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Tragédia em creche Dor e sofrimento marcam a mais triste da semana da criança em Janaúba Tragédia em creche mergulha Janaúba em clima de tristeza em um período que seria de alegria. Para parentes de vítimas, época ficará marcada como a mais doída da história

Por: Luiz Ribeiro

Publicado em: 11/10/2017 10:35 Atualizado em:

Incêndio marcou para sempre famílias como a de Ilda Rodrigues, avó de Luiz Davi, que morreu aos 4 anos. Fotos: Luiz Ribeiro/EM
Incêndio marcou para sempre famílias como a de Ilda Rodrigues, avó de Luiz Davi, que morreu aos 4 anos. Fotos: Luiz Ribeiro/EM


O trabalhador rural Paulo Pereira dos Santos, de 28 anos, se preparava para dar um presente para o filho no Dia das Crianças, mas não poderá mais agradar à criança. Amanhã, pretende comparecer ao Cemitério São Lucas, em Janaúba, Norte de Minas, onde está sepultado o corpo do garoto Juan Pablo Cruz dos Santos, de 4 anos, e de outras oito crianças que morreram queimadas no massacre da creche Gente Inocente, que também deixou uma professora e o próprio autor da tragédia mortos.
  
O vigia Damião Soares Santos, de 50 anos, ateou fogo a alunos e depois ao próprio corpo. “Vou ao cemitério para acender uma velinha para meu filho, como se estivesse abraçando ele”, murmura Paulo. Na semana que era para ser de festa e alegria, restou aos familiares das vítimas o luto, já que a crueldade praticada contra as crianças não sai da cabeça de ninguém. A tragédia aumenta ainda mais o sofrimento de um povo assolado pela seca, que já é considerada a pior da história de Janaúba, onde desde fevereiro não chove de forma significativa.

Na cabeça do lavrador Paulo, a ideia era dar um presente para o filho nesta semana, porque ele já teria o pagamento em mãos. O pequeno completou 4 anos em 9 de setembro, mas, como a família é bastante humilde, não foi possível preparar nada no início do mês passado. As comemorações ficariam para o Dia das Crianças. A mãe de Juan, Ana Paula da Rosa Cruz, de 20, pensou em fazer um bolo para o filho. “Esta Semana da Criança para mim está sendo terrível, pois meu filho foi morto e queimado. Eu iria aproveitar o dia para fazer um bolinho para ele, mas veio um monstro e acabou com tudo”, lamenta.

Juan Pablo estava muito feliz, porque, no dia anterior à tragédia, pela primeira vez ele foi a uma piscina. Em comemoração à Semana da Criança, a escola promoveu uma série de atividades. Como parte delas, na quarta-feira os alunos foram brincar no Clube Caiçara. “Eu comprei para ele biscoito, pipoca e também uma sunga. Ele estava muito feliz por ter conhecido o clube. E ficou contando como foi o passeio”, lembra a mãe. A dor da família é ainda maior porque a tragédia também tirou a vida de Renan Nicolas dos Santos Silva, de 4, primo de Juan Pablo.

A família é carente, mora no Bairro Santa Terezinha, que fica a cinco quilômetros da área urbana. Todos os dias, Ana Paula saía de bicicleta e levava o filho à creche, ritual que cumpriu normalmente naquela manhã de 5 de outubro. O pai saiu para trabalhar na roça, em uma plantação de bananas. De lá, tomou conhecimento da tragédia e se deslocou para a creche, onde ficou sabendo que seu filho estava no hospital. Por volta do meio-dia, foi informado de que o menino tinha morrido. Ana Paula está grávida do segundo filho e Paulo pensa em batizá-lo fazendo homenagem ao garoto vítima do massacre.

Entre a dor e a esperança

Dor parecida em uma data que deveria ser marcada pela alegria é compartilhada por Sebastiana Maria de Jesus, de 56. Ela disse que vive uma mistura de sofrimento e alívio, porque quatro netos estavam matriculados na creche. A pequena Ana Clara Ferreira Silva, de 4, morreu. Jhulie Mariah Ferreira da Silva, de 3, segue internada no CTI neonatal do Hospital Universitário Clemente de Faria, em Montes Claros, e respira com a ajuda de aparelhos. Ludmila Cristine Ferreira da Silva, de 6, teve alta do mesmo hospital e o outro neto, Victor Hugo Ferreira da Silva, de 4, acordou com conjuntivite e não foi à creche na última quinta-feira. “Isso foi livramento de Deus. Se ele tivesse ido, teria acontecido com ele igual ao que foi com os outros”, disse Sebastiana, que é mãe de Nelci de Jesus Silva, pai dos quatro irmãos, casado com Luana Ferreira de Jesus, de 28.

“Esta Semana da Criança está sendo muito triste. É como se nem existisse.” O desabafo é da aposentada Ilda Maria da Conceição Rodrigues, de 62, avó do menino Luiz Davi Carlos Rodrigues, de 4, outra criança que morreu. “Esses dias estão sendo péssimos”, acrescenta Dilcivania da Conceição Rodrigues, tia de Luiz Davi. A avó afirma que a memória do neto não sai da sua cabeça. “Ele era o xodó da nossa casa”, diz, lembrando-se da felicidade do neto com o passeio ao clube no dia anterior, onde pela primeira vez brincou em um escorregador.

Os momentos de angústia e tristeza também são relatados por Elenilsa Merelo Martins, que era professora da maioria das crianças que morreram. “A Semana da Criança seria marcada por muitas alegrias e acabou se tornando uma semana de tristeza imensa, de muita dor”, diz a professora. Na véspera do ataque, as crianças estavam muito felizes, porque a creche programou uma semana só de comemorações. Na segunda-feira houve um lanche reforçado.
 
Terça foi o dia do sorvete, quarta teve passeio no clube e a quinta seria mais um dia de brincadeiras, com pula-pula, cama elástica, piscina de bolinhas e bolo de chocolate, coisas que para aquelas crianças são muito importantes, já que a maioria vem de famílias muito simples. Embora entidades de voluntários programem comemorações para os pequenos que sobreviveram, na tentativa de amenizar a dor e o sofrimento, a Semana da Criança de 2017 será uma data que dificilmente sairá da memória de Janaúba como uma das épocas mais tristes de sua história.

O casal Paulo e Ana Paula, pais de Juan Pablo, da mesma idade, não se conforma: 'Um monstro acabou com tudo'
O casal Paulo e Ana Paula, pais de Juan Pablo, da mesma idade, não se conforma: 'Um monstro acabou com tudo'


Planos desfeitos e vigília no hospital

A mesma sensação de abatimento que recai sobre Janaúba na Semana da Criança percorreu os 557 quilômetros que separam a cidade de Belo Horizonte, onde 11 meninos e meninas e duas professoras seguem em tratamento em três hospitais. Desde sexta-feira, a empregada doméstica Gabriela Silva Souza, de 20 anos, dorme em uma poltrona ao lado do filho, Arthur Souza Oliveira, de 2, que chegou a BH transferido para o Hospital João XXIII, mas mudou de unidade pela segunda vez, fazendo a maior parte do tratamento no Hospital Odilon Behrens.

O motivo de ela ficar 24 horas ao lado do filho é que ele pergunta por ela e pelo pai o tempo todo. Por isso a mãe foi orientada a ficar, para acalmar a criança. “Ele vai passar o Dia das Crianças aqui no hospital e isso me deixa muito triste. Ele queria muito ganhar um brinquedo e ter uma festinha, mas não vou poder fazer, porque não tenho condições. Tinha planejado comprar um carrinho que ele sempre me pediu, mas não vai dar”, afirma Gabriela.

Como gastou um dinheiro que não estava previsto no deslocamento entre Montes Claros e Belo Horizonte, Gabriela ficou sem recursos para fazer a vontade do filho, que deve ter alta nos próximos dias, mas ainda apresenta uma mancha no pulmão em virtude da inalação da fumaça no incêndio. “O Arthur teve dois delírios, falando que o fogo vai pegar ele. Ele viu os coleguinhas queimados, e está com essa lembrança marcada. Fico muito preocupada, choro de ver ele assim. Ele não quer que eu saia de perto”, afirma.


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