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Insegurança Pais deixam filhos sem cinto por medo de violência

Por: Agência Estado

Publicado em: 10/09/2017 09:20 Atualizado em:

Aline de Araújo, de 28 anos, perdeu as contas de quantos assaltos já viu da janela de seu apartamento em Interlagos, na zona sul de São Paulo. Mas foi há cerca de um ano, depois de presenciar uma mulher em apuros para tirar um bebê do carro, que ela decidiu deixar de usar o cinto de segurança na filha. “Minha preocupação é pegarem o carro e eu não conseguir tirá-la. Acho que ficaria doida.”

Com medo de ter os filhos levados por bandidos em roubos a carros, famílias paulistas cometem até infrações de trânsito, como abrir mão do cinto de segurança ou colocar a cadeirinha no banco da frente. Especialistas advertem que as estratégias, faltas gravíssimas pelo Código de Trânsito, aumentam a probabilidade de acidentes.

Mãe de Letícia, de 4 anos, Aline não ignora o risco, mas tenta por na balança. “É estranho pensar em escolher entre uma coisa e outra. É errado andar sem cinto? É, mas tenho muito medo”, diz a analista de licitações. No trajeto de 4 quilômetros de ida e volta entre casa e escola, a menina vai solta na cadeirinha. A mãe também não usa cinto: “Justamente para o caso de precisar descer do carro e pegá-la.” Ela diz que nunca levou multa. “Entre infringir a lei ou um assalto, infringimos a lei.”

Do outro lado da cidade, no Jaraguá, zona norte, a aluna de Pedagogia Suelen Pavolak, de 34 anos, também deixa de por o cinto de segurança nos filhos acreditando que pode protegê-los em eventual abordagem de bandidos. No primeiro dia de aula de Davi, de 6 anos, ela viu um assalto em frente ao carro onde estava com o menino e a caçula, Carolina, de 2 anos.

“Fico pensando: como eu conseguiria pegar a Carolina e o Davi? Os dois já são pesados. Prefiro correr o risco e andar mais devagar do que alguém me assaltar e levar meus filhos”, diz Suelen, que até mudou o horário de aula do mais velho para não ter de levá-lo à escola no carro junto com Carolina. “A gente vê tanta coisa que acaba ficando paranoico”, desabafa ela, que nunca foi assaltada, mas relata casos de violência na família - incluindo o marido, que sofreu três sequestros relâmpagos.

Riscos

- Para o sociólogo e especialista em educação no trânsito Eduardo Biavati, a atitude dos pais é “compreensível” pelo medo da violência urbana. “Não é uma fantasia, alucinação.” Mas ele destaca que os casos de colisões são mais frequentes. “Não é a solução mais inteligente. Em vez de correr risco eventualmente, eles correm riscos permanentemente.”

Para Fábio de Cristo, especialista em psicologia do trânsito, a escolha entre proteger de um acidente ou de um assalto pode ter relação com a necessidade de controle por parte dos pais. “O risco (de acidente) é percebido como menor do que o de ser assaltado. O assalto é a perda total de controle”, afirma.

As experiências pelas quais passou aumentaram o medo que a cobradora de ônibus Fernanda Santos, de 26 anos, tem da violência. Com 7 meses de gravidez, o ônibus em que estava trabalhando em Diadema, na Grande São Paulo, foi assaltado. Hoje, quando está na direção, Fernanda coloca o bebê-conforto de Isabella, de 5 meses, a seu lado, no banco da frente. “Antes, nem saía com ela porque tinha medo”, conta a cobradora. O bebê-conforto fica preso apenas pelo cinto do carro.

Há quatro meses, os pais de Isadora, de 7 anos, passaram pelo susto de uma abordagem com a criança no carro. Era uma manhã de sábado quando um veículo bateu no carro onde a família estava na Avenida Presidente Wilson, na zona sul. “Desceram uns caras armados e já avisei: tem ‘nenê’ atrás”, diz a dona de casa Érica Stanev, de 32 anos.

Nervosa, Isadora, que estava na cadeirinha, teve dificuldades em se soltar. “O cara guardou a arma, tirou ela [do carro] e me deu.” Apesar do desfecho sem agressão física, a menina ficou traumatizada. “Depois disso, ela disse que não queria mais sentar na cadeirinha porque, se vir um bandido, vai pular no banco da frente e sair comigo.”

Estatísticas

- Procurada para comentar os relatos, a Secretaria da Segurança Pública disse que os roubos de veículo na capital e Grande São Paulo caíram 10,5% de janeiro a julho, ante o mesmo período de 2016. Segundo a pasta, isso reflete “o trabalho conjunto” das polícias, que combatem esse e todos os tipos de crime. Já o Detran paulista destacou as regras de transporte de crianças em veículos.

Decisão põe em risco criança, diz especialista

A decisão de abrir mão da cadeirinha é equivocada, na avaliação da coordenadora nacional da ONG Criança Segura, Gabriela de Freitas. “Estatisticamente, a chance de uma criança morrer em um acidente de trânsito é muito maior do que em um caso de violência.”

Dados de 2015 compilados pela instituição com base em informações do Departamento de Informática do Sistema Único de Saúde (Datasus) mostram que os acidentes de trânsito são a principal causa de mortes de crianças de zero a 14 anos de idade no Brasil em relação ao total de acidentes em geral.

Entre os tipos de ocorrências no trânsito, atualmente as que mais matam crianças são as que envolvem carros, quando o menino ou a menina é ocupante do veículo (veja gráfico ao lado).

“[No caso do roubo de carro] existe ainda a possibilidade de negociar e pedir para tirar a criança. Já em acidente de trânsito, não existe alternativa de tentar salvar. A única forma segura de a criança ser transportada no carro é usando a cadeirinha”, defende Gabriela. O equipamento, segundo ela, “pode salvar em 80% dos casos”.

O mecanismo evita que a criança seja lançada para fora do carro em uma colisão. “E o cinto da cadeirinha é projetado para fazer contato com as partes fortes do corpo da criança. É um cinto de cinco pontos, como o usado na Fórmula 1.”

Mas a instalação inadequada, como colocá-la no banco da frente ou não prendê-la ao carro, pode ser ainda mais perigosa. “Se a cadeirinha ficar meio solta, vai juntar o peso do corpo da criança com o da cadeirinha e ela vai voar junto.” Um dos riscos de colocar no banco da frente, diz Gabriela, é o contato com o airbag, que, se acionado, pode machucar a criança.

“Os acidentes são uma realidade. É uma epidemia e uma das principais causas de morte entre crianças e adultos. O pai que toma essa decisão tem de estar ciente de que está fazendo uma escolha que pode tirar a vida do filho”, afirma ela.

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