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Saúde » O perigo invisível do mercúrio no dia a dia

Publicação: 05/09/2014 09:43 Atualização:

Valdivino dos Santos Rocha tinha 32 anos quando foi contratado como mecânico por uma fábrica de lâmpadas na Grande São Paulo, em 1986. “A gente fazia a reposição do mercúrio e quando acontecia qualquer vazamento tinha que correr e trocar rapidinho, vivia em cima da máquina”, explica o paulista, que trabalhou sete anos no local. Segundo ele, a máscara de proteção, pesada, “atrapalhava”, e não haveria uma orientação correta para o uso. “Uns 80% dos funcionários foram contaminados. Tenho gastrite crônica, outros tiveram câncer de estômago, problemas na bexiga e nos rins. Os meus (rins) só funcionam 48%”, revela o hoje vice-presidente da Associação dos Expostos e Intoxicados por Mercúrio Metálico (Aeimm), que reúne cerca de 200 ex-funcionários de fábricas de lâmpadas fluorescentes de São Paulo. Além de uma indenização, eles querem que as empresas garantam o tratamento para quem ficou com sequelas.

O mercúrio se deposita no sistema nervoso central, destruindo os tecidos cerebrais e causando desde mudanças de comportamento à total incapacidade motora (veja quadro). O Brasil e nove países sulamericanos se reuniram esta semana em Brasília para traçar estratégias de implementação da Convenção de Minamata sobre o Mercúrio, assinada em outubro de 2013. Encontros semelhantes acontecem em outros continentes para estudar a aplicação do acordo, que visa diminuir as fontes de contaminação como forma de proteger a saúde e o meio ambiente. Dentre as obrigações estabelecidas, está a redução ou mesmo eliminação do uso do metal em produtos e processos industriais. Cada país deve elaborar um plano nacional para a redução do uso do mercúrio na mineração de ouro artesanal, os garimpos.

Uma das principais formas de intoxicação por mercúrio se dá pela ingestão de peixes e frutos do mar. Tommaso Giarrizzo, professor da pós-graduação em Ecologia Aquática e Pesca da Universidade Federal do Pará (UFPA), analisou pescados vendidos nos mercados de Belém (PA) e descobriu altos teores de mercúrio em algumas espécies, acima do recomendado pela Organização Mundial da Saúde. “Isso não deve ser considerado um alarme porque as altas concentrações podem estar mais associadas aos locais da pesca, como regiões de garimpo, do que unicamente às espécies”, explica. “Infelizmente, nas feiras e mesmo nos mercados onde pode ser encontrado o peixe industrializado, a procedência não é informada. O certo seria realizar estudos nas diferentes bacias hidrográficas e avaliar quais apresentam um pescado de melhor qualidade”, destaca.

Obturações
Além da alimentação, outra fonte de contaminação são as obturações dentárias. Apesar de baratas, as aplicações do amálgama à base de mercúrio estão caindo em desuso. “O mercado é maior para a resina, que é mais bonita. O dente não é só para ser usado, mas para ser visto”, explica Hugo Valadares. Na hora da troca do material, o perigo aumenta. “A obturação em si não é tão perigosa quanto a vaporização que ocorre no momento de tirá-la”, alerta o dentista, que é vice-presidente no Brasil da Academia Internacional de Medicina Oral e Toxicologia (IAOMT).

Ele lembra que o risco não é só para o paciente. “O perigo maior é para o dentista, as enfermeiras, toda a equipe”, diz. A repetição do procedimento e a longa exposição aumentam os riscos. Valadares é um dos dentistas brasileiros que já utilizam as novas recomendações para a retirada das obturações. “Quando se olha para o aparato necessário, a remoção do mercúrio assusta, até se pode pensar que é exagero. As roupas usadas são jogadas fora”, revela, com uma preocupação: “Toda essa remoção vai para a água, no Brasil não há a obrigatoriedade de um separador de mercúrio”.

Mortes

Em 1953, em Minamata, no litoral do Japão, 79 pessoas morreram misteriosamente após apresentarem sintomas como tremedeiras, princípios de cegueira e paralisia. Outras vítimas passaram a não mais conseguir executar gestos simples como beber um copo de água ou se locomover sem ajuda. Em 1956, veio a descoberta da causa: as grandes quantidades de mercúrio despejadas no mar por uma fábrica durante mais de 20 anos. A contaminação da população se deu pela ingestão dos peixes envenenados. O caso levou ao nome de Doença de Minamata.

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