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Equipe do Consultório da Rua aborda grupo na Avenida Conselheiro Aguiar. Ex-moradores da periferia sucumbem ao vício. Imagem: BLENDA SOUTO MAIOR/DP/D.A PRESS |
A noite aproxima-se com seus personagens de gestos sorrateiros. Na Avenida Conselheiro Aguiar, Boa Viagem, adultos e crianças se confundem com os ratos embaixo das marquises. Garotas de programa e viciados dividem cachimbos de crack. Fumam sem parar. É gente que deixou suas casas na periferia. São 22h quando a van do Consultório de Rua do Recife, programa da prefeitura, estaciona junto de um grupo de usuários. A equipe identifica uma paciente sumida há semanas. É Amália, 32 anos, mãe de quatro filhos, moradora de uma comunidade próxima.
Dados preliminares de uma pesquisa da Fiocruz apontam que o Recife tem pelo menos 500 locais onde a droga é consumida livremente. Os dados põem a capital pernambucana entre as cinco cidades brasileiras onde mais se consome crack, junto com Rio de Janeiro, São Paulo, Salvador e Brasília.
Em Boa Viagem, o Consultório de Rua encontrou Amália drogada e se preparando para fumar mais. O cachimbo já estava nas mãos, mas ela parou para conversar com a equipe, feliz em vê-la de novo. No último encontro, foi socorrida porque passava mal. Faz pequenos roubos para sustentar o vício. “Oferecer crack a alguém é o mesmo que tirar a vida da pessoa”, opina. Minutos depois, Marília, 24, chega. É a primeira vez que a garota de programa entra em contato com o Consultório de Rua. “Só transo com camisinha”, garante, manejando um cachimbo. Sexo barato, que vale por uma pedra de crack.
Para o Consultório, a cracolândia fica mesmo é no mangue que margeia a Avenida dos Palmares, continuação da Rua da Aurora, Santo Amaro. O local conhecido como “Chupa Chupa” é considerado perigoso. “Uma menina de 11 anos frequenta o local. Há uma jovem de 23 com Aids, que diz que não faz questão de preservativo. Acredito que é o espaço onde há maior concentração de uso de crack no Recife”, diz Luciana Espíndola, assistente social do projeto.
Os consultórios são uma das promessas previstas no Plano Estadual de Enfrentamento ao Crack. O objetivo é buscar o dependente nas rua. Participam psicólogos, assistentes sociais e agentes redutores de danos. O Recife tem seis equipes, mas precisaria de mais veículos para atender os pontos com mais frequência. Também há consultórios no Cabo de Santo Agostinho, em Jaboatão, em Olinda e em Paulista.
Resposta lenta
A Fiocruz aponta que 0,9% da população brasileira consome crack, mas a epidemia parece não preocupar os gestores municipais de Pernambuco. Desde o anúncio do plano estadual, em 2010, só foram criados dois centros de atendimento psicossocial fr álcool e drogas II (Caps AD II) com serviço diurno - um em Camaragibe e outro em Abreu e Lima. Juntos, os Caps II são 13, sendo seis no Recife. Serra Talhada também implantou um Caps III, com serviço 24 horas. O plano previa 31 Caps III no estado. “Os municípios alegam dificuldade em manter o serviço”, afirma a coordenadora estadual de Saúde Mental, Marcela Lucena.