• (1) Comentários
  • Votação:
  • Compartilhe:

Na hora do parto » Um trauma que não se apaga É cada vez mais comum as mulheres brasileiras sofrerem de violência obstétrica

Maira Baracho - Diario de Pernambuco

Publicação: 06/04/2014 09:53 Atualização: 06/04/2014 12:27

Designer Ana Renata Coelho guarda na memória os momentos de horror. Foto:Alcione Ferreira/DP/D.A.Press
Designer Ana Renata Coelho guarda na memória os momentos de horror. Foto:Alcione Ferreira/DP/D.A.Press
Pare de gritar, senão você vai ser a última”. A frase, dita por uma enfermeira, foi repetida várias vezes durante o trabalho de parto da babá Priscila Maria da Conceição, 32 anos. A ameaça foi apenas uma das violências sofridas por ela, há dez anos, no Hospital Agamenon Magalhães, no Recife, quando dava a luz à sua primeira filha, aos oito meses de gestação. As agressões se transformaram em dolorosas lembranças que ecoam até hoje na memória de Priscila. Ela não está sozinha e os números são alarmantes: uma em cada quatro brasileiras sofrem algum tipo de violência obstétrica no país.


No último dia 31 de março, no Rio Grande do Norte, Adelir Carmen de Goés,29 anos, foi ao hospital da cidade de Torres para ser examinada. Com 42 semanas de gestação, acompanhada por uma doula e decidida a ter um parto domiciliar, a jovem descartou a hipótese de cesariana sugerida pelo hospital e voltou para casa após assinar um termo de responsabilidade. Já em casa, com contrações a cada cinco minutos, Adelir foi surpreendida pela visita de um oficial de justiça e policiais: o hospital havia entrado na justiça para obrigá-la a fazer uma cesariana. E assim foi feito. Humilhada e diminuída em um momento particular, Adelir teve seu direito negado, assim como tantas brasileiras.

 

Pressão psicológica, ameaças, gritos, coações, agressões físicas e sexuais são algumas das formas de violência sofrida por mulheres de todas as idades e classes sociais no parto e pós-parto e em hospitais públicos e particulares de todo o país. As sequelas podem ser visíveis ou não, mas ficam, de alguma forma, na memória delas. Estima-se que 70% a 80% das brasileiras são submetidas a uma cesariana, mesmo desejando um parto normal. Muitas são desestimuladas e amedrontadas por seus médicos. Em 94% dos partos normais realizados no país as gestantes sofrem episiotomia: um corte vaginal. Na maioria dos casos, elas não autorizaram a intervenção.

Priscila também foi submetida ao corte sem tê-lo autorizado. Além de uma cicratriz incômoda, a intervenção desnecessária deixou traumas na vida da babá. Nua contra sua vontade e observada por diversos estagiários, Priscila ouviu a equipe reclamar que ela não havia se depilado, enquanto realizavam a episiotomia, para ela, uma mutilação. “Eu não precisava do corte, minha filha era prematura, pequena, não tinham que ter feito. Eu fiquei tão constrangida que durante a cicatrização, mesmo com o corte inflamado e um mau cheiro que me deixou ainda mais envergonhada, não voltei lá depois. Fiquei com medo daquela equipe”, lembra.

Mesmo depois do parto, mulheres no país inteiro continuam sendo humilhadas e têm seus direitos mais básicos negados no pós-parto. Foi o caso da designer Ana Renata Coelho, 40 anos, que deu a luz em 2012, no Imip. Nos dois dias em que ficou no hospital depois da cesariana, a designer viu e viveu na pele situações que, para ela, são difíceis de falar até hoje. “Fiquei dois dias com a mesma bata, suja, porque não tinham uma limpa para me dar”, lembra. “Colocaram uma paciente que tinha acabado de sofrer um aborto no mesmo quarto que eu e mais umas três mulheres. Ela nos via com nossos filhos e tentávamos consolá-la. Outra estava há horas sem notícias do bebê que tinha acabado de parir. Foram vários sentimentos misturados. Indignação, impotência, fragilidade, desrespeito. Nos trataram como coisas”.

 

Evento no Recife discuste problema

 

Atento ao panorama dramático da assistência às mães durante o parto no Brasil e preocupado com o desrespeito corriqueiro vivido pelas gestantes, o grupo de pesquisa da Universidade Federal de Pernambuco, Narrativas do Nascer, em sintonia com a Semana Nacional de Humanização (HumanizaSUS) do Ministério da Saúde, articula seis dias de palestras, debates e trocas de informação no Recife. A Jornada de Enfrentamento da Violência Obstétrica começa amanhã e vai reunir profissionais, pesquisadores, estudantes e público em geral para discutir a construção de uma nova realidade no estado.

Marília: assunto em pauta
Foto:Alcione Ferreira/DP/D.A.Press
Marília: assunto em pauta Foto:Alcione Ferreira/DP/D.A.Press

Pesquisadora do Narrativas do Nascer e uma das organizadoras das atividades, a pesquisadora Marília Pinheiro, 23 anos, acredita que há uma complexidade no cenário da violência obstétrica, com profissionais despreparados, mães sem acesso à informação e estado omisso. “Vivemos um cenário onde os profissionais são muito habilidosos com o manuseio do bisturi e no entanto não são tão bem preparados para compreender, acompanhar, e só num caso de real necessidade de intervenção colocarem, literalmente, suas mãos no processo fisiológico do parir e nascer”, explica.

Pinheiro entende ainda que ao passar por partos insatisfatórios e traumáticos, as mulheres não relacionam ao atendimento violento que receberam, o que revela uma necessidade ainda maior de trazer o debate à tona e exige do estado uma postura diante deste cenário.

“Torna-se urgente que a violência obstétrica seja reconhecida pelo Judiciário, e que se crie a jurisprudência necessária. Pois quando a violência obstétrica estiver legalmente tipificada e existir uma lei efetiva, como na Argentina ou Venezuela, aí sim será possível apontar responsáveis, inclusive o Estado, por não oferecer a seguridade ao corpo da mulher que gesta, pare”, comenta.

Sobre o evento que vai acontecer no Recife a partir de amanhã, no qual toda a complexidade do tema será debatida, a pesquisadora reafirma a importância de agregar mulheres, estado e academia nas discussões. 

Esta matéria tem: (1) comentários

Autor: ana lira
Evento com esse deve ter maior divulgação, ou ser realizado em todas as geres de Pernambuco. | Denuncie |

Comentar

Para comentar essa notícia entre com seu e-mail e senha

Caso você não tenha cadastro,
Clique aqui e faça seu cadastro gratuito.
Esqueci minha senha »



Os comentários abaixo não representam a opinião do jornal Diario de Pernambuco; a responsabilidade é do autor da mensagem.