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Atravessador compra queijos em São Roque de Minas: dos cerca de 30 mil produtores,
só 175 são regularizados. Imagem: RENATO WEIL/EM/D.A PRESS |
Medeiros (MG), São Roque de Minas (MG) e Campinas (SP) — Para ser vendido em outros estados, o queijo canastra, considerado patrimônio cultural e imaterial de Minas Gerais, precisa se submeter a uma complexa rede de contrabando, que envolve atravessadores (chamados de queijeiros), desvio das rodovias principais por estradas de terra, falsificação de rótulos e esquemas para “esquentar” o produto utilizando registros dos poucos produtores autorizados. A reportagem do Estado de Minas/Diario acompanhou toda a cadeia do queijo, desde o momento em que a vaca é ordenhada até o trabalho do queijeiro, e traça os caminhos obscuros de um dos produtos mais emblemáticos da cultura mineira.
O que se chama de queijeiro é uma empresa, com diversos funcionários, e que há pouco mais de um mês não pode emitir nota fiscal. A pressão maior se deve a uma tentativa do governo estadual de regulamentar a produção. Em janeiro deste ano, foi editada a Lei nº 19.492, que aguarda a regulamentação e pretende minimizar a informalidade na produção. Enquanto isso não acontece, a realidade é outra. Para comercializar, os produtores precisam de um cadastro no Instituto Mineiro de Agropecuária (IMA). A certificação demanda um investimento de R$ 20 mil a R$ 50 mil, dependendo do estado de conservação das instalações da propriedade rural.
Em um universo de mais de 30 mil produtores de queijo em Minas Gerais, apenas 175 têm o cadastro no IMA. A consequência é uma imensa produção que não pode ser comercializada legalmente. Somente em São Roque de Minas são mais de 1,5 mil propriedades, com produção estimada de 40t por semana. A reportagem acompanhou o trabalho de um queijeiro que, na semana passada, levou 9,07t para uma dezena de cidades próximas a Campinas (SP). A principal lei federal que rege a comercialização de queijo é de 1952 e determina que, para um queijo mineiro ser vendido em outro estado, é preciso 60 dias de cura. Ou seja, após produzido, o queijo deve esperar por dois meses em um entreposto fiscalizado pelo Ministério da Agricultura até o momento da venda, quando recebe o carimbo do Serviço de Inspeção Federal (SIF). Existem seis entrepostos em Minas (Abadia dos Dourados, Cruzeiro da Fortaleza, Coromandel, Araxá e dois em Patos de Minas). Apenas 40 produtores são vinculados a eles, o que representa uma comercialização de pouco mais de 40t por mês.
A primeira parte do trabalho do queijeiro é buscar os queijos nas fazendas. A reportagem acompanhou um atravessador, que recolhe os produtos de segunda a quarta. O destino são fábricas de pão de queijo, a maior delas localizada em Hortolândia (SP). São produtos sem nota fiscal e que, além de não cumprirem as regras sanitárias, geram um rombo nos cofres públicos, pois não recolhem impostos. O queijeiro explica que algumas cidades do interior de São Paulo, como Bragança Paulista, tem uma fiscalização mais rigorosa. “Supermercados foram multados por venderem queijo sem o SIF”, explica. A solução foi falsificar rótulos de dois laticínios, um de Araxá e outro de Poços de Caldas. Outra estratégia utilizada é “esquentar” o queijo sem registro no IMA em algumas das 175 queijarias com registro.