Uma égua magrela enroscada no arame farpado, sangrando até a morte, é cena que comove até os agentes mais experimentados da polícia, na apuração da materialidade da denúncia absurda: crime. Garotos acossaram o animal e tiraram-lhe o último suspiro de vida em farra desumana no ano passado. Mal começou 2013 e vários outros casos de maus-tratos já dão trabalho à Primeira Delegacia Especializada de Investigação de Crimes Contra o Meio Ambiente e Conflitos Agrários, que, há duas semanas, responde também pela recém-criada unidade policial na defesa dos animais.
Na tela do computador do inspetor Adalberto Bernardino Júnior, de 46 anos, a fotografia de outra égua vítima de maus-tratos, socorrida na semana passada no Bairro Calafate, na Região Oeste de Belo Horizonte, é assunto em pauta na roda de policiais. “O responsável pelo animal foi conduzido até a delegacia, onde foi feito o Termo Circunstanciado de Ocorrência (TCO), a partir do qual o autor passa a responder criminalmente pelos maus-tratos”, explica o agente, que tem 27 anos de polícia.
Para a delegada Maria José Mendes Quintino, “a repressão é uma forma muito eficaz de prevenção”. A responsável pela nova unidade policial – embora ainda não tenha recebido nenhuma informação oficial sobre a primeira delegacia especializada em investigação de crimes praticados contra animais e a fauna silvestre – destaca a importância da iniciativa: “Desde que devidamente estruturada e trabalhando da maneira que deve ser, é um grande ganho para a sociedade”.
Do outro lado da linha, coro de reclamações quanto à eficiência dos telefones para denúncia – 181 e (31) 3212-1339. C.R., funcionária de pet shop da Região Centro-Sul, reclama que não conseguiu denunciar um tosador, que, segundo ela, habitualmente bate nos cães mais agitados tratados no estabelecimento. “Falei com o chefe e não resolveu. Liguei para o 181 e disseram que eu precisava ter prova ou ser a dona do animal para denunciar. “
Com anos de experiência no trato de animais, C.R. chama a atenção para que os donos escolham bem o lugar para dar banho, tosar ou medicar seus pequenos de estimação. “É um absurdo. A pessoa tem o maior carinho com o bicho e ele é maltratado num lugar que ganha dinheiro para atender bem”, lamenta. Bruna Houri Lustosa, de 22, no último ano do curso de medicina veterinária, também não obteve sucesso com o disque-denúncia. “Tentei denunciar um caso de maus-tratos numa obra. O cão estava machucado, sem água e comida. Em vão. Não fizeram nada. Tô dando graças a Deus agora, com essa nova delegacia. Vamos ver se vai funcionar, né?”, sorri.
No olho do furacão, ainda mais no papel do que na prática, as denúncias se multiplicam na delegacia, localizada na Rua Piratininga, 105, Bairro Carlos Prates, Região Noroeste. Não apenas os casos que envolvem cavalos ou cachorros, mas também, por exemplo, o tráfico de cobras, negociadas pela internet. Usadas para shows eróticos, uma cobra adulta chega a ser vendida por R$ 5 mil.
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