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Debate » Assassinato de Coutinho evidencia perigos da esquizofrenia não tratada A doença afeta cerca de 0,7% da população. Especialistas criticam a falta de tratamento adequado no SUS

Leandro Kleber

Publicação: 04/02/2014 08:29 Atualização: 04/02/2014 12:29

A morte do cineasta Eduardo Coutinho, no domingo, supostamente assassinado a facadas pelo filho que sofre de esquizofrenia, colocou a doença mais uma vez em evidência. Psiquiatras dizem que é possível controlar o transtorno mental com tratamentos à base de medicamentos e acompanhamento psiquiátrico, principalmente se a doença for verificada precocemente. Mas o Estado, que disponibiliza os remédios por meio do Sistema Único de Saúde (SUS), ainda tem dificuldades para oferecer leitos e tratamento psiquiátrico aos pacientes. Cerca de 0,7% da população tem esquizofrenia, que atinge mais os homens. Os sintomas começam a aparecer entre a adolescência e a fase adulta e incluem alucinações, delírios e perda de vontade de realizar atividades diversas. Não existe cura para a doença, responsável por 25% das internações psiquiátricas, e ainda não se descobriu o que causa a enfermidade.

Em 2010, o cartunista Glauco e o filho Raoni foram mortos por tiros disparados por Carlos Eduardo Nunes, que também sofre de esquizofrenia. O quadro foi confirmado pela Justiça no ano seguinte à tragédia. Atualmente, não há leitos suficientes para internação de pacientes com surtos psicóticos, principalmente, nas grandes cidades brasileiras. O fechamento de centros de internação, mais conhecidos como grandes asilos, onde eram tratadas as pessoas com deficiência mental, muitas vezes de forma equivocada, diminuiu a quantidade de leitos específicos para surtos.

O controle da esquizofrenia envolve vários cuidados com o objetivo de suprir as necessidades clínicas, emocionais e sociais do indivíduo. O tratamento farmacológico é realizado com drogas antipsicóticas, oferecidas pelo SUS, mas os medicamentos são associados a eventos adversos que variam de acordo com o indivíduo e a substância. Entre 20% e 25% dos pacientes tratados com os antipsicóticos não demonstram resposta satisfatória, mesmo quando combinados a outras formas de tratamento psicológico e social, sendo refratários ou resistentes.

Banalização
“Há vários níveis da doença. Mas, muitas vezes, as famílias só nos procuram quando o caso já está muito exacerbado e precisa da intervenção de um psiquiatra, e não somente de um psicólogo”, explica Inês Gonçalves Goldberg, psicóloga clínica. Na opinião de Inês, ainda há muito trabalho a ser feito em relação às políticas públicas. “As pessoas banalizam as questões emocionais como a depressão e a esquizofrenia. O tratamento na rede pública é muito precário. Quem tem situação financeira mais favorável se beneficia. Só que, quando nos procuram, já está muito exacerbado. A família inteira adoece”, afirma.

O Ministério da Saúde afirmou que a política nacional para o atendimento a pessoas com transtornos psiquiátricos no SUS prevê a oferta de diferentes serviços (Centros de Atenção Psicossocial e hospitais gerais) e a redução progressiva de leitos psiquiátricos. “Nos últimos 11 anos, o número de leitos em manicômios caiu 44%. Paralelamente, a capacidade de atendimento em CAPS (Centros de Atenção Psicossocial) aumentou 100 vezes, passando de 400 mil (2002) em 424 CAPS, para 40 milhões (2014) em 2.046 CAPS no país”, informou.

Controle das crises
A esquizofrenia é uma doença crônica e progressiva, caracterizada por uma variedade de problemas comportamentais, emocionais e cognitivos. O transtorno mental afeta cerca de 0,7% da população e aparece normalmente no período entre o fim da adolescência e o começo da vida adulta. Os sintomas são classificados em positivos e negativos. Os positivos são relacionados a distorções das funções sensoriais, incluindo alucinações (geralmente auditivas), ilusões e fala e comportamento desorganizados. Os negativos são relacionados à inibição das funções afetivas e psicomotoras e incluem apatia emocional, isolamento social, falta de motivação e perda do prazer. As causas da doença ainda não são compreendidas pela medicina. É uma doença que tem tratamento psiquiátrico, baseado no uso de medicamentos que são denominados de antipsicóticos. O principal objetivo é tratar a crise quando acontecer e prevenir as recaídas para que a pessoa tenha condições internas de traçar o seu caminho. Geralmente, as crises ocorrem porque a pessoa abandona o tratamento. Por isso, especialistas dizem que é fundamental segui-los.

Pouca assistência
“As políticas públicas não são eficazes. Tem havido progresso em relação às políticas de assistência à doença mental, mas a limitação da lei é muito grande. Embora eu seja favorável ao fechamento dos grandes asilos, porque ofereciam tratamento desumano, o Estado não forneceu alternativas aos pacientes. Hoje, não há possibilidade para se internar pacientes em crise, com surto psicótico, nas grandes cidades. Com a redução de leitos, ficou uma carência muito grande desses recursos assistenciais. O mais importante é criar uma política benfeita em que todos os recursos estejam presentes, desde a internação, o ambulatório completo e os centros de assistência. O paciente tem de ter acompanhamento e não só receber medicamentos. Tem de haver orientação e espaços para convivência. Esses pacientes não conseguem competir de igual para igual no mercado de trabalho.

Marco Antônio Brasil, professor associado da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e ex-presidente da Associação Brasileira de Psiquiatria

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