• (0) Comentários
  • Votação:
  • Compartilhe:

Vergonha » Denunciar abuso sexual ainda é tabu Muitos abusos não vêm à tona porque ocorrem no ambiente familiar ou pela angústia da vítima, que não quer reviver dor. Além disso, a cena do crime não é preservada

Publicação: 22/08/2014 12:27 Atualização:

No momento em que as vítimas de estupro do ex-médico Roger Abdelmassih vão ao aeroporto, em São Paulo, para recebê-lo e mostrar indignação com os crimes e alívio com a prisão do acusado no Paraguai, muitas mulheres molestadas em Belo Horizonte se calam. O homem condenado em 2010 a 278 anos de prisão por 48 ataques a 39 mulheres chegou ontem ao Brasil e foi levado para o presídio de Tremembé, no interior paulista.

Por medo, constrangimento, vergonha ou dor, vítimas de abusos sexuais resistem em relatar os casos à polícia e guardam, sozinhas, marcas físicas e psicológicas. A estabilização das ocorrências de estupro em BH é reflexo dessa fragilidade. De janeiro a julho deste ano, 118 crimes foram denunciados, contra 125 no mesmo período do ano passado. O total de 222 ocorrências de todo o ano de 2013 também é menor que o do ano anterior, período em que 293 casos chegaram à Polícia Civil. Segundo a delegada Silvana Fiorilo Rocha de Resende, titular da Delegacia de Mulheres da capital, muitos abusos não vêm à tona porque ocorrem no ambiente familiar ou pela angústia da vítima, que não quer reviver dor.

No desembarque de Roger Abdelmassih, as mulheres que estiveram no Aeroporto de Congonhas para uma espécie de “purificação” dos dramas que sofreram, demonstraram emoção e precisaram ficar atrás de um cordão de isolamento. Abdelmassih era especialista em fertilização in vitro e teve o registro cassado pelo Conselho Regional de Medicina de São Paulo depois que as denúncias de abuso sexual vieram à tona.

Conhecido por atender celebridades, o ex-médico abusava das pacientes depois de sedá-las para procedimentos de reprodução assistida. Foragido desde 2011, quando tentou renovar o passaporte, Abdelmassih teve a prisão decretada, deixou de se apresentar e passou a ser procurado. O ex-médico passou por exames feitos por peritos do IML ainda dentro do aeroporto e seguiu para a prisão.

Se os crimes praticados por Abdelmassih têm repercussão, o mesmo não ocorre nos casos de vítimas isoladas, como o de T., hoje com 17 anos. Aos 14 anos ela foi estuprada pelo marido da prima em uma casa no Bairro Jaqueline, Região de Venda Nova, e demorou a contar o drama à mãe. Foram duas semanas de angústia, sofrimento, ameaças e medo, que pareciam não ter fim. O constrangimento de ter sido alvo de um crime sexual tirou a paz da adolescente. Somente com a ajuda da mãe a garota conseguiu relatar o drama à polícia. O agressor foi intimado e a investigação, comprometida pela falta de provas, está em andamento. A jovem diz que ainda guarda marcas psicológicas do crime. Mas passou a entender a importância de ter quebrado o silêncio e denunciado o estuprador, mesmo sendo ele um membro da família.

“A gente fica com vergonha porque tem que contar detalhes à polícia. É constrangedor”, diz. Ela ressalta, entretanto, que é preciso vencer o medo e denunciar. “Quando aconteceu, eu não entendia a importância de contar logo para a minha mãe e perdemos as provas. Até hoje, ele (o agressor) diz que sou louca e que nada aconteceu”, conta a jovem, que diz sentir raiva pelo fato de homem ter ficado sem punição.

Com 20 anos de experiência na Delegacia de Mulheres, a delegada Silvana Fiorilo diz que a elucidação de crimes e prisões de agressores, como o do ex-médico Roger Abdelmassih, encorajam mais mulheres a enfrentar a dor e denunciar. “É doloroso porque mexe com a intimidade. Muitas mulheres não querem retirar a cortina desse drama e reviver tudo na presença do policial, do promotor ou do juiz.” Mas Silvana destaca: “Elas, talvez, não possam imaginar a contribuição que dão à sociedade ao denunciar. Com a prisão do agressor, outras pessoas deixarão de passar pelo mesmo drama”.

É preciso preservar as provas do crime

A criação da Lei Maria da Penha, que trata da violência contra a mulher, foi um grande avanço na proteção de vítimas de crimes sexuais e punição dos agressores. Mas, para ser efetiva na erradicação desse tipo de violência, a polícia reforça a necessidade de que as provas técnicas, como sêmen e marcas no corpo, sejam preservadas. De acordo com a delegada Silvana Fiorilo, a vítima deve, logo após o ataque, procurar a delegacia e denunciar o criminoso. “Ela deve ir sem tomar banho ou antes de fazer qualquer tipo de higiene.” De lá, a mulher agredida é levada a uma unidade de saúde para passar por exames e fornecer material genético que possa ajudar na identificação e prisão do autor do crime.

Ainda que a mulher não se sinta confortável a seguir com o inquérito policial, a delegada orienta que ela deve procurar a polícia para registro da ocorrência e para que possa ser atendida pela rede de assistência a vítimas de crimes sexuais. “Com o comparecimento da vítima, o material genético poderá ser coletado e armazenado em um banco de dados para cruzamento de informações em caso de múltiplos ataques ou naqueles em que já há um acusado”, diz Silvana. A chamada cadeia de custódia, um laboratório que armazena as cargas genéticas no Instituto de Criminalística da Polícia Civil, na capital, já contribuiu para a elucidação de vários crimes, segundo a delegada.

Em BH, cinco hospitais oferecem atendimento especializado a vítimas de crimes sexuais. No Odilon Behrens, Hospital das Clínicas, João XXIII, Odete Valadares e no Júlia kubitschek, mulheres que foram abusadas contam com serviços de prevenção a doenças sexualmente transmissíveis e acompanhamento médico e psicológico pelo tempo que for necessário. “O sofrimento é muito grande e se o trabalho de assistência não for bem feito, ela pode não se curar da dor”, afirma a delegada.

Esta matéria tem: (0) comentários

Não existem comentários ainda

Comentar

Para comentar essa notícia entre com seu e-mail e senha

Caso você não tenha cadastro,
Clique aqui e faça seu cadastro gratuito.
Esqueci minha senha »

Os comentários abaixo não representam a opinião do jornal Diario de Pernambuco; a responsabilidade é do autor da mensagem.