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Sinais de derretimento
Edição de quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011 
Sob intensa pressão, presidente egípcio descarta disputar mais uma reeleição e promete transição


Às 23h16 de ontem (19h16 em Brasília), assim que o telão instalado na Praça Tahrir (centro do Cairo) encerrou a transmissão do discurso do presidente egípcio, Hosni Mubarak, centenas de milhares de pessoas tiraram seus sapatos e começaram a agitá-los no ar. ´O gesto significa Mubarak está abaixo de nós, é pior do que todos nós. É um dos maiores insultos do islã", afirmou ao Correio Braziliense/Diario, por telefone, Tarek Shalaby. Acampado desde segunda-feira no centro de Tahrir, o webdesigner e blogueiro de 26 anos contou que a multidão gritou, em uníssono: ´Caia fora!` e ´Nós não sairemos, você sairá`. ´O discurso de Mubarak foi uma perda de tempo, um pedaço de m# Tudo o que ele disse foi besteira, não acreditamos mais dele`, acrescentou Tarek. O dia da chamada ´marcha de um milhão` - manifestação sem precedentes no país - terminou com a sensação de que o presidente sabe que sua legitimidade ´derreteu` na última semana.

A Alta Comissária da ONU para os Direitos Humanos, Navi Pillay, afirmou que o número extra-oficial de mortos nos protestos desde 25 de janeiro chega a 300. Pelo menos 3 mil pessoas ficaram feridas e centenas foram presas. Além da repressão desmedida, Mubarak impôs uma censura nunca antes vista à internet. Bloqueou todos os provedores de acesso à rede de computadores e proibiu o uso do site de relacionamento Facebook e do microblog Twitter. Até operadoras de celular deixaram de funcionar durante alguns dias.

Mubarak reconheceu que o Egito atravessa um ´momento difícil`, acusou grupos políticos opositores de terem incitado a violência e prometeu não disputar as eleições de setembro. ´Não é da minha natureza fugir da responsabilidade`, declarou, em pronunciamento na rede TV Al-Hayat. O líder egípcio assegurou que as pessoas têm o direito de se manifestar pacificamente. ´Essas demonstrações se moveram de civilizadas práticas de liberdade de expressão para confrontação organizada por grupos políticos, a fim de criar saques, incêndios e ataques contra instituições públicas`, disse. Segundo ele, os últimos acontecimentos obrigaram-no a escolher entre a estabilidade e o caos. ´Iniciei um novo governo, com novas prioridades, para atender as demandas da população, e aceitei o diálogo com todas as forças políticas. O convite está em aberto`, disse.

Durante os 10 minutos de discurso, Mubarak tentou transmitir sinceridade. Usou a palavra ´honestidade` várias vezes. ´Com toda honestidade, eu nunca pretendi disputar as próximas eleições. Fiquei tempo o bastante servindo ao meu país`, afirmou o líder, que governa o Egito desde 1981. ´Honestamente, determinei à polícia que proteja o cidadão e respeite sua dignidade`, garantiu.

A oposição aproveitou a ´marcha de um milhão` para intensificar a pressão sobre Mubarak. Mohammed ElBaradei, ex-chefe da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) e Prêmio Nobel da Paz, exortou o mandatário a uma ´saída honrosa` e impôs um prazo para a renúncia. ´O presidente egípcio Hosni Mubarak deve abandonar o poder até sexta-feira. Os egípcios querem que ele saia hoje mesmo ou, nomais tardar, na sexta-feira`, disse ElBaradei. ´Sexta-feira foi batizado de 'o dia da saída'`, completou. Fontes de segurança do Egito estimaram em 500 mil o número de pessoas que se concentraram na Praça Tahrir. Em Alexandria, a segunda maior cidade do país, entre 400 mil e 500 mil manifestantes tomaram as ruas. (Rodrigo Craveiro)

"Aceitei o diálogo com todas as forças políticas. O convite está em aberto" Hosni Mubarak, presidente do Egito, em pronunciamento na TV

"O discurso de Mubarak foi uma perda de tempo, um pedaço de m# Tudo o que ele disse foi besteira, não acreditamos mais dele" Tarek Shalaby, blogueiro egípcio

"Os egípcios querem que ele saia hoje mesmo ou, no mais tardar, na sexta-feira" Mohammed ElBaradei, Prêmio Nobel da Paz



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