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Minas Gerais » Museu da Inconfidência completa 70 anos como guardião da história

Estado de Minas

Publicação: 19/07/2014 11:06 Atualização:

Fachada do Museu da Inconfidência, que reabriu as portas com novos projetos há oito anos  (Foto: Juarez Rodrigues/EM/D.A.Press)
Fachada do Museu da Inconfidência, que reabriu as portas com novos projetos há oito anos

A história do Brasil passa, necessária e vigorosamente, pela Praça Tiradentes, no Centro de Ouro Preto, antiga Vila Rica. No edifício erguido em 1785 pelo governador da Capitania de Minas, Luís da Cunha Meneses, para ser Casa de Câmara e Cadeia, está o Museu da Inconfidência, de portas e janelas coloniais abertas para contar a trajetória de Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes (1746-1792), e conjurados que lutaram pela liberdade; caminhos do Ciclo do Ouro nas Gerais; e maravilhas do barroco, incluindo peças de Antonio Francisco Lisboa, o Aleijadinho (1737-1814), cujo bicentenário de morte é lembrado este ano, e partituras musicais. No próximo dia 11, o Museu da Inconfidência, vinculado ao Instituto Brasileiro de Museus (Ibram), vai completar sete décadas de conhecimento, memória e arte, com novidade para os visitantes. A cerimônia comemorativa será na véspera, domingo, às 11h, com a presença da ministra da Cultura, Marta Suplicy.

Logo em frente ao Inconfidência, pode-se admirar um dos cartões-postais mais conhecidos do país: o Monumento a Tiradentes, escultura em bronze feita em 1894 por Virgílio Cestari e localizada de costas para o antigo Palácio do Governador, atual Escola de Minas. Depois desse primeiro impacto visual, é hora de subir a escadaria de pedra, visitar salas e colar os olhos nas vitrines do museu para um exercício fascinante: aguçar os sentidos e mergulhar numa longa história.

Há 40 anos no cargo de diretor, o escritor Rui Mourão conta que o acervo reúne cerca de 60 mil itens, entre documentos dos tempos da Conjuração Mineira (1788/89), como o sétimo volume dos Autos da Devassa e a edição clandestina de 1778 da Constituição dos Estados Unidos – em francês, Recueil des loix Constitutives des États-Unis; peças da forca usada no suplício de Tiradentes, no Campo da Lampadosa, no Rio de Janeiro; relógio do alferes e depois mártir do movimento, de fabricação inglesa, adquirido pelo ex-presidente Juscelino Kubitschek das mãos de particulares, em 1953; mobiliário dos séculos 18 e 19; peças sacras; biblioteca; livros de cartório, entre uma série de preciosidades. Merecem destaque os manuscritos musicais reunidos pelo pesquisador alemão Francisco Curt Lange (1903-1997), que salvou da destruição centenas de partituras da música colonial mineira.

 

Peças da forca do martírio de Tiradentes são relíquias entre os cerca de 60 mil itens em exposição (Foto: Juarez Rodrigues/EM/D.A.Press)
Peças da forca do martírio de Tiradentes são relíquias entre os cerca de 60 mil itens em exposição
 

Panteão
Diante da fachada do imponente edifício, Mourão ressalta que a casa é fundamental para se entender melhor a história da liberdade no Brasil. O museu, explica, foi criado no governo de Getúlio Vargas para receber os despojos dos conjurados mineiros mortos no exílio na África e repatriados em 1936 – a iniciativa coincidiu com a passagem dos 150 anos da sentença proferida em 1792 contra os réus da Inconfidência. Em 1942, havia apenas o Panteão com as lápides dos heróis, e dois anos depois o museu ganhou forma sob a direção do historiador Raymundo Trindade. Nesse caso, a data comemorava o bicentenário de nascimento do poeta inconfidente Tomás Antônio Gonzaga.

O primeiro acervo foi doado pela Cúria Metropolitana de Mariana, na sequência, foram compradas peças do antigo Instituto Histórico e Geográfico de Ouro Preto e depois acrescentados os autos da devassa (processos) referentes aos réus eclesiásticos envolvidos na Conjuração Mineira. Outra grande aquisição foi o acervo musical de Lange. “Ao longo dos anos, estamos sempre enriquecendo este patrimônio”, destaca Mourão.

Há três anos, a Inconfidência Mineira ganhou finalmente um rosto – na verdade o único conhecido até hoje de um integrante do movimento. É do conjurado José Resende Costa (1728-1798), que viveu na Região dos Campos das Vertentes e morreu no degredo na Guiné-Bissau, África. A identificação dele, de Domingos Vidal de Barbosa Laje, morto aos 32 anos, e João Dias da Motta, aos 59, igualmente no degredo, se arrastava havia décadas. A pedido da direção do museu, pesquisas e reconstituição facial foram feitas na Faculdade de Odontologia da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) pela equipe do professor Eduardo Daruge.

No Panteão, no primeiro andar, os três têm sua lápide ao lado das de Alvarenga Peixoto, Tomás Antônio Gonzaga, João da Costa Rodrigues, Francisco Antônio de Oliveira Lopes, Salvador Carvalho do Amaral Gurgel, Vitoriano Gonçalves Veloso, Álvares Maciel, Francisco de Paula Freire de Andrada, Domingos de Abreu Vieira, Luiz Vaz de Toledo Piza, José Aires Gomes, Antônio de Oliveira Lopes e Vicente Oliveira da Mota.

Nacional
O presidente do Ibram, Angelo Oswaldo, explica que o Inconfidência é um dos cinco museus nacionais do Brasil – os outros são os de Belas Artes, Histórico Nacional e da República, no Rio de Janeiro, e Imperial, em Petrópolis (RJ) –, um reconhecimento pela ampla abrangência da instituição. “Os mineiros devem ter orgulho desse bem de importância especial e que já nasceu numa concepção moderna para a época. Guarda a história de Tiradentes, as partituras reunidas pelo musicólogo Curt Lange e muitas peças de Aleijadinho.” Angelo Oswaldo ressalta a revitalização em 2006 com novos projetos museológico e museográfico.

O Museu da Inconfidência foi o primeiro do país instalado fora da faixa litorânea, rompendo tradição que vinha dos tempos do reinado brasileiro de dom João VI. Para a técnica responsável pelo Arquivo Histórico do museu, Suely Perucci, trata-se de um espaço de memória e reflexão, com papel fundamental na interpretação da cultura e educação do homem, fortalecimento da cidadania e respeito à diversidade cultural. “A vocação e o dinamismo do museu, em sete décadas, evidenciam a missão de preservar, divulgar e manter acessível o seu acervo.”

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