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Insegurança Violência já interrompeu aulas em 25% das escolas municipais do Rio neste ano A própria unidade onde estuda já foi alvo: em uma das janelas da administração, uma vidraça exibe buraco aberto por um projétil

Por: AE

Publicado em: 17/07/2017 09:37 Atualizado em: 17/07/2017 09:40

A direção passou a anotar "falta justificada" para alunos em dias de confronto. Foto: Bruno Itan
A direção passou a anotar "falta justificada" para alunos em dias de confronto. Foto: Bruno Itan


David de Souza, um garoto de 7 anos e cabelos pretos com mechas louras, já se acostumou. Os tiros, frequentes na região onde fica a escola Professor Carneiro Ribeiro, em Ramos, na zona norte do Rio, não o impedem de ir à escola. Ela fica perto de uma das entradas do Complexo do Alemão e recebe, por dia, 430 alunos - 90% oriundos da comunidade. "Tô nem aí", diz a criança. "Não tenho nem medo de tiro mais. Antes eu tinha." A própria unidade onde estuda já foi alvo: em uma das janelas da administração, uma vidraça exibe buraco aberto por um projétil.

O tiro, por sorte, foi disparado durante confronto em um sábado, dia em que não havia aulas ou crianças. Não feriu ninguém. Em 2017, a escola já teve de cancelar passeio de alunos a um museu. Na véspera, um dos chefes do tráfico na região foi morto, e o comércio foi obrigado, por criminosos, a fechar.

"Foi um passeio difícil de agendar. O ônibus já estava em frente à escola esperando as crianças chegarem, mas as famílias decidiram não trazer os alunos porque ficaram com medo", conta a diretora da unidade, Claudia Goldbach.

A direção passou a anotar "falta justificada" para alunos em dias de confronto. É como se estivessem doentes e apresentassem atestado médico para justificar a ausência. "É uma solução burocrática, mas os alunos acabam deixando de aprender o conteúdo. Sempre orientamos que não venham em dias de tiroteio. Mas, infelizmente, as famílias normalizaram tanto essa realidade que, em dias de tiroteios brandos, as crianças vêm para a escola", diz Claudia.

Segundo a Secretaria Municipal de Educação, de 105 dias do ano letivo (até quinta), a rede funcionou sem interrupção por episódios violentos (tiroteio, toque de recolher, assalto, operação policial) em só oito. Além disso, 382 das 1.537 escolas - uma em cada quatro - tiveram de fechar ou interromper atividades pelos mesmos motivos.

"Ensinamos tanto sobre direitos e deveres para os alunos, mas o principal, o de ir e vir para a escola, eles não têm", lamenta a diretora. Ao menos 129,5 mil alunos (um em cada cinco da rede) foram prejudicados por aulas suspensas nesses casos. Os colégios mais afetados ficam perto das favelas mais perigosas, como Acari (30 dias), Complexo da Maré (18 dias), Cidade de Deus (16 dias) e Complexo do Alemão (15 dias).

Dramas. David responde de pronto sobre o que tem mais medo: policiais, "porque dão tiro e riem depois". Outros alunos manifestam a mesma repulsa. Na sexta, um grupo de PMs foi ao colégio para um programa de conscientização contra drogas, um esforço para aproximar a corporação das crianças.

Outro fenômeno vivido pelas escolas em áreas dominadas pelo tráfico é a frequente perda de alunos para o crime. O caso mais marcante da escola Carneiro Ribeiro, segundo professores, foi o de uma jovem que namorava o "gerente" de uma das bocas de fumo do Alemão. Depois que o namorado foi morto, ela assumiu o comando do tráfico. Na época, tinha só 13 anos.

"Era uma das nossas melhores alunas. Só tirava nota alta, estava acima da média. Mas, infelizmente, a perdemos. Não sabemos nem se ela ainda está viva", conta uma das professoras, que não quis se identificar.

Um perfil de estudantes também se repete. Com frequência, vêm de famílias desestruturadas, com pai ausente, parentes mortos, e são criados pela mãe ou avó. Um dos casos é o de Matheus Henrique, de 12 anos, que teve um primo assassinado. Seu irmão também morreu. "Quando tem tiroteio, dá susto. E a gente fica em casa porque minha mãe diz que é perigoso", relata o menino rechonchudo, entre lágrimas. Relatos de agressões físicas e sexuais são frequentes, dizem docentes - não é raro alunos aparecerem com marcas de violência no corpo. 

Há dois meses, a escola foi assaltada por um homem armado. A ação ocorreu às 6 horas, e ainda não havia alunos. Bolsas e carteiras dos funcionários foram levadas. Os professores contam que também já houve casos de homens armados e drogados pedindo dinheiro na secretaria - um deles se contentou com só R$ 20. Houve até um que roubou o carro de uma professora para, segundo disse, "fazer uma coisa", mas prometeu devolvê-lo. O veículo reapareceu: com um cadáver dentro.

Na semana passada, a Cruz Vermelha Internacional iniciou curso com professores de escolas em áreas de risco no Rio para tentar diminuir a vulnerabilidade de seus funcionários em ambientes de conflito armado. Os professores estão sendo orientados a criar metodologia de como trabalhar nas escolas e até a simular ações necessárias em casos de violência - como evacuação, por exemplo.

'Queria que policial não entrasse atirando', diz mãe de menina morta

Às 16h08 do último dia 30 de março, Rosilene Alves, de 53 anos, atendeu a um telefonema que ninguém gostaria de receber e que nunca mais vai sair de sua memória. Uma amiga de sua filha disse que Maria Eduarda, de 13 anos, tinha sido morta dentro da Escola Municipal Jornalista e Escritor Daniel Piza, em Acari, na zona norte do Rio.

A garota levou três tiros, dois na cabeça e um nas nádegas. Ela estava na quadra, fazendo aula de Educação Física. Os projéteis a perfuraram seis vezes. A auxiliar de serviços gerais narra exatamente as primeiras imagens de como viu o cenário da morte da filha, como se tivesse ocorrido minutos antes.

"Estava falando dela para as pessoas no meu serviço, como ela era linda, calçava 40 e jogava basquete, quando recebi a ligação. Peguei uma van, falei para o motorista que minha filha havia sido morta e ele foi cortando o caminho. Quando cheguei lá meu filho abriu o portão para mim e a quadra estava cheia, parecia o Maracanã. As pessoas foram abrindo caminho para mim. Tirei aquele pano, parecia que ela estava dormindo, só tinha aquele sangue ao redor porque foram dois tiros na cabecinha. Eu beijava tanto e falava: Não faz isso comigo Maria, não vai embora", emociona-se a mãe, ao contar a história.

A escola onde Maria Eduarda estudava e foi morta fica no Morro da Pedreira, dominado por um dos bandos mais violentos do Rio. No momento da ação que vitimou a adolescente, dois policiais perseguiam criminosos nos arredores do colégio. 

Exames comprovaram que os tiros que atingiram Maria Eduarda vieram da arma do cabo Fábio Barros Dias, que está solto. Ele e o sargento David Centeno foram filmados atirando à queima-roupa em dois suspeitos de roubos na região, em frente à escola. Os dois estavam deitados no chão, aparentemente feridos e imóveis, e morreram ali, na calçada ao lado do colégio.

"Eu só queria que os policiais não entrassem mais nas comunidades atirando. Eles não fazem isso em Copacabana, no Leblon, na zona sul", afirma Rosilene. "Ela estava no lugar certo, na hora certa, na escola, que é o lugar onde criança deve estar. Não está sendo fácil, mas eu não vou parar. Eu vivia para a Maria, trabalhava para a Maria. Se eu me entregar, deitar, eu morro de depressão", diz a mãe.

Sem respostas

O pai de Maria, o pedreiro Antônio Alfredo da Conceição, de 62 anos, também pede justiça. "Sentei com o Seu Pezão (Luiz Fernando, governador do Rio) e falei: 'só quero te fazer uma pergunta, governador. O que você faria se estivesse no meu lugar?'", lembra.

"Ele, infelizmente, não tinha resposta. Ainda não teve justiça, o policial ainda não foi preso. Quantas Marias eles ainda vão precisar matar? Os delinquentes estão matando as crianças, e os policiais também. Eu tenho 62 anos. Queria que Deus tivesse me levado, mas infelizmente, ela foi e eu fiquei", lamenta o pai.

O cabo Dias foi indiciado por homicídio pela morte da adolescente, de acordo com o relatório feito pela Delegacia de Homicídios (DH) do Rio. Para a DH, ele agiu com dolo eventual ao atirar contra os suspeitos, assumindo o risco de matar algum inocente, já que sabia da existência de uma escola perto do local do tiroteio e do risco de atingir estudantes. 

Por esse crime, os dois policiais já foram denunciados pelo crime de homicídio doloso (intencional). Embora tenham sido presos logo após o episódio, eles foram autorizados pela Justiça a responder ao processo em liberdade.

Estado quer rever procedimentos em operações no Rio

Questionada pela reportagem sobre o alto número de episódios violentos perto de escolas e o fato de alunos dizerem ter medo de policiais, a Secretaria de Segurança Pública do Rio informou que autoridades da pasta e da Secretaria Municipal de Educação se reuniram na última quinta-feira para estabelecer agenda comum visando a diminuir os confrontos e os dias sem aulas. Na reunião diz a nota, o secretário municipal de Educação, César Benjamin, foi convidado - e aceitou - contribuir com informações que possam ajudar o grupo, criado pela Segurança, para "rever normativas, procedimentos e protocolos que envolvem ações das polícias operacionais em incursões, melhorando as suas atuações". A primeira reunião do grupo foi na semana passada.






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