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Copa » De São Lourenço (PE) a Porto Alegre (RS), Brasil se divide entre a esperança e a frustração

Agência O Globo

Publicação: 28/05/2014 08:09 Atualização: 28/05/2014 08:22

A duas semanas da Copa do Mundo, os brasileiros que vivem ou trabalham perto dos estádios se dividem entre aqueles que enxergam o Mundial como um poço de oportunidades e os que já se frustraram com a disputa.

O entorno do Maracanã, no Rio de Janeiro, é prova disso. A poucos metros dele, fica a favela Metrô-Mangueira, comunidade entulhada de sujeira. Enquanto passeia em meio ao lixo, o motorista Luciano Teixeira, de 41 anos, fala de sua frustração com o Mundial: "a gente se sente humilhado, morando a 300 metros do Maracanã sem poder ver o jogo e ainda nesta situação. Querem deixar bonito os arredores do Maracanã, mas aqui, nada. A Copa está aí, e nós estamos aqui, às baratas".

Segundo a prefeitura, no entanto, a Comlurb vai retirar o lixo da comunidade nos próximos dias. Entulhos de obra ficarão por conta da Secretaria de Conservação.

Bem perto da favela Metrô-Mangueira, fica a área de prostituição da Vila Mimosa. Lá, comerciantes preparam eventos para maximizar o lucro em dias de jogos. Na mesma linha vão os vendedores de comida e bebida da Praça da Bandeira. Francine Rocha, por exemplo, parece já ter pensado em tudo: "se estiver frio, vou atacar de caldos e sopas. Se não, é cerveja e porção de fritas, churrasquinho e linguiça".

Cartão postal de Belo Horizonte, a Lagoa da Pampulha, vizinha ao Estádio do Mineirão, poderia ter sido totalmente despoluída, mas o trabalho não será concluído antes do Mundial. Mesmo assim há quem enxergue com bons olhos os esforços feitos: "a Lagoa não está totalmente revitalizada, mas também não está poluída como antes. A orla está mais bonita, e houve uma melhora muito significativa - defendeu o piloto e frequentador do local Geraldo Pereira".

Com um investimento de R$ 108 milhões, a obra da lagoa só deve acabar no fim deste ano.

Para o administrador de imóveis Willian Freitas, o Mundial também será motivo de festa. Na segunda-feira, ele ainda tinha datas disponíveis para alugar - por R$ 20 mil por dia - um salão de festas perto do Mineirão. De acordo com Freitas, apesar das restrições da FIFA com relação a patrocinadores, bons negócios estavam surgindo no horizonte.

Na capital gaúcha, os dois lados da Copa coexistem. Enquanto a população lamenta o atraso da duplicação da Avenida Tronco, considerado o projeto mais ambicioso da Copa, há quem já conseguiu embolsar em cinco dias o equivalente à renda mensal.

Orçada em R$ 136,5 milhões, a melhoria da Avenida Tronco liberaria o trânsito nas imediações do Estádio Beira-Rio, mas está parada há mais de um ano, mesmo tendo provocado a remoção de 1.525 famílias. Luciano Cardoso, diretor da Associação de Moradores e Amigos da Vila Tronco, integra o grupo dos que se frustraram com a Copa do Mundo."A obra acabou com a urbanização da região, que não era boa. Faltou planejamento e boa vontade da prefeitura", diz ele.

Há duas semanas, uma jovem grávida foi atropelada e morreu ao tentar atravessar a via. Houve protesto de moradores. Pressionado, o prefeito José Fortunati (PDT) retirou a obra da matriz da Copa e admite que não há mais um prazo estabelecido para sua conclusão. O secretário de Gestão, Urbano Schmitt, acrescenta que não tem como estabelecer um prazo para conclusão.

Por outro lado, o Mundial encherá os bolsos da aposentada Lourdes Machado, de 56 anos. Ela alugara para quatro argentinas um dos quartos de seu apartamento em Porto Alegre. Serão R$ 850 por dia. Pela temporada, R$ 4.250 - mais do que sua aposentadoria mensal."Vou ficar com meu marido nas dependências de empregada, que é confortável. Além da renda extra, será divertido".

São Lourenço
O clima em São Lourenço da Mata, que fica a cinco minutos de carro da Arena Pernambuco, é menos ameno. No povoado, situado às margens da BR-408, ainda há casas de taipa, não há saneamento nem coleta de lixo. Para ter água, os moradores precisam recorrer a poços. Para ter luz, acendem velas. "(A Copa) é uma coisa muito bonita, mas tem tanto para poucos, e pouco para tantos, não é? Quantos milhões botaram ali?" indaga o trabalhador rural João José da Silva, de 41 anos e seis filhos, com os olhos marejados.

Batizada de "Copa do Povo", a ocupação de um terreno a poucos quilômetros da Arena Corinthians, em São Paulo, mostra um mar composto por quatro mil barracos pretos, amarelos e azuis. Todos estão ligados ao Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST) e esperam que o governo os coloque em algum programa habitacional. Maria das Dores Cerqueira, uma das coordenadoras da ocupação, conta que grande parte das famílias foi empurrada para lá pelos preços dos alugueis, que explodiram com a Copa."A maioria das famílias é da região do estádio. O aluguel de uma casa de dois cômodos, que custava R$ 300, foi para R$ 700. Uma de três cômodos pulou de R$ 350 para R$ 900", afirmou.

Por outro lado, nos condomínios populares da região, muitos moradores esperam alugar seus apartamentos por até R$ 60 mil. O segurança Roberto José da Silva pede R$ 20 mil, mas ainda não encontrou interessados. Mesmo assim, se diz um privilegiado. "Quando compramos o apartamento pela Caixa, ele valia R$ 35 mil. Agora, vale mais de R$ 180 mil. Assim que se cogitou construir o estádio, o preço subiu para R$ 70 mil. Eu não ganhei na Mega-Sena, mas ganhei na Quina (com a Copa)".

Esta matéria tem: (1) comentários

Autor: cezar silva
O pior legado que essa copa deixa é a especulação imobiliária! | Denuncie |

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