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Abolição da escravidão » Um príncipe popular Bisneto da princesa Isabel, d. João Henrique de Orléans e Bragança, 60 anos, anda pelas ruas de Paraty como qualquer plebeu

Tércio Amaral

Publicação: 11/05/2014 09:00 Atualização: 12/05/2014 09:19

D. João Henrique parado por estudantes para tirar fotografias nas ruas de Paraty. Foto: Arquivo Pessoal/Divulgacao
D. João Henrique parado por estudantes para tirar fotografias nas ruas de Paraty. Foto: Arquivo Pessoal/Divulgacao

Pelas ruas de Paraty, no litoral Sul do Rio de Janeiro, ele anda de sandálias e veste simples bermudas. A discrição, no entanto, termina quando alguns turistas o reconhece para cumprimentá-lo ou mesmo tirar algumas fotos como registro do encontro em frente à sua casa. A vida de d. João Henrique de Orléans e Bragança, de 60 anos, é simples e lembra a de qualquer plebeu. Bisneto da princesa Isabel (1846-1921), filha do imperador d. Pedro II, que assinou a lei aboliu a escravidão no dia 13 de maio de 1888, data que completa 123 nesta semana, ele celebra a Lei Áurea de “forma diferente” dos historiadores e do cidadão comum. Apesar da distância do tempo, ele e alguns dos seus primos convivem com lembranças repassadas de geração a geração e ainda desfrutam da “popularidade” da ancestral nos dias de hoje.

“Meu pai uma vez saiu de casa e não tinha dinheiro para pagar o pedágio da Via Dutra (rodovia que liga as cidades Rio de Janeiro e São Paulo), ele levou apenas o talão de cheques, que não era aceito. Um trabalhador da concessionária liberou a passagem, mas pediu o cheque e disse que iria colocar numa moldura em casa”, disse ao Diario, por telefone, d. João. O fato aconteceu em 1994 com o príncipe d. João Maria (1916-2005), neto da princesa Isabel, que nasceu no exílio. “Essas datas, como a Abolição, o 7 de Setembro (Independência do Brasil), a redemocratização e as Diretas Já são comemoradas com muito respeito em casa”, completou.

D. João revela que as lembranças da princesa Isabel também são objetos pessoais. “No meu apartamento no bairro do Leblon (área nobre do Rio de Janeiro), eu vejo o antigo Quilombo das Camélias, onde a princesa ajudava negros fugidos”. Nesta mesma casa, existe uma raridade de valor histórico incalculável, como a mesa em que a princesa Isabel assinou a Lei Áurea. “Nela está cravado 13 de maio de 1888”. Um dos seus objetivos é reunir parte de seu acervo pessoal e fundar um museu imperial na cidade de Paraty.

De Portugal, seu primo d. Duarte de Orléans e Bragança, de 69 anos, conta que deixou de pagar multas no Brasil por conta do parentesco com a princesa Isabel. Assim como d. João, ele também é bisneto, mas é herdeiro do trono português. Sua mãe, a princesa dona Francisca (1914-1968), era neta da princesa Isabel. Ele relata que cometeu uma infração durante uma viagem à chapada Diamantina, em Minas Gerais, mas o guarda afrodescendente viu seu nome no passaporte e a história teve um contorno diferente.

“Quando viu o meu nome no passaporte perguntou se eu era da família da princesa Isabel. Perante a minha resposta positiva ele disse: ‘Nunca fiz nada para agradecer à Princesa Isabel o que ela fez por mim! Não passo multa, mas o Senhor vem comigo ao posto da polícia para eu o apresentar ao pessoal”, disse por e-mail. “É muito frequente brasileiros serem particularmente calorosos comigo quando descobrem que eu descendo da princesa Isabel, que consideram uma verdadeira Santa”.


Polêmica com o movimento abolicionista


Especialista em relações raciais e preconceito, a professora do curso de ciências sociais da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) Liana Lewis diz que as datas comemorativas são importantes, mas não suficientes. No caso do 13 de maio, ela defende que a leitura seja feita de forma crítica, incluindo, o movimento abolicionista, que teve lideranças como o então deputado pernambucano Joaquim Nabuco (1849-1910). “Ele teve, em seu cerne, uma elite branca que buscava uma passagem para a modernidade, o que implicava na erradicação do trabalho escravo, no entanto sem que esta erradicação resultasse em nenhuma perda para a elite agrária.”

A pesquisadora também relaciona a temática ao mito da “democracia racial”, consolidado na década de 1930 pelo sociólogo pernambucano Gilberto Freyre (1900-1987). “O que comumente se afirma é que, no Brasil, o preconceito não é de raça, e sim, social. Um preconceito histórico que seria resolvido com a erradicação da pobreza. O nosso preconceito é, sim, racial e a política de cotas incomoda porque existe uma resistência em admitir negros em posição de poder. As cotas vieram para ajudar a mudar o perverso quadro racial no Brasil”, polemiza.

Sobre a figura da princesa Isabel, a professora também faz algumas ressalvas. “A princesa tem um papel meramente formal, representa a vitória da elite, uma mulher branca que libertou a população escrava”, declarou. A afirmação, no entanto, é diferente da dos descendentes. D. João Henrique argumenta, por exemplo, que a princesa falava abertamente sobre o abolição, o que incomodava a elite agrária conservadora. “Havia um projeto chamado da democracia rural, do engenheiro negro André de Rebouças (1838-1898), muito ligado a princesa e ao imperador d. Pedro II (1825-1891). Este projeto falava da distribuição de terra após a abolição. Isso era, nas palavras de hoje, a reforma agrária, mas veio a república…”.

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