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FALTA DE CONDIÇÕES » Comunidades terapêuticas não têm condições para funcionar Comunidades do Rio Grande do Sul e Piauí enfrentam problemas

Agência O Globo

Publicação: 27/07/2013 18:41 Atualização:

Pelo menos dois terços das comunidades terapêuticas do Rio Grande do Sul não têm condições técnicas de funcionar e deveriam ser fechadas, segundo dados da Secretaria estadual de Justiça e Direitos Humanos. A maioria das 211 instituições registradas no estado, com 6.995 vagas, possui condições precárias, tanto em relação à infraestrutura quanto ao tratamento psicoterápico. De acordo com a seção sul da Federação Brasileira das Comunidades Terapêuticas (Febract-Sul), há registros de maus-tratos em estabelecimentos que correspondem a pelo menos duas mil vagas.

- Muitas só têm o "terapêutica" no nome. São comunidades mantidas por pessoas sem preparo para lidar com o problema e sem qualificação para tratar essas pessoas. Não basta apenas ter boa vontade, porque muitas vezes prejudica mais do que ajuda os dependentes - diz a delegada da Febract-Sul, Rosângela Scurssel.

Dados da Secretaria de Justiça e Diretos Humanos do estado indicam que quase metade das comunidades (47%) é de orientação evangélica; outras 26% se dizem católicas. Apenas uma em cada quatro se declara sem denominação religiosa.

A secretaria identifica também retrocesso nas políticas antimanicomiais, tratamento sem acompanhamento especializado e afastamento dos dependentes do convívio social, o que vai contra a legislação.

Na Fazenda Revive, na Região Metropolitana de Porto Alegre, uma das comunidades cadastradas pelo Ministério da Justiça, a orientação é evangélica. A comunidade é vinculada à Igreja Adventista do Sétimo Dia - mais da metade dos recursos vêm da Igreja Adventista - e impõe uma privação severa aos dependentes. Não há, por exemplo, consumo de carne ou de chimarrão entre os cerca de 25 internos, produtos considerados "estimulantes".

Também não há psicólogo para atender os pacientes. Uma psiquiatra visita a comunidade uma vez por semana para prescrever medicação.

A comunidade tem sessões diárias de "espiritualidade" nas quais os internos rezam, discutem a Bíblia ou assistem a DVDs com mensagens religiosas. As sessões chegam a ocupar até seis horas do dia, também dividido entre tarefas domésticas e trabalho no campo. Na biblioteca da Fazenda Revive, há só literatura evangélica.

- Tem gente que chega aqui até sem a roupa do corpo. Aos poucos, vão aprendendo a gostar - diz o gerente José Amaral da Rosa, de 52 anos, ele mesmo ex-interno da instituição.

Amaral da Rosa não tem formação, mas obteve o posto de administrador por controlar como poucos a disciplina do local. O gerente diz que já foi ameaçado de morte com faca, foice e tijolo, mas que consegue controlar o grupo. Segundo ele, as crises de abstinência seguidamente provocam brigas entre os internos, às vezes violentas.

O código de comportamento, por isso mesmo, é rigoroso, segundo ele: música, só gospel. Chocolates e refrigerantes também são proibidos entre os internos, que têm à sua disposição oito computadores sem acesso à internet, apenas para as aulas de religião. Visitas, só uma vez por mês - se o interno tiver bom comportamento. Os alojamentos são trancados à noite, mas Amaral da Rosa garante que os dependentes podem sair a hora que quiserem.

- Não é uma prisão - define.

O gerente é quem decide quem deve ser punido ou não por mau comportamento, com castigos que incluem uma semana lavando louça, corte da sinuca e da TV, e perda da visita mensal. Nos casos mais extremos, há isolamento do infrator.

No Piauí, entre as 42 comunidades terapêuticas habilitadas no primeiro edital lançado pelo Ministério da Justiça está a Fazenda da Paz, em Teresina. A presidente da entidade, Eneida Maria Medeiros Lustosa, afirma que o ministério deve pagar por 60 vagas, o que fará com que a comunidade passe dos atuais 180 internos para 240.

Criada por um padre suíço, Padre Balzi, já morto, e por um ex-dependente químico mineiro, Célio Barbosa, em 1994, a Fazenda da Paz já foi procurada por 12 mil dependentes. Eneida diz que a reincidência dos dependentes acolhidos lá é de 35%; segundo ela, percentuais aceitáveis para esse tipo de reincidência estariam em torno de 25%.

O trabalho é baseado em ações como orações de terço e de textos católicos, e cursos de produção de cajuína, marcenaria, técnicas agrícolas e informática.

Outra comunidade em Teresina, e que foi cadastrada no mapeamento feito pelo ministério, é a Betesda. Tem seu escritório na sede da Igreja de Deus Missionária, no Centro da cidade. Hoje, conta com 27 internos, selecionados após serem levados pelas famílias a um salão do templo.

- O tratamento é à base de leitura da Bíblia, orações. É um tratamento devocional - diz Pablo Nóbrega, ex-dependente de crack que saiu da Betesda, mas continua fiel à Igreja de Deus Missionária.
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