Nos últimos 30 anos, com o declínio da cobertura de neve e gelo na superfície da Terra, diminuiu também a capacidade de o planeta refletir a luz do Sol, mandando parte da radiação de volta ao espaço. Com isso, pode-se esperar um nível de aquecimento global muito maior do que o previsto mesmo pelos mais drásticos modelos climáticos. É o que defende um grupo de pesquisadores que, a partir de dados obtidos por satélite, estudou os efeitos do derretimento do Mar Ártico na temperatura.
Estudiosos dizem que se pode esperar um aquecimento global muito maior do que o previsto pelos modelos climáticos. Resfriamento vem diminuindo desde o ano de 1979. Foto: Tina Coelho/CB/D.A Press A pesquisa, publicada na edição on-line da revista especializada Nature Geoscience, concentrou-se no feedback do albedo - a habilidade da porção da Terra que contém água em forma sólida, como gelo, neve e calotas polares, de refletir os raios solares e mandar parte do calor de volta para o espaço. Essas regiões congeladas formam a chamada criosfera, uma peça-chave para o termostato natural do planeta. Como tem uma condutividade térmica baixa, o gelo funciona como isolante, reduzindo a quantidade de calor trocada entre a Terra e a atmosfera. Com menos camadas congeladas, o oceano fica mais exposto à luz do Sol, absorvendo e irradiando mais calor.

Os cientistas das universidades americanas de Michigan e Oregon descobriram que o resfriamento da criosfera vem diminuindo desde 1979, ao mesmo tempo em que decresce a cobertura de neve na terra e de gelo nos oceanos. De acordo com o estudo, é uma queda ´substancialmente maior que as estimativas obtidas por 18 modelos climáticos`, incluindo as predições do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas das Nações Unidas, o IPCC.
´Atualmente, a criosfera não se resfria como há 30 anos, e as simulações não têm reproduzido esse efeito`, diz ao Correio a pesquisadora da Universidade do Estado de Oregon Karen Shell. Cientista atmosférica e coautora do estudo, Karen diz que, embora não se possa, necessariamente, atribuir o fenômeno ao aquecimento global provocado pelo homem, o efeito do menor resfriamento da criosfera vai provocar o aumento da temperatura do planeta.
Com base em dados coletados pelo National Snow and Ice Data Center, dos Estados Unidos, e da Agência Espacial Americana (Nasa), entre outras fontes oficiais, os cientistas analisaram a média de energia refletida pela criosfera entre 1979 e 2008. Atualmente, o gelo e a neve do Ártico, incluindo a Groenlândia, refletem 3,3 watts por metro quadrado - 0,45 watts por metro quadrado a menos em comparação com 1979. Segundo os pesquisadores, para cada 1ºC a mais, a energia refletida cai entre 0,3 e 1,1 watts. No período analisado - 30 anos -, a região aqueceu 0,75ºC.
À medida que a área fica mais quente, perde-se mais gelo e neve e, como em um efeito cascata, é maior a probabilidade de as temperaturas subirem, como consequência. ´Isso significa que a criosfera está respondendo ao aquecimento e levando ao aumento da temperatura, de forma mais grave do que previamente pensávamos`, afirma ao Correio o pesquisador da Universidade de Michigan Mark Flanner, também coautor do estudo.
Ele afirma que não épossível, porém, dizer exatamente quão quente o planeta ficará por causa do fenômeno. ´Se a Terra fosse uma rocha estática, poderíamos calcular precisamente o nível de aquecimento. Mas nossa análise das mudanças na cobertura de neve e gelo nos últimos 30 anos indicam que o feedback da criosfera é quase duas vezes mais forte do que os modelos anteriores sustentavam. A implicação é que o clima do planeta pode ser mais sensível ao aumento, na atmosfera, das emissões de dióxido de carbono do que os modelos climáticos predizem`, afirma Flanner.
Segundo Karen Shell, parte do declínio no resfriamento da criosfera pode ser atribuído à variação natural do clima. ´Trinta anos não é um período de tempo tão longo para se atribuir o fenômeno totalmente à influência antropogênica`, pondera. ´Mas a perda do resfriamento é significativa. A taxa de energia que vem sendo absorvida pela Terra, em vez de ser refletida de volta à atmosfera, é quase 30% da taxa de absorção extra de energia provocada pelo aumento das emissões de carbono entre a época pré-industrial e o presente`, diz.
Embora localizado geograficamente no Hemisfério Norte, o Mar Ártico é essencial para o equilíbrio energético de todo o planeta. De acordo com Flanner, em uma escala global, a Terra absorve energia solar em uma taxa de 240 watts por metro quadrado ao longo do ano. ´O planeta seria mais escuro e absorveria 3,3 watts a mais sem a criosfera do Hemisfério Norte`, exemplifica.