O dia ontem foi de luto na cidade do Triângulo Mineiro, especialmente para as três famílias que enfrentaram a dolorosa missão de enterrar parentes, entre eles duas crianças vítimas do grave acidente ocorrido domingo no encontro das avenidas Antônio Tomáz Ferreira de Rezende e Comendador Alexandrino Garcia. No cruzamento do Bairro Marta Helena, uma carreta carregada de cerveja não conseguir parar no semáforo e arrastou sete carros e uma moto.
Os familiares das vítimas, muito abalados, evitaram falar sobre a tragédia, mas era nítido o abatimento de todos. A comoção podia ser percebida já na Funerária Paz Universal, onde foram velados os corpos das crianças Rafael Fernandes de Brito, de 9 anos, e Ana Júlia Resende Costa, de 4. Rafael estava em uma caminhonete Hilux com os pais, Daniel Brito e Keyla, e a irmã, Lara, de 14 anos. A família voltava da fazenda onde havia passado o fim de semana. A mãe continua internada em estado gravíssimo no Hospital da Universidade Federal de Uberlândia (UFU), com traumatismo craniano e em coma induzido.
Lara Fernandes fraturou o fêmur e teve ferimentos no rosto. Seu estado foi agravado pelo fato de ela ser hemofílica. Daniel fraturou o braço e três costelas, está consciente, mas não teve condições de comparecer ao sepultamento do filho, no Cemitério São Pedro, às 13h. Ele é fazendeiro e tem médicos na família, que estão acompanhando de perto a recuperação dos parentes.
A menina Ana Júlia estava no Renault Clio do tio, o sargento do Exército Fábio Teixeira de Souza, do 36º Batalhão de Infantaria Motorizada, de Uberlândia. No carro, que seguia para a casa da avó da garota, estavam também a mulher, a irmã e a mãe do militar. O sargento está em estado estável e pode ter alta ainda hoje. Os outros ocupantes continuam internados em situação mais grave. Ana Júlia foi sepultada às 17h, no Cemitério Bom Pastor. Em silêncio, por cerca de 15 minutos, os familiares se despediram da menina, em um clima de indignação e incredulidade.
Pouco antes, o corpo do motociclista Gustavo Delfino Pinto, de 23, havia sido enterrado no mesmo local. O corpo do motorista da carreta, José Levino Corrêa, de 60, foi transladado para Rondonópolis (MT), sua cidade natal. Três mulheres continuam internadas em estado grave e duas pessoas receberam alta ontem. Outras sete vítimas permanecem no hospital da UFU.
Desastres semelhantes
O acidente faz lembrar muito os ocorridos recentemente em Belo Horizonte, no Anel Rodoviário e na Avenida Nossa Senhora do Carmo, nos quais motoristas de carretas carregadas não conseguiram parar ao se deparar com retenções de tráfego e arrastaram tudo o que havia pela frente. No caso de Uberlândia, a carreta Volvo parou somente quando atingiu um ponto de ônibus, que estava vazio, por ser domingo. O caminhoneiro morreu ao ser atingido pela marquise de concreto. Antes, além de atingir sete carros e uma moto, alguns parados no sinal e outros cruzando a pista, a carreta havia derrubado dois postes de ferro.
O cruzamento é considerado perigoso e já foi palco de outros acidentes. O problema é que a Avenida Antônio Tomáz Ferreira de Rezende é a sequência da BR-050, mas não há sinalização clara delimitando o fim da rodovia e o início do perímetro urbano. Motoristas que não conhecem o trecho se surpreendem com um semáforo após pequeno declive. A proximidade do Distrito Industrial e a saída para outras cidades, como Araguari, Brasília e Goiânia, aumentam o trânsito de veículos pesados. O trecho é de responsabilidade da Polícia Militar e não há proibição do tráfego de caminhões, apesar de haver opção de desvio, que, no entanto, aumenta a distância percorrida.
Na manhã de ontem, ainda era possível ver os destroços do acidente: objetos pessoais, peças dos veículos atingidos e cacos das garrafas de cerveja carregadas pela carreta. O operador de empilhadeira Marco Aurélio da Silva, de 34 anos, mora próximo ao cruzamento e foi uma das primeiras pessoas a chegar ao local. “Era um cenário de guerra. A moto foi arrastada e só parou dentro de um Gol preto. A Hilux ficou embolada entre dois postes. Um Corsa ficou debaixo da carga de cerveja e, por sorte, ninguém desse carro se feriu”, descreveu. Outras pessoas que presenciaram o acidente, ocorrido pouco antes das 17h, informaram que o motorista da carreta chegou a buzinar quando percebeu a falta de freios. Não ficou nenhuma marca de frenagem no asfalto.
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