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Ciência » Tartarugas de rio 'conversam' até no ovo, diz pesquisa

Agência Estado

Publicação: 19/08/2014 22:46 Atualização:

As tartarugas de rio (Podocnemis expansa) usam vários tipos de comunicação vocal para coordenar comportamentos sociais, revela pesquisa feita no Pará e publicada na revista Herpetologica. A "conversa" entre os animais é provavelmente uma estratégia natural usada, por exemplo, na sincronização de movimentos durante as migrações, ou na decisão sobre locais específicos para a desova.

Cientistas do Instituto Nacional de Pesquisas de Amazônia (Inpa) e da Wildlife Conservation Society (WCS) são os responsáveis pela pesquisa. Conforme uma das autoras do artigo, Camila Ferrara, da WCS, as vocalizações foram gravadas com microfones e hidrofones instalados nos cascos dos animais.

O estudo se baseou em 220 horas de gravações entre 2009 e 2011 durante o período de reprodutivo. Esse período tem início com a migração das tartarugas - que nadam das florestas alagadas até as praias de rio onde é feita a desova - e termina com o nascimento dos filhotes, sua saída dos ninhos, o reencontro com as mães e a migração de volta à floresta alagada.

"Observamos seis tipos de sons nesse período. Os dados indicam que essas vocalizações têm um papel importante na sincronização das atividades dos grupos", disse Camila. Os sons foram gravados em cinco momentos: durante a migração; no momento da agregação diante das praias de rio; na noite de desova, ao esperar na água fora do momento de desova e durante a espera da chegada dos filhotes.

Segundo Camila, os cientistas se surpreenderam com a variedade de sons. "Foram registrados desde sons simples como pulsos, até outros mais complexos, como os harmônicos e híbridos." As "conversas" só podem ser ouvidas por quem estiver muito perto delas, em silêncio, segundo outro autor do estudo, Richard Vogt, do Inpa.

"Os sons são muito baixos, embora audíveis para a frequência humana. São sons de pouco mais de 36 hertz; captamos frequências a partir de 20 hertz."

Frequências


Segundo o artigo, os sons feitos pelas tartarugas durante a migração tinham as frequências mais baixas, talvez para facilitar o contato entre os animais em longas distâncias. As vocalizações no período em que são feitos os ninhos tendem a ter frequências mais altas, o que facilita sua transmissão em águas rasas e no ar.

Em outro estudo do gênero publicado no início de 2013 no Journal of Comparative Psychology, os pesquisadores haviam revelado pela primeira vez um caso de cuidado parental entre répteis. Antes disso, pensava-se que as tartarugas não cuidavam de suas crias, apenas deixavam os ovos enterrados, abandonando os filhotes à própria sorte.

Mas, ao estudar os sons, os pesquisadores perceberam que os filhotes, ao sair dos ninhos e entrar no rio, chamam pelas fêmeas. “Elas respondem e os aguardam em frente à praia para então irem todos juntos ao rio”, diz Vogt.

Os cientistas também observaram que, até dois dias antes da eclosão dos ovos, os filhotes emitiam sons vocais. "Era curioso observar que muitos dos filhotes nasciam prematuros. Agora acreditamos que isso ocorre porque eles são estimulados pelos outros com a vocalização, a fim de unir forças para cavar e sair do ninho", diz.

Os cientistas observaram ainda que os filhotes permanecem juntos com as fêmeas adultas durante toda a migração, por mais de dois meses. Participaram também do estudo Renata Sousa-Lima, da Universidade Cornell, Bruno Tardio, do Instituto Chico Mendes e Virginia Campos Diniz Bernardes, do Inpa.
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