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Prova » Intelectual Popozuda; especialistas comentam prova polêmica sobre funkeira O exame chegou à internet e aqueceu o debate sobre o ensino. Estudantes defendem o professor que elaborou a pergunta

Correio Braziliense

Publicação: 08/04/2014 11:09 Atualização:

Foto: Luís Xavier de França/CB/D.A Pres
Foto: Luís Xavier de França/CB/D.A Pres

Uma prova de filosofia aplicada a alunos do Centro de Ensino Médio 3 de Taguatinga trouxe uma questão polêmica. No teste, a funkeira Valesca Popozuda é considerada “grande pensadora contemporânea”. As opções de resposta estão relacionadas a músicas e bordões da cantora. A diretoria da escola admitiu que o texto foi elaborado por um dos professores. A imagem da questão foi reproduzida em páginas na internet e em redes sociais, onde foi duramente criticada.

“Tenho que admitir que, infelizmente, essa questão é de uma prova daqui. Estou boquiaberto”, disse José Bonfim, funcionário de apoio à direção do CEM 3 de Taguatinga. A princípio, ele havia dito que “era muito improvável” que esse item tivesse sido aplicado no colégio, mas, depois de conversar com colegas, confirmou a informação. José Bonfim preferiu não informar o nome do professor de filosofia que elaborou a prova. O educador dá aulas para turmas de 2ª e 3ª séries do ensino médio no período da manhã e não estava no Centro de Ensino Médio na tarde desta segunda-feira (7).

Pergunta da prova de filosofia divulgada pela internet. Foto: reprodução/Internet
Pergunta da prova de filosofia divulgada pela internet. Foto: reprodução/Internet


Débora Diniz, antropóloga e professora da Universidade de Brasília (UnB), tem duas hipóteses para a formulação sobre a funkeira. “Isso só faz sentido como ironia que faça parte de algum jogo de humor no contexto da turma. Ele pode estar dando aula sobre cultura popular e essa pergunta pode fazer parte de um diálogo com o conteúdo. Caso não seja uma ironia, temos um problema, e eu gostaria de perguntar ao professor o porquê de classificá-la como pensadora”, disse. Segundo a professora, Valesca Popozuda não pode ser enquadrada no título dado na questão.

“Valesca pode ter muitos atributos e méritos em música, é um fenômeno pop contemporâneo e tem seu espaço, mas, definitivamente, não é pensadora. Há muitas outras mulheres que são, de fato, pensadoras contemporâneas que mereciam ter perguntas sobre o que elas dizem caindo em provas”, compara. Quando questionada sobre um exemplo de pensadora contemporânea, Débora Diniz citou Lourdes Bandeira, vice-ministra da Secretaria de Políticas para as Mulheres e pós-doutora em sociologia. “Essa, sim, é uma mulher envolvida na política brasileira, com boas ideias, que formou uma geração de estudantes.”

Grande parte dos internautas que comentou sobre a publicação considerou a questão inadequada. Em um dos comentários, um aluno que fez a avaliação disse acreditar que o professor elaborou o item por brincadeira, mas afirmou não concordar que esse tipo de conteúdo faça parte de uma avaliação escolar. No entanto, um grupo de estudantes saiu em defesa do docente. Muitos comentaram que foi uma forma de descontração e de tornar o clima de aplicação da prova menos tenso e que, além disso, o resto do teste estava de acordo com o assunto visto em sala de aula e que os alunos teriam sido orientados a estudar o conteúdo do livro didático antes de fazer a avaliação.

A postagem em uma página do Facebook chegou a atribuir equivocadamente a questão a uma prova do Sistema de Avaliação da Educação do Estado do Rio de Janeiro (Saerj). A Secretaria de Estado de Educação (Seeduc), no entanto, esclareceu que a questão não está presente nem na avaliação do Saerj nem na do Saerjinho. Vários internautas, inclusive, postaram mensagens dizendo que haviam feito o teste e que não viram essa questão, por isso, levantaram dúvidas sobre a veracidade da informação. A maioria, porém, postou comentários depreciativos e questionamentos sobre o ensino público no país.


Palavra de especialista

Artista é uma contestadora
“Quando a classificamos Valesca Popozuda como grande pensadora contemporênea, a rotulamos como alguém que, de fato, tem pensamentos sistematizados dentro dos princípios filosóficos ou científicos. A Valesca pode ser, sim, uma contestadora, visto que canta funk, e o funk é uma música de contestação, mas, daí, classificá-la como grande pensadora contemporânea é equivocado. Uma coisa é você respeitar o funk como manifestação cultural, que pode ser trazida para a escola como forma de reflexão e de aproximação com o mundo que os estudantes vivem. Outra coisa é valorizar isso como cultura da escola, porque esse é o espaço em que se acolhem todas as formas de manifestação. Mas é também o lugar da norma culta, da cultura erudita, porque a escola tem o dever de garantir a todos os alunos o direito de conhecer tudo o que existe. Ficar naquela coisa rasa, de trazer apenas o que faz parte da vida dos estudantes, não é função da escola. Se a pergunta fosse do ponto de vista da postura dela (Valesca), da contestação que ela traz, seria mais legal. Do jeito que está formulada, ficou sem sentido.”

Francisca Paris, pedagoga e mestre em educação

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