 | |
| Um carinho, um violão e muita dedicação. É assim que Cristovão Caxito cuida de Enida Caxito, com quem está casado há 48 anos. Foto: Alexandre Guzanshe/EM/D.A Press |
“Você quer se levantar?", pergunta à esposa, que da cama consente. O marido, carinhosamente, se curva e passa o braço da companheira por trás de sua cabeça. Em um suspiro único, sincronizados, os dois ficam de pé. Sem os movimentos do lado direito do corpo, presa a uma cadeira de rodas, não mais independente, ela reaprendeu a viver nos braços dele.
Essa não é a história de Amor, o filme do diretor Michael Haneke que hoje à noite, na cerimônia do Oscar, concorre aos prêmios de melhor filme, direção, filme estrangeiro, atriz e roteiro original. A vida real pode ser tão dura quanto as paredes sufocantes do apartamento onde vivem os personagens do longa-metragem. Ao mesmo tempo, pode se desenrolar de forma mais leve. Pode, ainda, exigir e “presentear” um casal com uma prova de amor.
Cristovão Caxito, de 70 anos, e Enida Caxito, de 71 (foto), são casados há 48 anos. Quatro filhos, quatro netos, dois bisnetos; envelheciam como o esperado... Mas, em 2005, Enida sofreu um acidente vascular cerebral (AVC). Depois de uma cirurgia de alto risco, 90 dias em uma unidade de terapia intensiva (UTI) e poucas perspectivas de reabilitação, voltou para casa dependente.
Ele se recorda do primeiro banho que deu na mulher, tantos outros depois. Não esquece também o maior desejo dela. Em uma casa de dois pavimentos, precisaram transformar a sala no novo quarto do casal. Mas Enida sempre pensa no que deixou no andar de cima. "Meu sonho é voltar para lá", diz com esperança no olhar. Ele sabe que o desejo é maior: "Ela quer de novo o controle da vida".
Como Georges e Anne, os octogenários do filme sensível e extremo que tem levado milhões de espectadores às salas de cinema, Cristovão e Enida; Zico e Analucia; Graça e Geraldo renovaram votos de amor quando lhes escapou a saúde. Abdicando da vida para promover a vida, escancaram uma máxima: envelhecemos, adoecemos e não, não queremos estar sozinhos. Eles amam. Eles cuidam.
Companheiros por toda a vidaNão se sai incólume de um filme como Amor. Na narrativa quase teatral, os enquadramentos se fecham como a esperança de dias melhores. Presa a uma cadeira de rodas, Anne, a personagem de Emmanuelle Riva, mantém Georges, vivido por Jean-Louis Trintignant, ao seu lado. Ele não quer sair. Não quer desviar os olhares e cuidados da companheira de toda a vida. Envelheceram juntos, que estejam juntos também no fim.
É visceral o enfrentamento da dor, da doença, da tragédia. Georges acompanha tristemente o desfecho da mulher, outrora companhia de passeios pela cidade, concertos. Esse tempo passou. Anne agora inspira cuidados, doação, amor... Demanda do marido as tarefas mais banais: o banho, a locomoção, a alimentação. Sua vida depende de outra vida.
O papel da filha distante, quase alheia ao padecimento dos pais, soa demasiado estranho para espectadores latinos. Não estamos acostumados com uma relação tão fria. Não estamos acostumados a muita coisa em Amor, sobretudo ao seu desfecho extremo. Todo o resto está diante de nossos olhos. Não se escapa da velhice. Não se dribla a morte. Mas se pode enfrentá-las de forma mais suave.
A história da companheira que adoece e passa a ser cuidada pelo parceiro não é curiosidade do filme. É universal, embora mais difícil para uns do que para outros. Teremos sempre exemplos de maridos e mulheres que se doaram pelo outro, mudaram suas rotinas para dar mais conforto à pessoa que amam, muitas vezes passando por cima de sonhos e do cansaço.
Em 2002, a aposentada Maria das Graças de Oliveira Figueredo, hoje com 64 anos, recebeu o diagnóstico de um câncer de mama. Estava com os exames em dia; sempre se preocupou com a saúde. Relatou uma dor na mama ao médico, que, taxativo, disse a ela: “Câncer não dói”. Mamografia e ultrassom feitos, o resultado deu negativo. A dor continuou, ela procurou outro médico, refez os exames: tinha um tumor maligno.
Graça sempre foi sozinha ao médico. Naquele dia, pediu a companhia do marido, o comerciante Geraldo Simão de Figueredo, de 69 anos. Quando o médico disse que ela tinha um tumor de 12cm, ela só quis perguntar quanto tempo de vida teria. Geraldo, mesmo em silêncio, foi seu apoio. “Ele não soube dizer nada que me confortasse, mas foi fundamental que estivesse lá”, lembra enquanto sorri para o marido, de mãos dadas.
O casal está junto há 50 anos, casado há 40. Geraldo foi o primeiro namorado de Graça, quando ela tinha 14 anos. O companheirismo sempre foi muito grande e não foi diferente durante a doença. Ele a ajudou com os banhos, a levou ao banheiro, fez as massagens no braço que precisava, a apoiou durante as 22 sessões de radioterapia e 28 de quimioterapia. “Não consigo imaginar como seria ter passado por isso sem ele.”
Lições de amor Geraldo não esperava nada em troca, embora tenha recebido. Cinco anos depois do diagnóstico de Graça, ele teve a mesma notícia: câncer, no intestino. Sua maior preocupação era ter que usar a bolsa de colostomia, com a qual ficou por nove meses. “Se eu pudesse tinha mudado para outra cama, ficava muito incomodado com a bolsa. Mas ela não quis. Para ela, tudo aquilo era natural.”
Curados, de volta à vida normal na companhia dos quatro filhos, Graça e Geraldo tiraram muitas lições do período em que estiveram doentes e nas mãos um do outro. “É um ato de amor. Nessa hora não importa mais nada. Qualquer desventura, qualquer incompatibilidade é algo menor. É amor mesmo”, conta Graça. Emocionado, Geraldo consente. É de poucas palavras, mas a olha carinhosamente.
Os filhos foram outro ponto de apoio. A caçula, a publicitária Karina de Oliveira Figueredo, de 32 anos, amadureceu como testemunha do sofrimento dos pais. “Ele fazia massagem nela. Ela fazia a comida dele. Um cuidou do outro e acho que isso os aproximou. Hoje eles têm mais tempo de ficar juntos. Várias vezes o pego fazendo um carinho nela. É uma relação de muito carinho e respeito, com certeza.”
Tudo por amorEnida Caxito, de 71 anos, era uma mulher independente. Cuidava das tarefas da casa, ajudava nos projetos sociais da igreja e adorava passar o tempo na internet “em tempos em que nem existia Facebook”. O sorriso no rosto é fácil. Como se compreendesse sua condição. Há sete anos em uma cadeira de rodas, ela segue com fé na vida. Tem ao seu lado uma fortaleza, o marido Cristovão Caxito, ou apenas Caxito, como todos conhecem o vendedor aposentado de 70 anos.
Os planos dele eram bem diferentes da atual realidade. Imaginava viajar com a mulher, curtir os netos com tranquilidade. Ele não reclama. Poder cuidar da mulher é como um presente. Estava na UTI – os médicos ainda eram descrentes de sua reabilitação – quando, no aniversário do marido, Enida deu sinal de que havia, sim, chances de recuperação. “Minha filha disse a ela que desse um sorriso porque era meu aniversário. Ela riu e fez um sinal de positivo com a mão”, lembra Caxito.
Voltar para casa com a mulher doente foi um desafio. Caxito ainda trabalhava, os filhos estudavam, os cuidados eram inúmeros. Enida passou temporadas em casas especializadas, participou do programa de reabilitação da Rede Sarah de Hospitais. Quando o aspecto cognitivo estava melhor, teve vontade de ficar em casa. Caxito viu que era hora de se dedicar integralmente. “Já tinha trabalhado muito. Pensei: o que tiver que fazer pela minha esposa, tenho que fazer agora”, lembra.
Há mais de 20 anos em movimentos de igreja, como o Encontro de Casais com Cristo, o casal hoje dá seu testemunho na mensagem Fé nos reveses da vida. “Não é prazeroso porque o motivo não é o melhor. Meus planos eram outros, mas surgiu essa situação e nunca nos perguntamos por quê. Se eu pudesse ser mais fatalista diria que estava escrito. A maior dificuldade de quem cuida não é dar banho, virar na cama. O difícil é manter o alto astral.”
E a individualidade. Caxito foi alertado por vários especialistas e outras pessoas que enfrentam o mesmo problema: facilmente se anularia. Totalmente dedicado a cuidar da mulher, ele a vira na cama quantas vezes forem necessárias, prepara e serve as refeições, ajuda no banho e cuida para que Enida se sinta bem. Sem condições de sair para o que quer que seja, decidiu aprender sozinho a tocar violão. “Acordo cedo, tomo banho e venho tocar. Depois que ela acorda meu tempo é todo dela.”
ANGÚSTIAA dona de casa Analucia de Souza e Silva, de 60 anos, enfrenta desafio semelhante. Cuidar, com amor, do marido, José Júlio Abreu da Silva, o Zico, de 67. Há quatro anos e meio o comerciante aposentado teve um aneurisma e perdeu os movimentos da parte esquerda do corpo. Perdeu também a fala, o aspecto mais angustiante de sua nova situação. Homem de liderança no bairro e na igreja, onde sempre atuou, Zico apenas balbucia tudo o que gostaria de expressar. Sofre ao não se fazer entender.
Zico não consegue conter as lágrimas ao ouvir a mulher contar como ele era antes do aneurisma. Parece ser difícil se lembrar do homem ativo, animado, que gostava de jogar truco com os amigos e dançar com a mulher. A união de 39 anos, que gerou três filhos e três netos – o quarto está a caminho –, é motivo de sobra para que Analucia dedique todo o seu tempo em amor ao companheiro de tantos anos. “Sei que ele faria o mesmo por mim, mas não é por isso. Cuido dele por amor”, desabafa.
A dificuldade de locomovê-lo sozinha demanda a ajuda de um cuidador das 8h às 18h. Nem assim ela o deixa só. “Se não fosse o peso, não queria ninguém.” Analucia também precisa de cuidados. Enfrenta uma rotina pesada, sofre ao ver o marido debilitado. Mesmo sem ouvir uma palavra sequer, insiste em entender o que Zico quer dizer. “O que mais queria era que ele pudesse falar de novo, se manifestar. Acho que aprendi a conhecê-lo melhor.”
Três perguntas para...FLAVIO CHAIMOWICZ
GERIATRA E PROFESSOR DA FACULDADE DE MEDICINA DA UNIVERSIDADE FEDERAL DE MINAS GERAIS (UFMG)
1)Há um modelo mais adequado de cuidar: familiar, com cuidadores terceirizados, instituições?
Não existe “o” idoso nem a a melhor alternativa para “o” idoso. O cuidado depende do grau de dependência e da quantidade de amor que ele tem disponível. Imagine um idoso altamente dependente, com Parkinson ou AVC grave, que não consegue sair da cama nem comer sozinho. Agora imagine que esse idoso tem uma família ampla, um cônjuge amoroso e filhos presentes. Nesse caso se resolve em casa. Mas se for uma família onde só o cônjuge está disponível, fica muito sobrecarregado. Também não é a indicação para uma instituição, e sim para a combinação do cuidado familiar com um cuidador. A instituição é para quando esse idoso não tem família suficiente ou é muito dependente.
2)O cuidado do cônjuge pode ter algum benefício terapêutico para o idoso doente?
Para o idoso com uma doença neuropsiquiátrica – como AVC, Alzheimer, Parkinson – é muito melhor ficar em casa. Primeiro porque ele merece, tem o direito de ficar nesse ambiente que o faz bem. Os idosos com Alzheimer podem ter muita confusão mental quando mudam de ambiente. Existe a questão de a família querer fazer um revezamento, para que todos os filhos possam participar, mas isso pode promover essa confusão. Mas no caso de um idoso com Alzheimer que já não reconhece a esposa, para ele não faz diferença ser cuidado por ela, um cuidador ou uma instituição. Pode fazer diferença para a esposa que às vezes se sente culpada em colocá-lo em uma instituição ou feliz sem a sobrecarga, visitando-o com frequência.
3)Alguns pacientes resistem em aceitar cuidadores, preferindo seus companheiros, muitas vezes sobrecarregados. Quais são os riscos para quem cuida?
Existem inúmeros estudos demonstrando que quem cuida, se não dividir as tarefas deixará de cuidar de si mesmo. A esposa de um paciente com Alzheimer para começar já fica triste. Ela sabe que não há cura e que a cada ano ele ficará pior. Em segundo lugar, ela perdeu aquele marido com quem conversava, além de agora ter ao lado uma pessoa com um nível de cuidados ininterrupto. Uma pesquisa do Projeto Saúde e Bem-Estar na América Latina, da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), mostrou que os idosos homens dependentes recebem melhores cuidados dos cônjuges do que o contrário. Segundo as pesquisadoras, as idosas de hoje pertencem a um grupo em que era papel da mulher cuidar do marido. O marido cuidar da mulher é novidade, geralmente era a filha quem cuidava. Mas as famílias estão tendo cada vez menos filhos e vivendo mais. Dessa forma, quem vai cuidar é o cônjuge. Isso é uma tendência.
Esta matéria tem: (0) comentários
Não existem comentários ainda