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Reação Adesivos identificam carros mal estacionados Campanha cola adesivos em carros que invadem local de pedestres e ciclistas, comportamento comum em diferentes pontos do Recife

Por: Laís Araújo - Diario de Pernambuco

Publicado em: 04/06/2013 12:03 Atualizado em: 05/06/2013 09:14

Adesivos serão colados em veículos que invadirem o espaço do pedestre e do ciclista. Crédito: Cicloação/Reprodução e DP/DA Press. (Fotos: DP/DA/Press. )
Adesivos serão colados em veículos que invadirem o espaço do pedestre e do ciclista. Crédito: Cicloação/Reprodução e DP/DA Press.
Ao constante desrespeito aos pedestres e ciclistas, reação. Desde o último sábado (1), parte da população recifense muniu-se de adesivos que serão colados em carros de motoristas com pouco senso de coletividade, como os que estacionam nas calçadas e ciclofaixas. Mensagens que alertam que o motorista não respeita quem pedala e caminha pela cidade podem ser baixadas pela internet e imprimidas por quem quiser participar da ação. A campanha tornou-se conhecida após ser divulgada em redes sociais pela Cicloação, organização cicloativista do Recife. A autoria do projeto, no entanto, não é clamada pelo grupo e pessoas que não possuem vínculo com organizações ativistas estão participando da campanha.

Como significativa parcela da população, o estudante Thiago Farias faz a maioria dos seus trajetos de ônibus e a pé. Acostumado a presenciar irregularidades, ele relata que se sente ameaçado mesmo nos locais destinados ao pedestre. “Normalmente os motoristas não demostram o menor cuidado em relação a esses espaços. Sinto como se caso eu não ande prestando muita atenção, mesmo na calçada, pudesse levar uma batida de carro sem muita dificuldade”. Ele conta que a sensação advém das vezes que presenciou carros ignorando a faixa de pedestre ou subindo e descendo de calçadas sem prestar atenção nas pessoas que passavam. “Recentemente fiquei muito indignado com um carro perfeitamente estacionado na calçada, o que me obrigou a andar pela rua”. O estudante, que decidiu não confrontar o motorista apesar de ser sentir desrespeitado, diz entender e concordar com a ação dos adesivos. “Acho a ação boa, mas não tenho certeza se traria benefícios de imediato”.

Cezar Martins, funcionário público e ciclista, apoia a atitude e diz que o ato foge dos moldes institucionais, o que é essencial para a criação de debates. “Um adesivo no vidro, que vai dar trabalho pra tirar, mas que não danifica o veículo, se compara a você estacionar na calçada e fazer um pedestre andar na rua entre os carros? Se compara a colocar um carro na frente da rampa de deficiente e fazer um cadeirante girar uma quadra pra conseguir subir a calçada?”, questiona. Ele conta que o motorista está acostumado a ter a cidade construída para ele, chegando ao ponto de invadir o espaço dos pedestres e dos outros modais por não possuir mais espaço na rua. “E qualquer reação da população ainda é muito nova para quem anda de carro. Mas essa reação tem que acontecer, continuar e crescer”.

Com a divulgação da ação, houve também repercussão negativa. Entre os motivos citados por quem não concorda com o protesto, a possível reação agressiva dos motoristas e o risco de danificar propriedade privada. Gustavo Ferreira Santos, professor da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e especialista em direito constitucional, afirma que desde que o adesivo não danifique o veículo, a ação não pode ser caracterizada como dano patrimonial. “Pode-se citar, por exemplo, as propagandas que se colocam nos vidros, que não danificam a propriedade privada e passam uma mensagem. Se o adesivo não causar danos, a lógica é a mesma”. Ele ressalta, no entanto, que o conteúdo da mensagem pode vir a ser tratado como injúria por motoristas que se sentirem injustiçados. “Se a mensagem diz 'esse motorista estacionou em local proibido' ou trata a situação de forma mais pontual, não há problema e a ação seria um exemplo da liberdade de expressão da população. Mas a generalização é mais complexa e pode trazer diferentes interpretações”.

A professora de direito da Universidade Católica de Pernambuco (Unicap) Carolina Ferraz é categórica ao dizer que o aspecto mais relevante da ação é o poder de organização da sociedade civil. “Essa ideia da fiscalização espontânea é muito interessante. A população está agindo para mudar e reconstruir as condutas dela mesma”. Ela cita como exemplo a Prefeitura de São Paulo, que criou e disponibilizou para os habitantes da cidade talões de 'Multa Moral', feitos para serem distribuídos aos carros que estacionam em vagas para deficientes físicos. “A ação teve visibilidade e foi muito eficaz. Lá partiu por intervenção do Estado, mas quando parte da própria população, como aqui em Recife, a campanha é muito mais rica”. Ela cita os direitos à liberdade de expressão e ao protesto como bases para legimitar este tipo de ação.

Derby Center, no Derby, região central do Recife, era ponto conhecido de estacionamento irregular. Foi necessária a instalação de gelos baianos para evitar a invasão de espaço. Foto: Blenda Souto Maior/DA/DP Press.
Derby Center, no Derby, região central do Recife, era ponto conhecido de estacionamento irregular. Foi necessária a instalação de gelos baianos para evitar a invasão de espaço. Foto: Blenda Souto Maior/DA/DP Press.



'Carrocracia' também é causa de carros em locais proibidos

Entender a etimologia da palavra não é complicado. 'Cracia', do grego krato, significa poder, força, governo. Juntar 'cracia' com 'carro' é falar de um tipo de sociedade cujas medidas públicas são tomadas para beneficiar o cidadão motorizado, aquele que possui um carro, mesmo que isso prejudique o resto da população. Entender como a palavra se reflete no dia a dia também não é complicado: em Recife, por exemplo, um trecho da Praça do Parnamirim, no bairro homônimo da Zona Norte, foi retirado pela prefeitura em maio de 2012 para dar mais espaços aos veículos da região.

Érico Andrade, professor de filosofia da UFPE, define o termo. “A carrocracia consiste no constante privilégio por parte do poder público ao transporte individual. É quando existe o foco no carro nas discussões das políticas de mobilidade, mesmo quando o carro é utilizado apenas por uma parcela mínima da população. Em nenhum lugar do mundo o carro é utilizado pela maioria, até porque o seu uso é muito oneroso sócio e ecologicamente”. O professor explica que a carrocracia também está vinculada à tradição de políticas públicas em benefício às classes sociais mais altas. “Um exemplo disso é que quando o transporte alternativo foi retirado das ruas, não foram vistos outdoors, não foram discutidas propostas de contrapartida, como vimos recentemente com a possibilidade do rodízio de carros. O carro é tido como fundamental para a classe média, então reduzir o seu espaço é muito difícil”.

O ciclista Cezar Martins acrescenta que a carrocracia é um dos motivos para vermos cotidianamente cenas de desrespeito nas ruas e calçadas da cidade. “Uma pessoa estaciona na calçada ou na ciclofaixa porque ela respeita mais os carros e os motoristas do que os pedestres e ciclistas, senão ela estacionaria no meio da rua. Mas na cabeça dela, não pode atrapalhar o fluxo de carros, seus pares. Mas o fluxo de pedestres e ciclistas, pode”. Para Érico, exemplos que denunciam esse privilégio podem ser vistos em vários trechos da cidade, como na Rua do Futuro, paralela a Avenida Rosa e Silva, onde há carros estacionados por toda a extensão da via em detrimento da criação de espaço para pedestres ou bicicletas, e na Estrada do Encanamento, Casa Amarela, que foi alvo de reclamações e protesto devido a implantação de ciclofaixa.

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