Quando a diretora da Escola Municipal Casa Meio Norte, em Teresina (PI), Osana Morais, começou a trabalhar no colégio, há 12 anos, os alunos dos primeiros anos do ensino fundamental tinham 15, 16 anos, em clara defasagem idade-série. "Chegavam armados com facas e revólveres. A gente ia pedindo para deixar as armas na entrada da escola e pegar depois. Muitos deixavam e não pegavam mais, a gente ia se desfazendo. Foram dois anos nessa luta", diz.
Dez anos depois, Larissa Leandra, de 11 anos, e Wilklistene Batista, de 10, estudantes do 6 ano, ensaiam a declamação do poema “Clarear”, de autoria de um estudante do 9° ano, Anderson de Oliveira. Iam se apresentar na Assembleia Legislativa do Piauí, na entrega do título de cidadão piauiense ao escritor paulista Ignácio de Loyola Brandão, de quem são fãs. "O poema fala que, quando clareia uma coisa, você pensa. O dia vai clarear e se tem certeza que um povo não deixa de sonhar", diz Larissa. "O conhecimento é isso, ajuda a clarear. Você estuda e aprende, não porque é obrigada, mas porque quer aprender", completa Wilklistene.
Essa nova realidade, uma década depois, aparece na média geral de 6,4 que a Casa Meio Norte conseguiu no Ideb. E não é a primeira vez que o colégio se destaca. Nas avaliações anteriores, a escola já apresentava bons resultados.
A diretora pedagógica Ruthnéia Vieira Lima Costa diz que a maioria dos pais das crianças era de desempregados, subempregados e analfabetos. Muitos eram dependentes químicos, estavam no tráfico ou eram acusados de assaltos. Até dois anos atrás, o bairro Cidade Leste, de onde vêm 90% dos alunos, aparecia com frequência no noticiário policial, por cadáveres que amanheciam nas ruas. Havia mês em que uma turma mudava de professor até cinco vezes, pelo medo da violência. Com a visibilidade da escola, porém, a cidade passou a não ter mais medo da comunidade e começou, inclusive, a dar empregos aos pais dos alunos.
Ruthnéia conta que a solução da direção foi levar a comunidade e os pais para a escola. Pela manhã, as mães têm aulas de ginástica: "Não era só conteúdo que ia melhorar o Ideb. Era humanizar as pessoas, fazer com que se sentissem sujeitos, que a história delas fosse construída por elas. A escola tomou posição de mediadora, para que a chegada aqui não reproduza a desigualdade. Ensinamos que a escada do rico é perfeita, e a dos pobres, não. Tem um degrau, e o outro já é quebrado".
Quando entram na escola — que recebe ajuda do Grupo Meio Norte —, as crianças são avaliadas, para que fiquem em salas segundo suas habilidades. Se a escola percebe que um aluno não acompanha os colegas, ele passa a estudar de manhã e à tarde, se preciso com suporte psicológico.
E, a cada 15 dias, um grupo de alunos avalia os professores; os estudantes também recebem o planejamento das aulas, e sabem, por exemplo, quando um professor pula etapas.
Os alunos escrevem seus próprios livros e têm um Salão do Livro, onde dão autógrafos. Tudo isso cativou o escritor Ignácio de Loyola Brandão: "Tive encantamento de ver pessoas fazendo o que fazem a partir da narração, da contação de histórias. Aí descobri que minha geração queria mudar com armas na mão, e aprendi que pela literatura você pode mudar. A Casa Meio Norte me ensinou isso".
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