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Entrevista » Sociólogo Gustavo Gomes da Costa fala sobre o beijo gay Nas novelas e nas ruas do mundo inteiro, beijar é um ato transgressor que a comunidade LGBT aprendeu a usar como arma anti-homofobia

Phelipe Rodrigues

Publicação: 18/02/2014 17:55 Atualização: 18/02/2014 18:10

O sociólogo Gustavo Gomes da Costa estuda a comunidade LGBT no Brasil e na África do Sul. Foto: Cristiane Silva/Dp/D.A Press
O sociólogo Gustavo Gomes da Costa estuda a comunidade LGBT no Brasil e na África do Sul. Foto: Cristiane Silva/Dp/D.A Press

O sociólogo e doutor em ciência política Gustavo Gomes da Costa investigou as mobilizações homossexuais no Brasil desde a década de 1970. "Há três momentos bem distintos na luta que inicia de maneira política durante a ditadura militar, passa pelo combate à Aids até a rearticulação do movimento homossexual na década de 1990, com a busca por visibilidade e direitos civis", analisa.

Durante toda a formação acadêmica, o pesquisador esteve longe do Recife, sua cidade natal. "Foram quase quinze anos entre São Paulo, Londres e Cidade do Cabo, pesquisando as articulações da comunidade LGBT em cada um desses lugares", explica. Ao regressar como professor de sociologia da Universidade Federal de Pernambuco, a percepção é que a cidade é bem diferente da deixou no final dos anos 1990.

"A vida gay, sem a repressão do passado, em espaços como o Shopping Boa Vista e a Praça do Arsenal, no Centro, tornou-se possível por conta de ações que parecem simples. Mas são corajosas. É o caso da Parada Gay na Avenida Boa Viagem. E dos dos beijaços que aconteceram diante de alguns estabelecimentos, cobrando o cumprimento da Lei Municipal 17025/04, que pune toda e qualquer manifestação atentatória ou discriminatória contra homossexuais, bissexuais ou transgêneros", observa Gustavo. Na entrevista a seguir, ele fala sobre o beijo gay nas novelas, o papa Francisco e os setores fundamentalistas no Congresso Nacional.

Quando começou o movimento LGBT no Brasil?
Há três momentos distintos no movimento gay do Brasil. No livro Além do Carnaval, o brasilianista James Green analisa a homossexualidade no Rio de Janeiro e em São Paulo ao longo do século 20. Ele mostra que o mito de liberação e tolerância que o país vendia como produto de exportação não era real em relação aos gays. Até os anos 1960, haviam só espaços de sociabilidade, poucos, para os homossexuais. A vida gay estava ligada à clandestinidade. Uma discussão política da homossexualidade surge nos anos 1970, durante a ditadura militar. Mas nos primeiros anos da década de 1980, chega a Aids e muda o perfil desse ativismo, que passa mais pelo combate à doença e fica mais preocupado em obter garantias legais. A rearticulação LGBT é feita nos anos 1990, com uma postura institucional e a busca por visibilidade. Também surge um mercado para atender um consumidor GLS. São as bases para tudo o que estamos vendo hoje, como o beijo na TV e o casamento civil entre pessoas do mesmo sexo.

Por que o beijo gay na novela das 21h, Amor à vida, repercutiu de forma tão incensada na sociedade brasileira?

Primeiro, porque era uma casal formado por dois homens brancos, bonitos e de classe média alta. Eles eram gays. Mas repetiam todos os padrões hegemônicos da classe média. São papéis esperados. Portanto, aceitos de forma mais tranquila pelos espectadores. Outro aspecto era a performance e o carisma dos atores, algo que também precisa ser destacado. O autor preparou todo um terreno heteronormativo para que o beijo acontecesse. Por exemplo, o excesso de casamentos no final da trama. Era como se estivesse firmando uma posição para deixar espaço para o tão aguardado beijo gay. Isso não tira a importância da cena. Pode não causar tanto efeito em grandes centros. Mas o impacto é diferente em cidades do interior porque abre espaço para discussões, a novela apresenta outros padrões de comportamento à sociedade brasileira.

As novelas, em geral, trabalham com modelos, com um ideal. Hoje, o gay é mostrado com roupas caras, sempre preocupados com a aparência. O que pensam disso os ativistas LGBT?
O modelo, a uniformização é um problema. Porque exclui outras vivências da homossexualidade. Acho que a partir desse beijo gay, os autores de novelas poderiam apresentar outras possibilidades de personagens gay. Há uma expectativa sobre a atual trama das 21h, Em família, porque Manoel Carlos vai trazer Giovanna Antonelli e Tainá Müller vivendo um romance.

Revistas, boates e bares voltados ao público gay também reproduzem vários clichês?
Quando voltei ao Recife, depois de muitos anos, conheci um lugar que me pareceu diferente de quase tudo porque difere do padrão gay globalizado que sempre fala de Nova York, de Paris, de Londres. O MKB (sigla para Meu Kaso Bar, que reúne boate, música ao vivo, espaço de samba e música brega no bairro da Boa Vista) me mostrou que é possível fazer algo diferente, que públicos bem distintos dentro do mesmo universo podem conviver. Mais ainda, que existe algo mais próximo da cultura pernambucana. Ali, você encontra desde garotos bem masculinos até os afeminados, que fazem coreografias e jogam o cabelo. Outra experiência interessante é a Praça do Arsenal, no Bairro do Recife, aos domingos. Os meninos de mãos dadas, muito à vontade, convivem com vovós e pais que passeiam com as crianças.

A comunidade LGBT costuma usar o beijaço como uma forma de combater a homofobia. Essa prática surte algum efeito na sociedade?
Vários casais do mesmo sexo trocando beijos podem até parecer algo ingênuo para quem não têm um comportamento homofóbico. Mas o beijo, em público, de casais gays ainda é algo muito transgressor para a sociedade brasileira. Muita gente enxerga o afeto entre os gays como ofensa pessoal. O Shopping Frei Caneca foi advertido pela Secretaria da Justiça e da Defesa da Cidadania do Estado de São Paulo por discriminação, em 2003. Houve um beijaço no Shopping para marcar a posição de quem se sentiu desrespeitado. Em 2005, o mesmo ocorreu no bar Mustang, na Boa Vista, por ter convidado duas garotas a se retirar. Em 2012, o bar Só Caldinho, em Boa Viagem, também passou pelo mesmo tipo de protesto, chamando a atenção da imprensa e da sociedade civil.

As paradas gay por todo o país passaram a ser criticadas por alguns ativistas LGBT pela característica mais festiva que combativa. Como você avalia a questão?
Quando garotos e meninas podem ocupar a avenida mais cara de uma cidade (a Avenida Boa Viagem) demonstrando o que são, de verdade, em plena luz dia, isso é um ato político. Essa liberdade de se mostrar em público, de ganhar a visibilidade da imprensa e de quem está nas ruas é tão transgressor quanto um beijaço. As pessoas, às vezes, esquecem que política também pode ser feita com humor.

De acordo com o Grupo Gay da Bahia (GGB), em 2012, um homossexual era morto a cada 26 horas. Os crimes de homofobia aumentaram 177% nos últimos sete anos. Há vários avanços. Mas a violência parece também ter aumentado.
Há sérios problemas de estatística no Brasil. Nos anos 1980, os únicos dados disponíveis sobre crimes de homofobia eram produzidos pelo Grupo Gay da Bahia, que tinham acesso apenas ao que era divulgado pela imprensa. Esse aumento dos números é algo parecido ao que acontece sobre a violência contra a mulher, porque existem leis específicas e as pessoas passaram a denunciar mais. Mas o Brasil ainda ocupe o primeiro lugar no ranking mundial de assassinatos homofóbicos, segundo o Grupo Gay da Bahia. Também é importante tratar da violência verbal e psicológica. O bullying homofóbico é algo muito grave e precisa ser discutido no noticiário e também ganhar espaço na novela, porque muitas vezes é algo que começa em casa.

A revista norte-americana The advocate, voltada ao público gay, elegeu o Papa Francisco a personalidade %u201C"pessoa mais influente de 2013 para a comunidade LGBT". O que isso representa?
Nunca pensei que ouviria o líder máximo da igreja católica usar o termo gay, como o Papa Francisco fez durante uma entrevista a um jornal católico (La Civiltà Cattolica, em agosto de 2013). A igreja sempre se referiu à comunidade com expressões que suscitam doença ou pecado, como homossexual, sodomita, pederasta ou pevertido. Usar o termo que foi escolhido pela própria comunidade LGBT implica em reconhecimento. O Papa Francisco passa a me tratar como eu quero ser tratado. O discurso muito moralista já foi tomado pelos evangélicos. Essa forma de comunicar só tem servido para afastar fieis da igreja católica. Uma nova abordagem era necessária, porque a instituição em alguns países, sobretudo no Brasil, estava definhando.

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Autor: Antonio Silva
Esse ativismo lgbtt é doentio e sem medidas! Eles que se dizem "não preconceituosos" são os maiores preconceituosos e intolerantes! | Denuncie |

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