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Minas Gerais » "Menino do cavalo" vira atração na Região Centro-Sul de BH Montado em seu animal de estimação, menino de 12 anos sai para visitar a tia e a mãe

Jefferson da Fonseca Coutinho - Estado de Minas

Publicação: 17/01/2014 09:32 Atualização:

Sérgio diz que usa as calçadas em último caso, quando não é possível andar nas ruas. Foto: Cristina Horta/EM/D.A. Press
Sérgio diz que usa as calçadas em último caso, quando não é possível andar nas ruas. Foto: Cristina Horta/EM/D.A. Press

Ele já não passa mais despercebido pelas ruas e avenidas da Região Centro-Sul de Belo Horizonte. “É o menino do cavalo”, diz o garçom do restaurante no Bairro Funcionários. Neste verão, desde que entrou de férias das aulas de ensino fundamental, Sérgio Gabriel Dias Vieiras, de 12 anos, decidiu apresentar Raio, seu animal de estimação, à cidade, mesmo sem sela. “É que eu quero que todo mundo saiba que ele é meu”, diz com a voz rouca, na muda, de adolescente. Serginho, como é conhecido, também teme perder o cavalo. Por isso, diz que o “irmão” – é como trata Raio – precisa conhecer “todos os caminhos de casa”. Serginho e Raio moram no alto do Bairro Serra, na Vila Marçola.

Todos os dias, desde o mês passado, Serginho e Raio rodam as avenidas Getúlio Vargas, Contorno, Amazonas e Nossa Senhora do Carmo. Vez por outra, às tardes, também cruzam a Avenida Afonso Pena para ir ao Parque Municipal Américo Renné Giannetti – segundo o pequeno cavaleiro, “o melhor lugar da cidade”. Pelos caminhos, sobram aventuras. “Ando no asfalto, porque na calçada as pessoas acham ruim. Mas, quando é perigoso, não tem outro jeito, aí, ando no passeio mesmo”, sorri.

Serginho mora com a avó, dona Santinha. Nas andanças para familiarizar Raio com os caminhos da capital, o garoto aproveita para visitar a mãe, Maura, no Bairro Betânia, na Região Oeste, e a tia, na Vila Carrapato, no Morro do Papagaio, na Região Centro-Sul. É na Vila Carrapato que começa a história de amor entre o menino e o cavalo. Serginho diz que o cavalo foi presente da tia. “Minha vó cuidava do Raio quando eu nasci, mas ele sempre foi meu. Ela conta que ‘meu irmão’ ajudou a cuidar de mim. Eu chorava e o Raio batia a cabeça dele na minha. Só assim que eu ficava quieto”, conta.

O cavalo se agita com o movimento na Rua do Ouro. “Coche, coche, coche…”, ordena o cavaleiro, que faz carinho em Raio. O animal se acalma. Serginho sobe e desce a mão, macio e leve, na cabeça de Raio, que parece sorrir. “Quer ver ele ir… olhe só…”, com intimidade, o menino toca a boca do animal para que ele mostre os dentes. “Escovo os dentes dele todo dia de manhã, mas ficam amarelos… não tem jeito”, lamenta. Das estripulias do amigo inseparável, o garoto fala da vez, recente, quando Raio pulou a janela e passou por cima do fogão, derrubando as panelas na casa da avó. “Tem vez que ele não tem jeito… é muito desobediente.”

Ainda que franzino, com pouco mais de metro e meio, Serginho diz evitar ficar o tempo todo montado em Raio, “para não ficar pesado”. “Ando na frente e do lado dele, desse jeito, segurando a cordinha”, mostra. Você vai à escola com o Raio, Serginho? “Não. Já tentei mas não deu certo. Eles deixaram o Raio ficar do lado de dentro do muro, mas ele fez uma sujeira danada e eles não deixaram mais.” Serginho conta que, durante as aulas na Escola Municipal Maria das Neves, no Bairro São Lucas, Raio fica na Vila Marçola, “cuidando da casa”. É o cavalo também o “cão de guarda” dos Vieiras.

Sonho

Serginho não gosta dos automóveis. “Nem de carro nem de moto. Estragam o trânsito”, diz. Sonha ir morar na roça, para ser “cuidador de cavalos”. Diz que o pai, Crisantino, motorista de ônibus, “jurou” levá-lo, assim que der, para morar no campo. “É da família do meu pai. Sabe a Avenida Amazonas? Então… vai nela toda a vida até chegar a um lugar muito verde, cheio de terra. É lá que eu quero morar”, conta. Serginho diz que gosta tanto de Raio que sonha quase todas as noites que está andando com ele num lugar muito bonito, “cheio de natureza”. “Quando não sonho com isso, sonho com o capeta por causa da guerra lá no morro”, revela.

No ombro esquerdo, cicatriz grosseira da última queda com o Raio. “A gente estava indo muito depressa e ele entrou desembestado no beco e me jogou na parede. Tem vez que ele é muito levado”, ressalta. Raio é um belo cavalo branco com “pingos de ferrugem”. Tem os olhos vivos e está com o joelho esquerdo dianteiro inchado. “Foi um tombo na semana passada. Meus amigos e eu juntamos dinheiro para comprar remédio”, diz. Serginho deixa Raio passear com alguns garotos, vizinhos, desde que ele também vá, “segurando a cordinha”. “É meu irmão. Meu amigo e meu irmão, porque nem todo irmão é amigo”, afirma.

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