Publicação: 07/01/2013 10:49 Atualização:
Tudo não passa de uma grande amizade. Uma relação na qual educar e aprender não é uma imposição. Vale mais a troca de experiências, o repasse de valores e os momentos de diversão. A convivência entre avós e netos faz bem aos dois lados. Os mais vividos ganham novo fôlego para encarar os desafios diários. Para os mais novos, o amor doce e incondicional dá a segurança que as crianças precisam para se desenvolverem. Porém, um desentendimento entre pais e mães pode refletir diretamente nessas relações. Para evitar a quebra dos laços familiares, avôs e avós brigam com os filhos para garantir o direito de conviver com aqueles que consideram a continuidade de toda uma geração.
Além da vontade de acompanhar os primeiros passos, as palavras ou o dia em que os netos aprendem a ler, as crianças têm o direito constitucional de conviver com a família materna e a paterna. Manter esse vínculo, no entanto, nem sempre foi fácil para Ana*, 47 anos. O filho, a ex-companheira e a neta moraram com ela no primeiro ano da criança. Quando a relação acabou, os problemas para manter o contato começaram. “Quando ela estava grávida, fizemos todo o enxoval, ajudávamos a criar a menina. Eles se separaram, e ela quis impedir esse convívio. Em algumas ocasiões, a condição para os encontros era o meu filho dizer que a amava (a ex-mulher)”, relata Ana.
Diante da recusa do companheiro, na época com 17 anos, a ex-namorada o proibia de ver a filha. Como consequência, a avó acabava afetada. As visitas eram espaçadas e complicadas. “Pagávamos a pensão, conseguíamos ver a menina de 15 em 15 dias, mas, depois, piorou.” A maior crise ocorreu em 2011, quando a jovem acusou a bisavó da criança de tê-la molestado. O juiz proibiu qualquer tipo de visita, uma vez que todos moram na mesma casa. Uma nova autorização só foi concedida após testes no Instituto de Medicina Legal (IML) com psicólogos e investimento de muito dinheiro em advogados.
A família conseguiu o direito de conviver novamente com a criança, hoje com 5 anos. Em 2012, passaram 15 dias juntos, na véspera do Natal. Mas as sequelas ainda estão na Justiça e no abalo sofrido por todos. “Entramos com uma queixa-crime contra ela pelas calúnias contra a minha mãe, que tem 72 anos. No laudo do psicólogo, a menina diz ‘amo o meu pai, mas não posso dizer isso na frente da minha mãe’”, relata a avó de Rafaela*. “As coisas estão funcionando agora. Vamos esperar. Só quero estar com a minha neta e proporcionar a ela uma convivência no ambiente familiar”, disse.
Para garantir as visitas e até que a menina pudesse passar a noite na casa do pai e da avó, a defesa usou como argumento principal a alienação parental (leia O que diz a lei). No processo, o argumento é de que a mãe tentava separar da criança aqueles que demonstravam um grande afeto por ela. O juiz solicitou um laudo de psicólogos, que deram um resultado favorável à parte paterna. Não houve indícios de que a menina poderia ter sido molestada e, em alguns trechos, ela demonstrou se sentir culpada caso revelasse sentimento pela família.
Danos psicológicos
Para a psicóloga e terapeuta familiar Marília Lohmann Couri, a distância entre netos e avós provoca danos em ambos os lados. “Há um prejuízo na história familiar, são os avós que contam casos dos pais quando pequenos e as crianças se deliciam em saber que os genitores faziam traquinagens e ficavam de castigo”, afirmou.
Segundo a especialista, o dano também é provocado dos pontos de vista emocional e social porque a criança, ao perder o contato com os avós, também se afasta dos tios e dos primos. “Os avós sempre tiveram a fantasia de conviver com os netos, há uma necessidade de estar junto, existe um intercâmbio entre eles. E a criança, ao contrário dos adultos, não entende a alienação parental e encara a distância como uma rejeição”, completou.
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