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Brasília » "Doeu não enterrar meu filho", diz mãe adotiva acusada de matar criança À espera de um julgamento adiado cinco vezes, ela sofreu na cadeia injustamente, como se identificou apenas seis anos depois. Por supostos abusos cometidos por agentes da Polícia Civil do DF, ela confessou o crime que não cometeu sob pressão e humilhação

Adriana Bernardes - Correio Braziliense

Correio Braziliense

Publicação: 14/06/2014 09:46 Atualização:

Renata Malafaia investigou o crime por conta própria: inocência comprovada - Foto: Gustavo Moreno/CB/D.A Press ( Gustavo Moreno/CB/D.A Press)
Renata Malafaia investigou o crime por conta própria: inocência comprovada - Foto: Gustavo Moreno/CB/D.A Press
"Eu não pude enterrar meu filho e isso doeu demais. Sinto muita saudade. Meu objetivo era acabar com minha vida, com o meu sofrimento. Não imaginei que isso (o assassinato) pudesse acontecer. Queria estar lá para brigar por ele, para defendê-lo". Esse é um arrependimento que Juliana, 43 anos, carrega desde 2008, quando tomou veneno após uma discussão com ex-companheiro. Ao acordar, três dias depois, em um hospital, já estava presa, acusada de ter matado o filho adotivo de apenas seis anos. A partir de então, ela viveu um inferno. Confessou um crime que não havia cometido. Ficou presa três anos e três meses e, na última segunda-feira (9/06), finalmente recebeu o veredicto: inocente. Se encerrava ali, na sala do Tribunal do Júri de Brasília, o capítulo de uma história que ela jamais esquecerá.

A história dela foi contada ontem, pelo Correio. Livre das amarras da injustiça, Juliana finalmente conseguiu dormir em paz. Hoje, trabalha como cabeleireira, casou de novo e faz tratamento para engravidar. "Seu eu conseguir ter outro filho, e se o meu anjo aceitar, vou convidá-la para ser madrinha", diz. O "anjo" a que Juliana se refere é a delegada Renata Malafaia, atualmente lotada na 1ª Delegacia de Polícia (Asa Sul), a responsável pela reviravolta no processo a que ela respondia na Justiça. "Ainda não consegui falar com a doutora Renata. Quando acabou o julgamento, ela já tinha ido embora. Eu e minha família, a gente queria agradecer. Ela é um anjo que Deus colocou na minha vida. Sou capaz de falar que eu amo ela (sic). Não só eu, mas meu pai, minha mãe e minhas irmãs. A gente nunca vai esquecer ela (sic)", declara Juliana.

As histórias de Juliana e da delegada Renata se cruzaram por acaso, em 28 de março de 2011. A policial aguardava em uma sala para ser ouvida como testemunha de um inquérito. Lá ouviu o pai de Juliana chorando ao lado da outra filha e ouviu dele o drama da filha. Disse que Juliana estava esquecida fazia três anos no presídio.

A delegada se interessou pela história. Pediu cópia do processo e investigou o caso extra-oficialmente. Encontrou falhas no inquérito conduzido pela 8ª Delegacia de Polícia (SIA), na época chefiada por Deborah Menezes. Encaminhou um relatório para o juiz solicitando que ele concedesse a liberdade para Juliana, o que o magistrado poderia fazer de ofício, uma vez que juridicamente, ela não possuía legitimidade para representar pela soltura da ré. Ao analisar o documento, o juiz concordou em libertar a cabeleireira. Um novo inquérito foi aberto pela Corvida, onde Renata trabalhava na época. O caso se arrastou até a última segunda-feira, com um final feliz para a cabeleireira.

Humilhações

Ao conversar com o Correio no início da noite desta sexta-feira (13/6), Juliana demonstrava alívio e gratidão. Ela contou o que aconteceu há seis anos e que mudou para sempre sua vida. "Eu descobri que o homem com quem eu era casada estava me traindo. Quando ele chegou, brigamos. Tanto ele me xingava, como eu xingava ele. Ele saiu, foi quando vi meu filho brincando no quintal com outras crianças. Tomei o veneno e fui para o quarto. Sentei na cama tonta. Quando acordei, estava no hospital", disse. O filho adotivo de Juliana morreu após um traumatismo craniano, mas não se sabe como ele se machucou.

Juliana conta que, ao receber alta, foi levada para a delegacia vestindo apenas a camisola do hospital, sem roupas íntimas. Lá, teria ficado um dia inteiro algemada, no banco, sem comer. "Eles deixaram minha irmã entregar uma roupa. Me chamavam de assassina, vagabunda, mandavam eu confessar logo. Eu dizia que não tinha feito aquilo. Mas eles não me deixavam falar. Chegou uma hora que eu disse: olha, não vou dizer uma coisa que eu não fiz. Vocês escrevem nesse papel o que vocês quiserem que eu assino. Não aguentava mais aquela humilhação", relata.

Contra Juliana ainda pesava o depoimento do então companheiro, de que ela teria envenenado o menino e a ele. Com isso, ela acabou indiciada por homicídio qualificado, com pena entre 12 e 30 anos. No primeiro depoimento ao juiz — diferentemente de hoje, o réu era o primeiro a ser ouvido no processo —, ela foi orientada pelo primeiro defensor público que a assistiu a ficar em silêncio. Por isso não contu ao magistrado como havia sido as circunstâncias de sua confissão.

O promotor Bernardo Barbosa Matos foi o último a atuar no caso que ele classifica como "dramático". "Se tem algum herói nessa história não é o MP, nem o juiz e nem a defensoria pública. É a delegada Renata Malafaia", cita. Bernardo Barbosa diz não ter convicção para pedir a condenação de Juliana e também não conseguiu elementos para acusar o ex-companheiro dela morte do garoto. O homem atualmente cumpre pena na Bahia por homicídio.

O defensor público do Tribunal do Júri de Brasília, Carlos André Bindá Praxedes, que assumiu o caso de Juliana, disse, durante o júri, que buscou esclarecer que faltou apuração criteriosa, e a confissão foi forçada. "Agora, vamos entrar com uma ação civil buscando a reparação dos danos sofridos ao longo desses seis anos”, explicou Carlos André.

Por meio da Divisão de Comunicação da Polícia Civil (Divicom), a reportagem tentou falar com as delegadas Deborah Menezes e Renata Malafaia, mas o órgão informou que a corporação não comentaria o caso.

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