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Educação » Ciências sem Fronteiras: reclamações de alunos são registradas em diversos países Uma página foi criada por estudantes do programa para registrar a insatisfação dos participantes

Junia Oliveira -

Publicação: 08/06/2014 09:33 Atualização:

As controvérsias e problemas no Ciência sem Fronteiras estão na boca dos estudantes, estejam eles no exterior ou no Brasil. Vários desses relatos estão em uma página no Facebook, chamada Ciência com Fronteiras. Dificuldades financeiras enfrentadas pelos alunos do programa, atraso no pagamento de bolsas e até histórias de quem foi orientado a racionar comida são acompanhados diariamente por quase 10 mil seguidores.

Um dos criadores e administradores da página, Igor Patrick Silva, do 7º período de jornalismo da Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC Minas), afirma que a falta de pessoal para acompanhar os bolsistas é uma das principais falhas do programa. O estudante conheceu a estrutura do departamento da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) responsável pelo projeto. “São cinco técnicos apenas e cerca de 12 mil bolsistas. Então, seja problema de atraso de bolsa, acadêmico ou de saúde, é impossível gerir”, afirma.

Igor conta que confusões por causa da proficiência na língua estrangeira têm sido recorrentes. “O programa exige nota 5,5, mas não há universidade no exterior que aceite menos de 6 no Ielts (o teste de língua inglesa). Por isso, muitos ficaram no limbo, esperando alguma instituição aceitá-los”, afirma.

Na Inglaterra, uma aluna que informa ter ficado três meses sem receber a bolsa diz que dependia da ajuda do namorado. Em Portugal, um relato diz que a falta de pagamento da mensalidade por parte do governo brasileiro levou a universidade a cancelar a matrícula. No Canadá, há informações de que o atraso da bolsa durante um mês motivou a entidade parceira a orientar os alunos a racionar a comida. “É um programa muito bom, mas foi feito às pressas, para mostrar serviço. O fato de estudantes saírem do Brasil sem uma grade de estudos é prova disso”, diz Igor Patrick Silva.

Receber a bolsa-alimentação com atraso foi rotina com a qual a estudante Letícia Braga, de 22 anos, aluna do 6º período de design gráfico da Universidade Estadual de Minas Gerais (Uemg) teve de se acostumar durante os nove meses em que esteve na Irlanda. O valor de 300 euros cumpria uma verdadeira via-sacra antes de chegar aos estudantes. O dinheiro é repassado ao governo do país, que manda para a universidade, que, por sua vez, entrega aos estudantes.

Com tantas etapas burocráticas, o valor sempre chegava no mês seguinte. Por isso, a jovem precisou várias vezes pedir socorro aos pais. “Quem não podia contar com a ajuda de casa economizava ao máximo para garantir a alimentação. Não dá para saber de quem é a culpa, mas é uma burocracia que podia ser evitada.” Estudante do Instituto de Tecnologia de Isligo, ela relata que usou a estratégia de tentar entender os problemas e ter paciência. Mesmo assim, Letícia, que chega hoje ao Brasil, afirma que valeu a pena a experiência.

A estudante, no entanto, aponta falhas no Ciência sem Fronteiras e conta que são muitas as notícias de problemas com bolsistas. “As dificuldades vão desde os problemas com testes de proficiência em idiomas até o comportamento dos alunos mesmo. Tem ocorrido relatos de muitos estudantes não se matricularem em todas as matérias que deveriam, porque não há fiscalização da Capes. Tem pouco técnico para acompanhar isso, então, o processo não é rigoroso”, diz.

No início do programa, os alunos fazem um plano de estudos, que deve ser apresentado à Capes e cumprido. “Isso deveria ser acompanhado e orientado, mas não é. Às vezes não tem matéria suficiente para estudar ou o aluno já a cursou no Brasil, e tem ainda quem simplesmente não cumpre o curso”, relata.

JUSTIÇA
Os criadores da página Ciências com Fronteiras fazem parte de um grupo de estudantes que entrou na Justiça para ter direito a uma vaga no programa, depois que o Ministério da Educação cortou cursos na área de ciências humanas, fisioterapia e psicologia, em novembro de 2012. Foram 80 ações individuais. Cinco estudantes já conseguiram o direito de embarcar para a Inglaterra. Outros conseguiram liminar em primeira instância, mas a medida foi derrubada na segunda. No caso de Igor, a decisão definitiva virá tarde demais, já que no último período ele perde o direito ao programa, por ter cumprido mais de 90% da carga horária do curso.

As mudanças de regras motivaram também ações de 300 bolsistas no ano passado, quando o MEC incorporou a nota mínima de 600 pontos no Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) como pré-requisito para participar do intercâmbio. Em Minas, pelo menos 30 universitários conseguiram liminar.

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