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Justiça » Testemunha relata tortura de Amarildo Pela primeira vez mulher de pedreiro encontra PMs que o mataram. Soldado diz ter ouvido "gritos enlouquecedores"

Estado de Minas

Publicação: 13/03/2014 12:17 Atualização:

Acompanhada do advogado, a doméstica Elizabete Gomes da Silva, de 48 anos, mulher do ajudante de pedreiro Amarildo de Souza, de 43 anos, chegou ao Fórum do Rio na tarde de ontem para a segunda audiência de instrução e julgamento dos 25 PMs acusados de envolvimento no sumiço e morte presumida do marido. E pela primeira vez ficou frente a frente com os policiais militares acusados de terem torturado Amarildo. Emocionada, Elizabete voltou a clamar pelo corpo do marido, que teve a morte declarada pela Justiça no mês passado.

“A família não vai desistir. Eu quero que pelo menos os policiais que torturaram o meu marido, que era trabalhador, falem o que fizeram com os restos mortais dele, porque quero fazer um enterro digno”, disse Bete Gomes, ao chegar ao fórum. A primeira sessão aconteceu no último dia 20, quando foram ouvidas três das 20 testemunhas de acusação. Também foram arroladas 20 testemunhas pela defesa dos militares. Dos 25 réus, todos PMs, 13 estão presos e respondem por tortura mediante sequestro com resultado morte e ocultação de cadáver do ajudante de pedreiro. Doze são acusados de omissão e formação de quadrilha, mas respondem em liberdade

Primeiro a ser ouvido na tarde de ontem, o ex-tesoureiro da Unidade de Polícia Pacificadora (UPP) da Rocinha Alan Jardim contou que ouviu “gritos enlouquecedores” nos arredores da sede da UPP, na noite que Amarildo sumiu, em 14 de julho do ano passado. “Eram gritos terríveis, enlouquecedores. Isso durou 40 minutos”, disse o soldado. Segundo ele, a pessoa supostamente torturada dizia o tempo todo que não falaria, não responderia a perguntas. Ele afirmou que ouviu “barulhos de água como se tivesse acordando a pessoa”. Em seguida, ouviu várias pessoas falando ao mesmo tempo. Depois, silêncio, e, na sequência, “várias pessoas gritando deu m..., deu m...”. Depois disso, ele recorda que recebeu ordem para pegar a capa de uma moto e que ouviu barulho de fita crepe desenrolando.

Jardim disse ainda que, antes de ir embora, viu cinco pessoas se dirigindo para a mata, mas que não viu em nenhum momento o ajudante de pedreiro. Afirmou também que viu o major Edson Santos, comandante da UPP na época, se dirigindo à base da unidade. Ele lembrou que ouviu os gritos após ter recebido ordem para mudar de contêiner e realizar trabalhos apenas internos, sem sair do local. No dia seguinte do sumiço de Amarildo, foi buscar informações sobre a capa da moto, já que respondia pelo administrativo da UPP.

Gotas de sangue
O soldado diz que recebeu ordens de limpar a capa da moto e retirar uma mesa branca manchada de sangue. Também havia um balde com água e sangue, conta. “No chão também tinham gotas de sangue.” As ordens que recebeu teriam sido dadas pelo tenente Medeiros (Luiz Felipe). O PM contou que acabou quebrando a mesa e se desfazendo dela – ou seja, uma das provas do crime. Jardim comentou também que o major fez reuniões antes dos PMs prestarem depoimentos na Divisão de Homicídios. Disse que viu dois soldados em pânico após a suposta sessão de tortura, mas não citou nomes.

Na primeira audiência de julgamento, realizada em 20 de fevereiro, o delegado Rivaldo Barbosa afirmou que o major Edson Santos autorizou que seus subordinados torturassem Amarildo atrás do contêiner onde funcionava o posto policial na favela. Em seu depoimento, Barbosa disse ainda que “pode haver outros Amarildos” na favela da Rocinha. Em seu depoimento, o delegado admitiu que a investigação falhou à época porque não periciou o local exato onde Amarildo teria sido torturado. Na ocasião, a polícia percorreu apenas o caminho de entrada, o suposto trajeto de saída do morador e a parte interna dos contêineres. Mas o morador teria sofrido totura atrás da unidade.

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