileiros também reclamem do jeito nada cortês de empregados nos segmentos da cadeia turística e de pessoas mais presas a hábitos seculares), é praticamente impossível, para quem já colocou os pés em Portugal e tem as finanças num patamar equilibrado, não levar em consideração a possibilidade de, a qualquer tempo, ir morar por lá. Do jeito que o Brasil anda e com tantos acenos feitos pelo anfitrião, pode ser uma ideia e tanto.


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