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| Do alto do teleférico se vê o resultado da pacificação do conjunto de favelas. Foto: Inês Campelo/Arquivo Pessoal |
Cerca de 10 mil moradores e turistas utilizam, diariamente, o Teleférico do Complexo do Alemão. Do alto, eles veem o resultado da pacificação do conjunto de favelas, que é beneficiado por uma das 30 Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs) já instaladas no Rio. O direito de ir e vir foi resgatado pelos moradores, que, aos poucos, percebem mudanças positivas em seu dia a dia e, agora, torcem para que o projeto de construção de um shopping center na comunidade saia do papel. Os sonhos são ambiciosos, na mesma proporção dos idealizados em 2008, quando a primeira UPP foi inaugurada, no Morro Dona Marta. Independentemente da localização das mais de 200 favelas já pacificadas, o desafio agora é garantir que a paz reine em todas as áreas, antes dominadas pelo tráfico.
Para promover o desenvolvimento econômico e a inclusão produtiva, a prefeitura criou o programa UPP Social, que já nasceu com um conceito de transitoriedade, pois seu objetivo é ser apenas um artifício para a favela, enquanto ela não está suficientemente integrada à cidade. "Ter geração de emprego e renda é fundamental. Mas não basta oferecer cursos. Tem que oferecer o que atende à demanda. Tem que promover a inclusão produtiva", diz Eduarda La Roque, Presidente do Instituto Pereira Passos, que coordena o programa.
Moradores pagam a conta da pacificaçãoFundador da Central Única das Favelas (Cufa) e agora presidente da Fhold - um grupo de empresas que promete levar oportunidades de negócios para as comunidades -, Celso Athayde diz que é preciso gerar renda nas favelas que passaram por um choque de ordem. "Tem segurança, isso permite a entrada de empresas como a Light. Mas essas pessoas viviam baseadas numa anomalia social. Agora, comércio, imóveis, está tudo mais caro. Não pode tratar os diferentes como se fossem iguais. Como é que se gera renda?", pergunta Celso, que tem a resposta.
Com a ajuda de um empresário, ele espera até o fim do ano inaugurar o shopping que deve gerar seis mil empregos exclusivamente para moradores do Alemão. "O desafio é como gerar oportunidade para pessoas que moram nesse território. Além do Alemão, é possível fazer shoppings na Cidade de Deus, na Maré, na Vila Vintém".
As transformações em favelas cariocas, segundo o escritor e produtor cultural Júlio Ludemir, não seriam possíveis sem as UPPs. Um dos organizadores do concurso A Batalha do Passinho (que elege o melhor dançarino de funk) e da Flupp (Festa Literária Internacional das UPPs), ele diz que tem rodado as favelas da cidade, inclusive onde a pacificação tem sido posta à prova, como na Mangueira. Por onde passa, até vê venda de drogas, mas o comércio ilegal que ditava as regras nas comunidades, segundo ele, perdeu a força. "São bocas sem dente, como dizem por aí", conta Júlio, que não se ilude. "Claro que o projeto não está consolidado. O tráfico ainda é um ator social, mas tem papel minoritário. O que falta agora é passar a confiança de que a UPP é um projeto definitivo".
Eduarda La Roque admite que a pacificação é um trabalho de formiguinha. Na Rocinha e no próprio Complexo do Alemão, por exemplo, ela diz que ainda há muito o que fazer. Nascida e criada no Alemão, Maria Cristina Alves, de 53 anos, passou de doméstica para dona de uma loja de artigos artesanais no próprio morro. Com a pacificação, recebe até clientes estrangeiros. "Antes eu tinha receio de dizer que morava no Alemão", diz ela, que há um ano legalizou a loja.
Educação sobe o morro com projetos sociaisOutra Maria Christina, esta baiana, de 55 anos, era, até um ano atrás, analfabeta. Ela sempre quis estudar, mas quando criança teve que ajudar a criar os irmãos menores. Na juventude, veio para o Rio, mas logo casou, teve filhos, dedicou-se à família e, como moradora do Morro da Babilônia, sofria com a falta de liberdade de ir e vir, imposta pelo tráfico. A chegada da UPP permitiu que a Firjan levasse o programa Sesi Cidadania até a comunidade e, finalmente, Christina aprendeu a ler e escrever.
"Morando na Babilônia, era difícil sair para estudar, era muito violento. Minha filha, até os 17 anos, eu tinha que levar e buscar na escola. Hoje, quero que tudo seja melhor para meus netos. E sonho estudando".
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