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Belo Horizonte » Mães aprovam aplicativo que obriga filhos a atenderem celular ou retornarem ligação

Publicação: 21/08/2014 09:54 Atualização:

O estudante Ricardo, de 20 anos, concorda, em parte, com as chamadas da mãe, Fátima, quando sai com os amigos. Só não aprova a insistência. Foto: Tulio Santos/EM/D.A. Press
O estudante Ricardo, de 20 anos, concorda, em parte, com as chamadas da mãe, Fátima, quando sai com os amigos. Só não aprova a insistência. Foto: Tulio Santos/EM/D.A. Press

Como reagir quando o filho adolescente vai com amigos para balada? Dormir tranquilamente ou não desgrudar os olhos do celular e encher o telefone de mensagens e ligações? Pais de jovens conhecem de perto essa preocupação, bem como o quanto é irritante ligar insistentemente e não ouvir um alô do outro lado da linha. Mas qual deve ser a dose de liberdade que os filhos devem receber? No Texas (EUA), uma mãe, cansada de ter as chamadas ignoradas pelo filho, resolveu pôr fim ao problema: criou um aplicativo de smartphone que o obriga a atender ou retornar a ligação. Em entrevista à rede de TV CBS New York, a norte-americana Sharon Standifird contou que se não houver resposta, o aparelho fica bloqueado, sem acesso à internet, Facebook ou Whats App ou a ligações, até que o jovem faça contato com os pais, único tipo de chamada permitida. Ainda não disponível no Brasil, o aplicativo já gera discussões por aqui sobre qual é o limite entre a preocupação e o exagero, e como essa relação pode ser saudável ou não.

A funcionária pública Cátia Souza Gomes, de 46 anos, não tem vergonha de assumir: “Ligo mesmo! Não me intimido com o horário ou com quem ele esteja. Tenho uma preocupação de mãe, que está relacionada a todos os perigos e à violência a que estamos sujeitos.” Mas nem sempre ela tem sucesso nas tentativas de manter contato com o filho. “Às vezes, ele atende. Às vezes, não. E, às vezes, não retorna. Uma aflição.” Cátia admite que quando o filho Igor Souza, hoje com 21 anos, era menor de idade ela chegou a sair para procurá-lo na casa de uma ex-namorada, já que o jovem não atendia o telefone. Em outra ocasião, ele foi assaltado e os bandidos levaram o celular. “Fiquei ligando insistentemente e ele não atendia. Até que o Igor chegou em casa numa viatura policial. Não gosto nem de lembrar do susto.”

Cátia reconhece que se Igor não atende o celular durante o dia é porque pode estar ocupado no trabalho e, nesse caso, ela espera a ligação de volta. “Mas durante a noite é diferente. Ele sai de carro e tenho medo de assalto, acidente, sequestro relâmpago ou qualquer outro tipo de violência. E se ele não chega, eu e o meu marido ligamos para saber onde está. Ela explica como funciona a relação em casa e conta que se Igor diz que vai chegar tarde, ela fica sossegada. Mas se fala que é uma saidinha rápida, que vai voltar cedo e não aparece, aí começam as mensagens e ligações. “Não quero monitorar meu filho, mas saber por onde ele anda e a que horas vai chegar me deixa tranquila.”

Do outro lado, Igor se explica sobre as chamadas perdidas em seu celular. “Só não atendo quando realmente não vejo ou estou com uma garota. Aí não tem clima, né?”, diz, em meio a risadas. Apesar de muitas vezes achar incômodo ser chamado pela mãe no meio da madrugada, o jovem reconhece ser válida a preocupação. Mas sobre o aplicativo americano é radical. “Pode funcionar enquanto o adolescente for vulnerável, com 13 ou 14 anos. Mas com uma pessoa já mais velha, como na minha idade, é ridículo e invasivo.”

MADRUGADA A psicóloga Fátima Rodrigues, de 43 anos, também tenta fugir da aflição de procurar o filho, Ricardo Oliveira, de 20 anos, durante a madrugada. De modo geral, o combinado entre eles dá certo. Funciona assim: Ricardo informa para onde vai e o horário em que vai chegar. Da rua, costuma manda mensagens e diz que tudo está tranquilo. Mas, em alguns casos os torpedos ou ligações não chegam e o desespero bate à porta de Fátima. A psicóloga lembra o dia em que amanheceu acordada à espera do filho, que, depois de uma balada em uma boate, saiu com os amigos para lanchar e não mais atendeu o telefone. “Olhava o último horário em que ele teve acessado o Wats App e via que estava desconectado. Foi um desespero, até que ele chegou e disse que o celular ficou sem bateria”, diz Fátima, admitindo que seria uma das adeptas do novo aplicativo, caso estivesse disponível no Brasil.

A preocupação de Fátima é parecida com a de Cátia Souza. “Não tenho receio sobre o comportamento dele e dos amigos mais próximos, porque são bons meninos. Mas eles saem de carro, podem estacionar em locais desertos, sujeitos a ações de bandidos.” Ricardo, estudante universitário, diz que o zelo é normal, mas que muitas vezes se irrita com tanta preocupação. “É um processo progressivo. Ela manda mensagem e depois começa a ligar. Meu pai também passa a ligar e a mandar mensagens. O que enche o saco não é a preocupação, é a insistência.”

Em um caso extremo, uma moradora da capital passou a monitorar o filho por meio de um aplicativo de localização do Iphone, pois o rapaz, sempre que bebe muito, desmaia e fica sem contato. A mulher, que não pode ser identificada, conta que o filho, antes de “apagar”, liga para pedir ajuda. Em alguns casos, a busca dá certo e o jovem é localizado. Mas às vezes, enquanto ele está inconsciente, o celular é roubado e a mãe precisa recorrer a parentes para procurar o jovem pelas ruas da capital.

SAIBA MAIS

Ignore o more

O aplicativo Ignore no more desenvolvido pela norte-americana Sharon Standifird funciona em smartphones com sistema Android e tem versão em desenvolvimento para Iphone. O custo para instalação do app é de U$ 1,99, o equivalente a R$ 4,50. Diante de ligação não atendida, o celular para de funcionar e só é desbloqueado quando a ligação é atendida ou retornada. Para voltar a usar o Facebook, WhatsApp e outros aplicativos, é necessário um código de quatro dígitos que só pode ser fornecido pelos pais, quando o filho retorna a ligação. Uma vez instalado o aplicativo, a desativação só é feita com a autorização do administrador.

 

Boa relação substitui vigilância exagerada

A crescente onda de violência no país e o aumento do consumo de drogas e das ocorrências de crimes contra o patrimônio são fatores apontados por especialistas como razões para a aflição de pais quando os filhos saem de casa. Presidente do Conselho de Psicologia de Minas Gerais, Roberto Chateaubriand explica que ao mesmo tempo em que cresceu o risco de alguém se tornar vítima de um crime, a preocupação em ver o filho sair sozinho foi potencializada. “Esse comportamento é algo legítimo”, diz. Ele alerta, no entanto, que é preciso haver ponderação para que a “vigilância” não se torne algo prejudicial. Para o especialista, o que as famílias precisam é de estabelecer uma relação de confiança e transparência no cotidiano.

“Quando mais se tentar proteger, há uma tendência de que o filho desenvolva um mecanismos de fuga e passe a ignorar a ligação dos pais. E o que poderia ser um hábito natural vira problema”, afirma Chateaubriand. Segundo o psicólogo, a família precisa, de forma saudável, respeitar o momento do jovem, que, nessa fase da vida busca identidade própria fora do ambiente familiar. O especialista é contrário ao uso de aplicativos que possam estabelecer controle sobre os filhos, a exemplo do norte-americano Ignore no more. “O que pais e filhos menos precisam é de aplicativos ou ferramentas tecnológicas para saber uns dos outros. Não que eles precisem ser amigos íntimos, falar de situações em que o filho não se sinta à vontade, mas os pais podem ser vistos como um porto seguro.”

Ele faz ainda o alerta de que se o filho constantemente ignora a ligação dos pais, a relação familiar deve ser analisada. “Dar sempre ‘o perdido’ é algo sintomático e os pais precisam conversar com seus filhos para entender o que está acontecendo”. Ele acrescenta que nenhum comportamento diante dessas situações deve ser histérico ou descontrolado, a ponto de exigir sanções como as impostas pelo aplicativo, que bloqueia o celular diante de uma ligação não atendida.

Com uma sólida relação construída com os filhos Cristiane, de 20, e Leonardo, de 17, a empresária Ivanise Maria Costa Carvalho Neira, de 53, garante não ter problema para manter contato com eles. “Desde adolescentes avisam onde estão, se vão mudar de local, com quem estão e a que horas vão chegar em casa. Já estão acostumados porque foram educados assim.” Segundo ela, os filhos sempre entenderam o motivo do cuidado. “Não encaram como monitoramento, mas como regra de segurança.”

 

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