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Rodrigo de Freitas Sequência de crimes e morte de ciclista abrem crise na segurança do Rio Vítima foi esfaqueada enquanto andava de bicicleta em área nobre do Rio de Janeiro

Por: Marcella Fernandes

Publicado em: 21/05/2015 09:10 Atualizado em:

Protesto próximo ao local onde Jaime (no detalhe) foi alvo de criminosos: insegurança na sede dos Jogos Olímpicos de 2016. (Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil)
Protesto próximo ao local onde Jaime (no detalhe) foi alvo de criminosos: insegurança na sede dos Jogos Olímpicos de 2016. (Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil)
A morte do ciclista Jaime Gold, um médico de 56 anos, na Lagoa Rodrigo de Freitas, no Rio de Janeiro, somada a uma sequência de crimes, levou o secretário de Segurança do estado, José Mariano Beltrame, a trocar o comando do 23º Batalhão da Polícia Militar, responsável pelo policiamento da área. Os atos violentos em uma das regiões nobres da cidade a pouco mais de ano das Olimpíadas têm provocado insegurança e revolta nos moradores. Jaime foi atacado com facadas no início da noite de terça-feira enquanto andava de bicicleta e faleceu na manhã de ontem. De acordo com a Delegacia de Homicídios (DH), foi feita uma perícia complementar no local da morte, “testemunhas estão sendo ouvidas e imagens de câmeras de segurança, analisadas”.

Outro caso recente de violência na região foi o assalto a Victor Didier, 19 anos, que também estava em uma bicicleta. Ele ficou duas semanas internado em uma unidade de tratamento intensivo após ter sido roubado no início da noite de 19 de abril. “Foram quatro facadas. Ele quase morreu, porque atingiram os pulmões e por pouco não atingiram as veias principais”, conta o pai da vítima, o executivo Christophe Didier, 51. Segundo o Instituto de Segurança Pública do Rio, foram registradas 1.049 ocorrências em abril na região da Lagoa, que abrange sete bairros da Zona Sul. Dessas, 83 foram casos de lesão corporal dolosa (com intenção de ferir) e 118 roubos, sendo 62 assaltos a transeuntes,  nos quais se enquadram os crimes envolvendo ciclistas. As delegacias não discriminam nos registros roubos de bicicletas.

“Mais do que lamentável, é inadmissível o que aconteceu”, afirmou Beltrame. Ele admitiu que há dificuldades na atuação policial e que a PM discute ações conjuntas com a guarda municipal. O secretário enfatizou a importância turística ao se referir ao local como “um cartão-postal”. De acordo com o novo comandante da PM no Leblon, policiais farão abordagens nos ônibus e haverá apoio de agentes do serviço reservado da própria unidade e do Batalhão de Policiamento em Áreas Turísticas. O patrulhamento na região tem duas cabines de polícia e rondas diárias de viaturas, policiamento a pé, em carrinhos elétricos, em motos e em bicicletas. De acordo com a assessoria da PM, 48 homens reforçaram as ações ostensivas ontem.

O sociólogo Glaucio Ary Dillon Soares, da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ), lembra que as cenas de violência ganharam destaque pelas circunstâncias. “Você tem uma lente que diminui a atenção em algumas áreas e aumenta em outras. Se acontece na Lagoa ou no Leblon, recebe muita atenção”, afirma. De acordo com ele, os índices de violência, de modo geral, reduziram no Rio, e os assaltos costumam ser cometidos pelas mesmas pessoas. “É preciso muita preocupação com os reincidentes. A probabilidade de continuar assaltando é muito maior do que de assaltar pela primeira vez”, completa.

“Tragédia anunciada”
A Comissão de Segurança no Ciclismo da Cidade do Rio de Janeiro (CSCRJ) classificou a morte de Jaime com uma “tragédia anunciada”. O grupo tem buscado ajuda do poder público no combate à violência contra ciclistas. No início do mês, foi feita uma corrida e, no sábado, será realizada uma missa campal na Lagoa. Em seguida, os ciclistas vão pedalar até o Palácio Guanabara, sede do governo local. Para o presidente da CSCRJ, Raphael Pazos, é preciso reforçar o ciclopatrulhamento e aprovar o projeto de lei estadual que inclui nos registro policiais informações das bicicletas roubadas, como o número de série, o que facilitará o rastreamento. Ele destaca a vulnerabilidade dos ciclistas. “Nem precisa de faca. Se você empurra um ciclista, ele pode bater a cabeça e morrer”, alerta.
Horas após o ataque ao médico, uma mulher foi esfaqueada, na tarde de ontem, em assalto em São Conrado. Ele foi ferida nas pernas, mas passa bem. 

Três perguntas para
Renata Florentino, coordenadora-geral da organização Rodas da Paz

A falta de segurança tem sido um fator que inibe o uso da bicicleta?
Quanto mais ciclistas pedalando, mais seguro se torna pedalar, devido ao aumento da visibilidade da presença das bicicletas nas ruas. Uma reclamação constante é que as vias e as rodovias de alta velocidade, com elevados índices de fatalidade e com maior tráfego de ciclistas, que fazem conexão entre as cidades do DF e delas com o Plano Piloto, continuam sem infraestrutura cicloviária adequada. Boa parte das ciclovias construídas estão concentradas em vias de baixa velocidade no Plano Piloto.

O que precisa ser feito para combater a insegurança nas vias para os ciclistas?
É necessário planejamento e informação. O monitoramento estatístico das ocorrências no trânsito, segundo regiões e vias, e a realização de pesquisas periódicas sobre os tipos de deslocamentos da população são imprescindíveis para direcionar ações governamentais e traçar metas para um futuro desejável. Em relação a roubos de bicicletas, as políticas públicas que beneficiam a comunidade como um todo também beneficiam os ciclistas.

Como os ciclistas podem se proteger para não serem alvos de atos de violência?
Quando deixar sua bicicleta estacionada, escolha lugares movimentados e use boas trancas. Quanto mais bicicletas nas ruas, mais seguro será o trânsito para todos, conforme se verifica nas estatísticas das cidades que tiveram aumento no uso da bicicleta pelo mundo. Quem utiliza a bicicleta como meio de transporte deve se manter visível, ocupar a faixa da direita e se comunicar, não aceitar provocações e evitar conflitos e bate-bocas no trânsito.


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