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Distância » Detentas recolhidas em unidades longe de casa perdem vínculos com parentes Na terceira reportagem sobre o universo feminino na prisão, o EM problema causado pela distância. Entre as causas do afastamento está a falta de condições financeiras dos parentes, que não têm condições de visitá-las

Luiz Ribeiro

Publicação: 18/03/2014 07:40 Atualização:

Luciene Guimarães e os livros de química e biologia: sonho de se tornar oncologista para ajudar crianças. Foto: Luiz Ribeiro
 (Luiz Ribeiro)
Luciene Guimarães e os livros de química e biologia: sonho de se tornar oncologista para ajudar crianças. Foto: Luiz Ribeiro

Enfrentar a dura rotina da prisão, a saudade, a solidão e o abandono é apenas parte da pena cumprida por detentas espalhadas pelos presídios do interior de Minas. Para muitas, levadas para unidades longe de sua cidade natal, a distância é mais um muro que se ergue entre elas e filhos, maridos, parentes e amigos trancados do lado de fora. A falta de recursos das famílias para o deslocamento que as visitas exigem as condena a um cotidiano ainda mais solitário. Muitas já deixaram de esperar reconhecer um rosto entre os visitantes dos domingos; outras dizem entender a dificuldade dos familiares; todas sofrem com o isolamento imposto pelo crime pelo qual foram condenadas, ainda que muitas jurem inocência.

Na prisão, receber visita, além de matar a saudade, significa uma chance de contato com o mundo exterior. Uma oportunidade negada a muitas das internas de unidades como o Presídio do Bairro Alvorada, em Montes Claros, cuja ala feminina conta com 56 presas, a maioria (80%) envolvida com o tráfico de drogas. A unidade recebe mulheres de diversas partes do Norte de Minas, diante da falta de unidades femininas em outras cidades da região. Atualmente, 13 delas têm esse perfil. Entre todas, 98% são mães, mas menos de 5% preservam relacionamentos fixos. Somente três recebem visitas íntimas.

O dia de visitação é diferenciado na cadeia. Nele, as detentas acordam cedo, tomam banho e cuidam bem do visual, na expectativa de um abraço, um alimento diferente do cardápio da cadeia ou coisas simples para quem está do lado de fora, como produtos de higiene pessoal. Mas, no caso de internas como Cláudia de Jesus, condenada por envolvimento em latrocínio (roubo seguido de morte), domingo é data como outra data qualquer. Desde que chegou ao presídio de Montes Claros, há cinco meses, ela nunca recebeu ninguém. Quase um semestre sem contato com os três filhos, de 13, 14 e 16 anos. “No início, a gente estranha, mas acaba aceitando. Tenho que sair daqui com a cabeça erguida e não voltar mais para o mundo do crime”, afirma ela, cuja família é de Janaúba, a 130 quilômetros de Montes Claros.

Ex-garota de programa, ela cumpre condenação de 20 anos em regime fechado. Inicialmente, ficou presa seis anos nas cadeias de Itabira (onde o crime foi cometido) e de Rio Piracicaba, no Vale do Aço. Nessa última, conta, recebeu a visita da mãe uma única vez. “Vim para cá exatamente para ficar mais perto da minha família”, diz a mulher, que garante ter sido “envolvida no crime”, de forma alheia à sua vontade. “O problema foi que entrei em um carro com um cara que chamou a gente para tomar cerveja. O dono do carro tinha sido morto momentos antes”, afirma. Em Montes Claros, o único consolo é a permissão para, uma vez por mês, telefonar para um parente, com acompanhamento do Serviço de Assistência Social. “Fico muito feliz de pelo menos ouvir a voz de alguém da família.”

Acorrentadas

Desde domingo o Estado de Minas publica a série “Elas na cadeia”, que retrata o drama de mulheres que cumprem pena nos presídios de Minas. A primeira reportagem traçou o perfil das detentas , seus medos, culpas e solidão que não aparecem nas sentenças, além do abandono dos companheiros e até dos pais. Ontem, o EM registrou a dor das mães que o crime separou dos filhos e das que têm de criá-los atrás das grades, submetidos a uma pena para a qual não foram condenados.

Abandono

O O abandono sofrido pelas presas está ligado à própria condição feminina na sociedade, que ainda atribui à mulher a função de cuidar do lar. A opinião é do sociólogo Vinicius Couto, do Centro de Estudos de Criminalidade e Segurança Pública da UFMG. “A mulher é o eixo da família, vista como quem tem obrigação de ficar em casa, enquanto o homem é ‘feito’ para a rua, para o mundo. Então, quando ela é presa, para o marido é mais fácil livrar-se do elo familiar e procurar outra relação”, afirma.

Da cela para a medicina

Luciene Guimarães tem 23 anos. Maior que a idade é sua pena: 26 anos de reclusão por coautoria em um latrocínio. No presídio de Montes Claros, é outra a sofrer com a falta de visitas dos familiares, que moram em Brasília de Minas, a 100 quilômetros de distância. Em quase quatro anos, foram raras as vezes que recebeu alguém. “No dia da visita, quando a agente (penitenciária) chega e anuncia que alguém veio me ver, fico até surpresa”, confessa. Luciene só recebe visitas de uma irmã, mas faz mais de dois meses que ela não aparece. “Antes, eu sempre esperava alguém. Agora não espero mais”, afirma a mulher, que reconhece as dificuldades da família.

A saudade maior é do único filho, Plínio, de 7 anos, que mora com a avó. Desde que foi detida, só o viu uma vez. A dor de mãe, Luciene procura compensar dedicando-se aos estudos. Tenta usá-los para retomar a cidadania e um sonho de criança: quer ser médica. Não qualquer médica: oncologista. Quer salvar crianças, como o irmão de 5 anos, que viu morrer vítima de leucemia. Quando foi presa, tinha parado de estudar na sexta série. Na cadeia concluiu o supletivo do ensino fundamental e conseguiu o diploma do ensino médio. Agora, além de trabalhar na oficina de artesanato, dedica maior tempo à leitura de livros de biologia e química. “O sonho de fazer medicina eu tinha desde criança e achei que tinha morrido, mas, na verdade, estava apenas adormecido.” Pelos cálculos dela, em quatro anos, com a progressão de pena, deve passar para o regime semiaberto e poderá deixar a cadeia para estudar.

A detenta que sonha ser médica tem consciência de que vai enfrentar preconceito, mas garante que está pronta. “Sei que algumas pessoas poderão virar as costas para mim, mas isso não vai fazer diferença. Acredito que serei capaz de driblar o preconceito. Não vou entrar numa universidade para sair matando as pessoas. Quero realmente o melhor para a minha família, especialmente para o meu filho.”

Unidas no sofrimento

Apesar da solidão experimentada pelas detentas que cumprem pena no interior, estar perto de parentes pode não ser exatamente um consolo. Que o diga Sheila Rodrigues, de 23 anos. Desde que chegou ao Presídio do Alvorada, em Montes Claros, ela tem contato apenas com uma pessoa da família: a mãe, Cícera, de 58. Mas isso não ocorre no momento de visita: mãe e filha estão presas por tráfico e dividem a cela. Elas são de Várzea da Palma, a 210 quilômetros de Montes Claros.

Sheila foi presa em 26 de dezembro de 2012. Quarenta e dois dias depois, foi transferida para Montes Claros, diante da falta de unidade feminina em sua cidade. Foi condenada a nove anos e seis meses de reclusão. De acordo com a polícia, a filha assumiu no tráfico o posto da mãe, que havia sido presa dois anos antes. Ela, porém, nega a venda de entorpecentes. Alega que quem traficava era o ex-marido, que a abandonou depois que foi levada para a prisão.

Assim como as demais detentas de outros municípios, Sheila reclama que, em mais de um ano na prisão de Montes Claros, além de não receber visitas, sofre com a distância dos quatro filhos, que ficaram com parentes em sua cidade. A dor maior é a saudade do caçula, Yago. Ela conta que quando foi presa, amamentava a criança, então com 4 meses. “Tive que parar de amamentar. Ele ficou com minha sogra. Depois que vim pra cá, só recebi fotos do meu filho uma vez”, diz a detenta. Dele, agora pouco sabe: “Só sei que está com 1 ano e alguma coisa”, afirma.

Sheila disse que seu atual companheiro, Tiago, pai de Yago, que trabalha como vigilante em Várzea da Palma, ainda não a visitou em Montes Claros. Mas ela relata que, uma vez, por mês, fala com ele pelo telefone, em ligações limitadas a 10 minutos. Contatos também são mantidos por carta. Apesar da falta de visitas, a mulher assegura que o companheiro nunca deixou de apoiá-la. “Ele sempre manda cartas, dizendo que acredita em mim. Pede para eu mudar de vida e diz que vai me ajudar a ser outra pessoa, a não mais mexer com esse ‘trem’ (a droga)”.

Além de dividirem a cela, mãe e filha freqüentam aulas da alfabetização de adultos na prisão. Atualmente, estão na quarta série do ensino fundamental. Também trabalham em uma oficina de artesanato. Cícera, a mãe, foi presa em 15 de julho de 2010 por vender drogas na casa simples da família, em Várzea da Palma. Alega que entrou no mundo do tráfico por pobreza e necessidade. Condenada a oito anos e dois meses de prisão, foi transferida para Montes Claros em dezembro de 2011. Sem visitas, ficou mais de um ano sem ver ninguém da família. Até que a filha chegou para também cumprir pena, em fevereiro do ano passado.

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