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Minas Gerais » Fazendeiro e político estão entre "necessitados" da bolsa pesca

Mateus Parreiras

Publicação: 28/02/2013 10:30 Atualização:

Se há “pescadores” como o pastor Roberto Marcos dos Santos, que vive em Belo Horizonte e recebe a bolsa pesca, embora admita não se dedicar à profissão, a proximidade com consagradas áreas pesqueiras não torna menos frequentes as fraudes contra o benefício em Minas. Na fazenda de 24 hectares de Josué de Souza Freitas, de 44 anos, conhecido como Josué da Aurora, Em Morada Nova de Minas, o portão abre caminho para uma estradinha que vai até a sede. Poucos metros abaixo da casa se encontram fornos de barro usados para queimar toras de eucaliptos. Árvores plantadas por toda a região são levadas por caminhões e carretas para serem transformadas em carvão na sua propriedade. Apesar de confortável, a casa da propriedade não é onde ele e sua família dormem.

Sua moradia, na verdade, fica a cinco quilômetros dali, no distrito de Vau das Flores, na cidade da Região Central do estado. Na garagem, os veículos que declarou quando se candidatou a vereador: um VW Fox ano 2011, um Fiat Fiorino ano 1991 e uma moto Titan ano 2010. Mesmo tendo declarado ao Tribunal Regional Eleitoral (TRE), na última eleição para a Câmara da cidade, ser um “carvoeiro”, e apesar de não sobreviver da pesca rudimentar, Josué é uma das 644 pessoas do município que recebem Seguro-Desemprego ao Pescador Artesanal durante a piracema, época que os peixes se reproduzem.

Às margens do Lago de Três Marias, no Rio São Francisco, Morada Nova de Minas é a terceira cidade que mais recebe o benefício em Minas, atrás apenas de São Francisco e de Pirapora, cidades do Norte mineiro. Só nos últimos dois anos foram R$ 2.221.483, para o município, segundo o governo federal. Pelo menos 12 desses pescadores apresentam vencimentos, propriedades e contratos suspeitos, segundo apurou a reportagem do Estado de Minas. Josué foi procurado na fazenda, em casa e por telefone celular ao longo do último mês, mas não foi encontrado para justificar o recebimento de R$ 4.494 em duas temporadas de piracema. Na parede da sua casa, contudo, o lema da campanha que não o elegeu, com erro de português, chama a atenção: “Trabalho com trasparência (sic) e seriedade”.

O ex-vereador Darlan de Oliveira Couto, de 60 anos, aparece como o quarto maior beneficiário do programa na cidade: embolsou R$ 5.059 nas últimas três piracemas. O homem, contudo, admite ser fazendeiro, ou “ter um sítio de 66 hectares”. É dono de plantações e de criatórios de peixes em tanques, além de ser artesão. Atividades que lhe deram conforto e destoam da necessidade de recebimento de auxílio para sobrevivência na época de fechamento da pesca. O fazendeiro não esconde isso de ninguém. “Nenhum pescador artesanal daqui vive de pescar. Senão, teria morrido de fome há muito tempo. Aqui em Morada Nova só conheço dois pescadores que não têm outra atividade. O resto é pedreiro ou trabalha em sítios”, disse.

O motivo disso, de acordo com o fazendeiro, seria a dificuldade para pescar. “Se não tiver outra atividade morre de fome mesmo, porque tem dia que não consegue pegar nenhum peixe.” E ele revela que, por causa das condições do clima, em 2013 mais gente abandonou a pescaria. “Este foi o ano em que mais se descumpriu a lei, porque não choveu e tinha pouca água na lagoa. Eu mesmo tive de dar pasto para pescadores cuidarem para não ficarem sem trabalho”, diz o beneficiário da bolsa-pesca.

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